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Com tradição

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  Assisti a uma entrevista com o autor de Brasil no Espelho, livro que registra o que 10 mil brasileiros falaram sobre si e sobre o próprio país. Uma coisa que me chamou a atenção na entrevista com o autor Felipe Nunes foi que ele diz que o brasileiro é um dos povos que mais desconfiam dos outros. Na entrevista, ele não fala o número exato e eu fui atrás. Encontrei que 94% dos brasileiros dizem que "é preciso ser muito cuidadoso com as pessoas", enquanto 6% dizem que podemos confiar na maioria das pessoas. Comparando com o mundo, o Brasil só fica à frente do Zimbábue no índice de confiança interpessoal. Maldade comparar com o Zimbábue, mas é o que tá na pesquisa. Lembrei até da obra da artista zimbabuense Prudence Chimutuwah, que faz seus quadros com antigas cédulas de alta denominação, de 500 milhões, de 1 bilhão, 50 bilhões e até 100 trilhões, que perderam totalmente o valor econômico por conta da situação do seu país. Deixando essa lembrança intrusiva de lado e indo mais a...

Tempo Perdido

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  Durante muito tempo duvidei da existência de seres interplanetários. Depois, mudei a percepção e, embora sem nenhuma prova robusta, tenho convicção de que eles existem. O que alterou meu entendimento foi uma conversa com um amigo, de São João do Araguaia, no Pará. Ele contou de um avistamento que presenciou e exigiu segredo. Imediatamente, assegurei:  – Sou um túmulo! O beiradeiro confidenciou-me que, na madrugada, pescava com dois amigos no encontro dos rios Araguaia e Tocantins quando uma luz branca brilhou sobre eles. A água vibrou como gotas saltitantes e, aterrorizados, eles mergulharam e se esconderam entre os sarãs. Minutos depois, a luz se apagou e os três retornaram para a canoa. Sem entender o que se passava, remaram até dois outros pescadores, um pouco adiante. Os homens falavam sobre o estranho fenômeno no momento em que o aparelho se iluminou acima deles. As luzes refletiam cores tão variadas que eles ignoravam os tons e os matizes. Um dos pescadores atirou para...

Como se tornar uma árvore

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  Acreditava que a santidade está ou se alcança quando a pessoa consegue virar uma árvore. Não no sentido literal, é claro. Mas aquela pessoa em que as aves se aproximam e chegam até pousar na sua cabeça, no seu ombro ou mesmo na sua mão. Esse é o maior grau de santidade que um homem pode alcançar. Acreditava ele. Um São Francisco do Século XXI. Era o que todos deveríamos procurar ser. O lance era saber separar o vegetal do reino homônimo do vegetal homem. Lasca de ser que, surpreendentemente, cria raízes sem nem mesmo ter onde enterrá-las. E vegeta em rotinas, horários, compromissos, contas, afazeres que nunca dizem o que ele é. E cada vez o distanciam mais dele mesmo.  Como consegue alimentar essas raízes podres e vampirescas? Cria lodo e limo em relações que eram para ser faiscantes, fogo de vida, de alumbramento e suspiração. Ao contrário, amarras humanas que o puxam para baixo, pro fundo da terra, afundando-o cada vez mais no fosso do entorpecimento, do tédio e do esqueci...

A Jatobá

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  Todo dia é dia de alguma coisa. E um dia desses foi o Dia Nacional da Cachaça. Vi isso e me lembrei que meu pai gostava de presentear seus amigos com um litro de cachaça. Pois é. Mas não era qualquer cachaça, era a Jatobá, o aguardente mais especial, tipo exportação, de Penalva, cidade do interior do interior do Maranhão e adjacências. Essa cachaça era vendida nas melhores mercearias da cidade e nas pequenas casas de vender fumo, arroz e farinha. O negócio dos meus pais estava entre esses dois. Mais para o segundo, para ser sincero. O lugarejo que fabricava a Jatobá levava o mesmo nome. Mas nunca cheguei a conhecer. Ficava mesmo era sentado num banco de madeira próximo ao balcão com os pés ao ar, sentindo o frescor da cana passar, acompanhando o bafo dos apreciadores da branquinha. Deixava de balançar os pés e às vezes me tornava garçom, maître, desse objeto de desejo tanto pelos que têm dinheiro quanto pelos que não têm. Minha mãe me afastava e assumia o posto. Para ela os bêbad...

Bicicleta na Bahia

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  Para Bete Barros   O destino das bicicletas é andar pelo mundo. Nem sempre é tão livre o passeio. Em Araguaína, na Castelo Branco, nem recomendo. Sem faixa para ciclistas, a pressa de motos, dos automóveis e dos caminhões, disputando a pista dupla... Também nem recomendo a Castelo Branco a pé, porque os carros ficam nas calçadas, com carrinhos de mão, escadas, propaganda de tinta, casinhas de cachorro, saco de cimento, panelas, pneus. Como diria Marc Augé, a agitada avenida com nome de ditador poderia se caracterizar como um não-lugar.  Tenho, porém, afetos pelos comerciantes que nos atendem, sabem o que comem meus gatos e cachorros, o tipo de pneu para meu carro e a marca de cerveja que bebo. Tenho também prazer estético ao ver brilhantes panelas de alumínio penduradas em uma das lojas. Apesar de tudo, o lugar resiste como tal, com amizades que driblam o trânsito e o tempo. E com muitas bicicletas, apesar dos riscos. Eis então uma moça, a protagonista da nossa hist...

A merda e o ventilador

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  Sempre que alguém joga merda no ventilador, me vem a ponderação de perguntar: moço, nessa brincadeirinha aí, quem é a merda e quem é o ventilador? De tanta merda produzida e de tanto ventilador ligado, fica difícil distinguir. Mas não custa nada perguntar, né?! Ou melhor, custa. E a gente sabe muito bem o quanto custa. Pagando o preço de ousar falar qualquer coisa que seja, vale mais a pena falar do que calar, alerta o terapeuta. E, se for colocar para fora um discurso pronto, use um pouco usado para soar novo, único, seu ou, pelo menos, diferente do mingau de IA que inunda esta e todas as outras redes sociais. Assuma o seu lugar de ventilador, mais do que de merda. Eu ainda prefiro ser ingênuo de acreditar que a gente pode ventilar coisas mais agradáveis. Mas é aquele negócio: se pisar na merda, abra os dedos. Merdas acontecem e você não vai ficar com elas na mão, correndo o risco de alguém questionar: afinal, tu é merda ou é ventilador?

Gostas de literatura tocantina em oceanos de letras portuguesas

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  Nesse mundo atual de oceanos e mares de distanciamento dos artistas verdadeiros dos fakes de plantão, uma notícia extraordinária marulhou nos olhos e ouvidos do mundo todo e, principalmente, dos tocantinos: jjLeandro, pseudônimo literário de José Leandro Bezerra Júnior, teve o seu livro de contos Mobília Humana selecionado como semifinalista na categoria prosa do prestigiado Oceanos de Literatura. Uma façanha, considerando-se que este ano o dito prêmio anunciou 54 livros semifinalistas, sendo 26 títulos de prosa e 28 de poesia, escolhidos entre 3.086 obras inscritas por autores de 13 nacionalidades diferentes. A seleção reúne escritores de Angola, Brasil, Moçambique e Portugal, publicados por selos editoriais brasileiros, moçambicanos e portugueses. A próxima etapa está prevista para indicar os cinco concorrentes à final, esta que deverá ocorrer até 12 de outubro. Ainda mais porque na categoria prosa concorrem romances e contos, em que tradicionalmente há a preferência de indicaç...