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Pimenta Rosa

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O tempero brasileiro é o melhor do mundo. Nossa comida sempre tem cor, tem sabor, mistura de iguarias e condimentos naturais. Sim, eu sei que tem gente que prefere o "sazón" original ou genérico, o "milagre japonês" ajinomoto, mas dessas pessoas a gente fala depois. Agora vamos falar de um assunto sério: você prefere coentro ou salsa? Eu já digo logo que sou uma péssima dançarina. Mas, na cozinha, confesso que tenho um pé em cada lado. O coentro, esse tempero controverso, amado no Norte e Nordeste e execrado por alguns paladares sensíveis do restante do Brasil, ele carrega na folha aquele frescor de maresia e um quê de ancestralidade indígena. A salsa, por outro lado, é diplomática, aceita em qualquer mesa, vai do feijão tropeiro ao arroz de festa. Mas se tem um tempero que prova nossa brasilidade — sem precisar dizer uma só palavra — é a pimenta-rosa. Primeiro, porque de pimenta ela só tem o nome — sua picância é quase um sussurro, um calor gentil. Depois, porque e...

Araras amadas

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  Que o Tocantins é lindo, todos sabemos! Nós, privilegiados, que aqui moramos, não perdemos nenhuma oportunidade de cantarmos suas belezas. Isto é uma prova de amor! O que dizer sobre as araras que cruzam o nosso céu, deixando-nos embevecidos, admirando seus voos? Sempre aos pares, tagarelando. Ao vê-las diariamente, dou asas à minha imaginação que me faz mergulhar nas incontáveis lembranças que venho colecionando ao longo dos meus anos. Dentre essas recordações, há algumas, em que as araras estiveram presentes na minha história. Quando tinha dezoito anos, como professora primária recém-formada, fui lecionar no sítio Bairro do Macuco, perto de Assis, minha cidade natal, no Estado de São Paulo.  Lá, na humilde casa onde me hospedava havia uma arara vermelha. Coitada: ela não voava, só pulava ou andava. A dona da casa me dissera que alguém tinha cortado as asas da arara para que ela não fugisse.  Era linda aquela arara, mas não gostava de mim. Cada vez que me via, corria n...

Constança e Esperança

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  Será Esperança o motor de minhas paixões? Guardo e uso com certa ternura a palavra esperança. Uma vez vivi um intenso amor com uma mulher Esperança. Acho belíssimo o nome e encontro amiúde a palavra na literatura, em poesias e canções. Por esses dias a palavra me pareceu piegas. Tão piegas quanto novelas de televisão. Encontrei no sentido de desejo, quiçá uma maneira mais apropriada de definir uma sensação mais do que um sentimento. Uma sensação que sobrevive a toda a tristeza atávica que conjura o ser humano. Estar num mundo que é triste apela para uma razão matemática do ser. A interferência elétrica do desejo, que é uma intervenção material, sensível nos músculos, no sangue, na temperatura do corpo, produz em mim a tal sensação, um fluxo de emocionada felicidade orgástica como a plenitude.  Na imaginação isso revelará então o sonho. A plenitude do ser consumada na imaginação. No mais profundo poço de melancolia sobrevive a eletricidade do desejo. Será possível a realizaçã...

Kant, Marx, Nietzsche

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  Ele deu ao cão o nome Kant; ao gato, Marx. Kant, porque queria o pensador vira-lata, um diógenes estoico. Marx, não soube o porquê. Marx, o mouro, tinha cabelo e barba negros. O gato era amarelo. Marx belo, impetuoso, inimigo de idealistas, espiritualistas, tão chão, e material. Expulso dos lugares onde atuou e autuou os exploradores de homens. O gato, preguiçoso, sem cercas, passeante sobre muros como se calçadas fossem. Cão e gato se davam bem. Lambiam-se. Mas cada qual no seu prato de ração. Individível. Na fome, não há civilidade que se sustente. E aí apareceu o sapo. Do nada, não se sabe de onde. Surgiu no jardim, sem convite. Deu a ele o nome Nietzsche. Telúrico? Talvez por isso. Nietzsche tomava banho no pote da água dos dois. Indiferente, cagava ali. De manhã, a água turva. Por que Kant e Marx não se zangavam com ele, não dava para entender. Kant diria para fazer aos outros o que poderia ser uma norma universal de conduta. Se ele caga, eu não cago. Se ele quer a guerra, q...

O caso da moça com Affonso Romano de Sant'Anna

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Soube há pouco do falecimento do professor, pesquisador e escritor Affonso Romano de Sant’Anna. Não sabia que estava doente, que tinha Alzheimer, essa doença que me assusta, porque sei que tudo o que somos se vai quando a memória acaba, que sem memória não há propriamente um sujeito. Segue logo depois de sua companheira, Marina Colasanti, o que me leva a pensar nos laços que ligam as pessoas, na ausência que conta para a decisão de partir, mesmo que precária seja a capacidade da vontade.  Daí me lembrei do caso da moça com o poeta. Vou contar brevemente, eliminando muitos detalhes, porque há coisas que ela não me autoriza a revelar, outras sim.  Ela fazia então uma curso de especialização. Uma primeira disciplina tinha sido um desastre: a professora de Tecnologia Educacional falava das técnicas, metodologias, tecnologias e ela discutia que tudo isso seria secundário, porque havia algo mais profundo e determinante, que seria, por exemplo, o recorte de natureza ideológica dos co...

Quando chove sobre o cerrado

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Filho desse cerrado agreste, herdeiro de um sol implacável e generoso. Nos olhos e no paladar vivencio outra sorte de estação quando chega esse tempinho de chuva. Na memória afetiva e no diário de leituras faiscam lembranças recorrentes.  Recordo quando corri os olhos sobre o romance "Chove sobre minha infância", de Miguel Sanches Neto. Durante a leitura, o autor me fez resgatar mais um embornal de recordações dos dias de chuva, quando de minha infância sertaneja: “Chovia demais naquela manhã, uma chuva que molhava o piso de vermelhão da varanda da casa onde morávamos... A chuva alagando o território onde aquele que fui brincava de escorregar no piso.” Tempos depois, vi o filme "Está chovendo sobre Santiago", fiquei me perguntando sobre o sentido do título e refletindo acerca dos desdobramentos do golpe de estado chileno, uma longa e pesada noite iniciada no ano de 1973. No anúncio das primeiras chuvas do ano, renova-se a expectativa de sempre: tempo do pequi, burit...

O Ermitão da Serra do Lajeado

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  Dizem que ele chegou faz tempo, mas tempo de mato, que não se conta em calendário, só em poeira e sol. Uns falam que deram fé dele numa tarde quente, quando o céu de Palmas sangra de laranja antes da noite engolir tudo. Outros garantem que ele sempre esteve por ali, feito pedra antiga, feito vento de agosto. Mora lá no alto da serra, escondido entre os galhos retorcidos e os murmúrios da mata. Não tem casa, tem gruta. Não tem vizinho, tem bicho. Dizem que ele conversa com as corujas e entende o que as formigas cochicham. De comer, ele se ajeita com os frutos que o mato dá: pega cagaita, ingá, araticum. Às vezes, quando tem fartura, acham que ele faz fogo e assa mandioca brava. De beber, só água das cachoeiras, porque rio, quando não tá seco, corre limpo. Mas não tá só. Nunca tá. Um lobo-guará anda sempre a seu lado, bicho esguio, de pelo vermelho queimado de sol. Dizem que o velho achou ele ainda pequeno, magro, abandonado na beirada da trilha. Criou como se fosse de sangue. O lo...