Postagens

Mostrando postagens de março, 2026

O Sol é o limite

Imagem
  Um dia o conde Wlad soube que, por essas paragens, havia mulheres de sangue tão delicioso que parecia leite e mel. Então ele resolveu ligar para o Epstein para arrumar um lugar aqui em Palmas, uma hospedagem discreta. O homem ligou para o Trump, que ligou para o Temer, então arrumaram o melhor lugar: a velha galeria fantasmagórica Wilson Vaz — melhor lugar impossível para tipos como aquele. Então ele veio, batendo asas aqui, se escondendo ali, sonhando com o saboroso néctar tocantinense, tonificado com uma porcentagem goiana e maranhense. Se alojou no último piso, onde ninguém ia. O lugar era assustador, até para ele. As primeiras noites foram insanas. Nem precisava ir muito longe: o Tendencies Bar estava logo ali. Virou freguês. Anos passaram, e ele já chamava todos pelo nome e até já tinha esquecido que era uma criatura da noite, apesar de ainda dar umas chupadas — mas agora era só no pessoal da Vila União, da 112, de Taquaralto e das Aurenys; não pegava mais os brothers do qua...

O pedido

Imagem
  Tenho um amigo muito folgado. Toda vez que viajo ele prontamente me liga e pede que lhe traga alguma coisa do local onde estou. Como viajo muito de avião, às vezes o que ele pede é impossível de embarcar. Já dispensei televisão, geladeira e carrinho de mão. Mas me comprometi e trouxe violão, vaso de porcelana e ovos de avestruz.  Agora sempre que viajo faço como Bolsonaro após a derrota para Lula nas eleições: entro num mutismo que muitos pensam que morri. Mas não tem jeito, ele acaba descobrindo porque sou traído pelas fotos no "story" das redes sociais.  E a última foi ontem. Ele descobriu que eu estava em Curitiba. E me ligou de imediato. A ligação não estava muito boa e não compreendi perfeitamente o que me pedia para comprar. Intuí que era um absurdo e resolvi checar. -Você tá louco, quer que compre para você doze pratos? - Não, você se enganou - ele disse e eu me senti aliviado. - Então o que você quer que eu compre? -Vou repetir devagar para não deixar dúvida. - ...

Pipoca é melhor que alguns humanos

Imagem
  Acordo com a escalada do noticiário da madrugada e desperto com a tortura e a morte violenta do cãozinho Orelha, em Florianópolis.  Saio para ir à panificadora e levo ração para alimentar alguns gatos que vivem nos arredores. Na praça da quadra, encontro e cumprimento um morador que passeia com dois belos amigos caninos. Ele me diz, entristecido, que uma das cadelas está machucada. Um humano, adulto, a feriu com um pau enquanto ela brincava na praça. Ciente da constante violência e do abuso que geram sofrimento aos animais, eu me solidarizo com ele. Nem sempre eu fui assim. Houve um hiato em minha vida, quando ignorei a luta das mamães caninas e felinas para proteger seus filhotes, e desviava o olhar para não ver a fome e a agonia dos que vivem nas ruas. Em minha infância, tivemos a companhia de vários bichos em nossa casa. A maioria cachorros, nenhum gato. Quando nasci, mamãe já criava um jabuti que viveu conosco por trinta e oito anos até ser roubado por mãos humanas. Noss...

Do amor e suas demências

Imagem
                Nós, às vezes, nos embrenhamos de tal forma nas recordações do passado, que o já acontecido se levanta das vias da memória e se corporifica no presente. Conceição Evaristo, Canção para ninar menino grande .   A leitura de Conceição Evaristo e a história de Fio Jasmim a levam à urgência da escrita, não aquela pretendida, que deveria registrar, enfim, em termos teóricos, incidindo na descrição da forma da escrevivência, mas uma outra, a subjetiva, ainda sem forma, pela insaciável presença da memória que irrompe sob a provocação do encontro com a narrativa poética. E então. Lembrou-se do tempo em que tinha o sujeito – que considerava amar – como o grande interlocutor. A esse pobre sujeito eleito, à revelia de suas desconhecidas vontades, destinava tudo que escrevia. E pensava. Era para ela uma espécie de amigo imaginário, inventado certamente pela incapacidade de resistir na solidão. Em vez de and...