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A exemplar Canoinhas

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  Há uma Ciência da Literatura, conhecida como Crítica Literária. E há uma Moral sobre a Literatura que deveria ser batizada por Novus Index Prohibitorum Contemporaneum (NIPCon) . Eu que odeio siglas, por achá-las uma preguiça da língua, vou-me permitir uma exceção. Conste-se o NIPCon. A Ciência da Literatura tem suas fogueiras. O NIPCon muito mais. Ambos só têm existências atiçando chamas e atirando achas à fogueira. Outro dia, queriam o Itamar na fogueira, acusando-o de anacronismo estilístico, caducada originalidade e clichê pelo retorno a uma narrativa regionalista. Também, na França, crivaram o jovem escritor Louis Édouard pelo uso de experiências pessoais, das violências domésticas, pelos sofrimentos recebidos por ser gay, de usurpar o status de romancista reconhecido. A Crítica edifica suas fogueiras, borrifa suas águas bentas e sutiliza seus manuais de exorcismo. Felizmente, a criação literária, para ser genuína, ocorre longe do seu alcance.   Poetas, contistas, roma...

Dark a 99%

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Neste meado de maio que antecede as eleições presidenciais no Brasil, meus olhos incréus das soluções simplistas se entregaram a um sorriso triste, desses sorrisos de quem se sabe órfão da verdade, quando se anunciou, oficialmente, que a familícia está envolvida até o talo com a engrenagem sombria do Vorcaro através do Banco Master. Enfim, meus olhos viram, sob a luz dos holofotes da imprensa, o que já viam desenrolar na treva densa, por trás das cortinas de fumaça. O filme Dark Horse (significa cavalo azarão, o que ninguém bota fé mas ganha a corrida) nos foi apresentado como um esquema do submundo (sombrio, sombrio) político-delinquente, pensado na medida para arrecadar fundos. Aliás, a grana do Master foi para um fundo chamado Havengate Development Fund LP, um portão do céu implantado lá no Texas do tio Sam, do MAGA e daquele laranjão que o Jair Messias confessou amar. O mais estranho para quem crê seja suficiente a solução simplista é que a produtora do filme declarou que não r...

Futebol é para todes

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  Em ano de Copa do Mundo, a pauta em qualquer conversa no Brasil termina em futebol. Para manter-me atualizado, assisto aos debates intermináveis dos programas esportivos, mas percebo uma desproporção entre homens e mulheres na composição das bancadas; mais rara ainda é a presença de gays. Enquanto eu vivi nas sombras, nunca fui questionado sobre gostar de futebol; porém, depois que quebrei o armário e o triturei no moedor de purpurina, sempre ouvi piadinhas sobre meu interesse por um esporte tão masculinizado. A participação das mulheres no mundo do futebol iniciou-se ainda em 1895; mas no Brasil, de 1941 até 1979, elas eram proibidas de praticar o esporte e somente no ano de 1983 foi regulamentada a modalidade. No meio masculino, a luta era para manter longe dos olhos e dos comentários ferinos qualquer resquício de homossexualidade que, porventura, florescesse entre os jogadores. Todos tinham que ser cabra macho. Reinaldo, ex-jogador do Atlético Mineiro e um dos melhores atacant...

O faquir

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  Vendo outro dia num site a foto do grosso da minha turma - formada um semestre antes de mim no curso de Jornalismo em Goiânia -, percebi que ninguém usava beca. Não questionarei se era desapego ou rebeldia à tradição. Vivíamos dias duros da ditadura que esboroava e se fosse um protesto estava justificado. Além do mais sei que jornalista é assim mesmo: muitas ideias na cabeça e uma disposição para contrariar as formalidades e as tradições.  Mas comigo se deu o contrário: eu e os outros retardatários formamos de beca. A retrógrada beca, que me causou muitos transtornos. Quando penso nela o que imediatamente me vem à mente é uma tremenda fome. Isso mesmo! O que tem uma coisa a ver com a outra? talvez todos perguntem. Calma que já explico. E me entenderão.  Para me formar, tive que fazer curso para faquir. Isso, faquir. Aqueles ascetas indianos, magrinhos, que suportam sacrifícios sobre-humanos.  Já trabalhava, tinha até um troco no banco, mas, mais por desleixo que qu...

Dia do Trabalho

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  Crônica para mim é assim: necessidade de escrever. Às vezes, a ideia vem sei lá de onde, motivada por sei lá o quê, de um acontecimento ou notícia lida rapidamente e eis que vem a urgência: é preciso escrever. E surge tão natural, sem muita preocupação estética, apenas pelo dever dizer, mesmo que esse dever soe banal, gratuito, sem qualquer questão que mude o curso da humanidade. Como a escrita demanda tempo, muitas as ideias morrem. No final do dia, como saber a urgência que motivava a escrita na manhã? Perdeu-se entre as chamadas demandas ditas sérias, aquelas de que se ocupam as pessoas da classe trabalhadora.   Prometi uma crônica para o Dia do Trabalho. Disse que estava preparando, afiando a foice e o martelo. Afiei? Muitas questões a motivaram durante a semana, mas o tempo... Uma coisa é o escritor profissional, que até bate ponto diante do computador ou do papel. O outro é o que escreve quando surge a convergência entre a muita vontade, o tema e, principalmente, ...

Procura-se

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  Adoro texto bem escrito. Seja lá o que isso possa significar. Pode ter erro de concordância, erro gramatical ou até ser contra tudo o que eu defendo. Gosto de textos bem escritos. E eu acabo coletando alguns deles. Mas, assim como animais que perdem as sementes que coletam, volta e meia não sei onde guardei o diabo desses textos bem escritos. No entanto, nesta semana encontrei este: " Desde dezembro de 2009 que eu amo essa mulher! A gente passou novembro visitando o Orkut um do outro e se olhando no corredor do bloco A. Poucos dias antes das férias eu voltava da biblioteca, que ainda era no bloco I, e encontrei com ela no caminho. Tomei coragem. Ela perguntou o que eu estava lendo. Conversa vai, vem. A gente senta no ponto do busão e rola o primeiro beijo. Até hoje lembro do que ela vestia e do que Hans Jonas dizia ser  "O princípio responsabilidade", que usei como base da minha argumentação na redação do concurso que fiz 4 anos depois. Tem gente que nos vê hoje e só l...

Quinas

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  Desde que me tornei mãe de uma menina, minha percepção do mundo mudou de tamanho, forma e urgência. Ganhei um novo par de olhos e um novo par de pernas. Os dela. E, com isso, ganhei também uma porção de medos que antes nem nome tinham. Ela ainda era só um respiro curto entre mamadas e chorinhos quando comecei a treinar uma nova habilidade: detectar perigos invisíveis e, conforme ela cresce, me antecipar nas precauções. Ando tendo muitos déjà-vus. Quinas de móveis viraram monstros à espreita. Tomadas passaram a ter algo de ameaçador. Tapetes escorregadios, copos de vidro ao alcance das mãos, escadas, janelas... Até o silêncio longo demais já me faz temer. Tudo é motivo de alerta. Eu até tento ser mais rápida que esses pequenos olhos e pernas ligeiras que querem descobrir tudo de uma vez. Eu me tornei especialista em prever acidentes que nunca aconteceram. E, mesmo assim, agradeço por isso. Porque ser mãe é, entre tantas coisas, evitar o que ninguém nunca verá. Queria que meu medo ...