A onça cantora
Há casos que um cronista jamais deveria contar — por mais interessantes que sejam — para evitar risco de ser confundido com caçador ou pescador. Por achar que há mais absurdo na vida do que numa história — entre tantas que acontecem ou são inventadas —, não vou deixar de contar a que ouvi na fazenda em conversa de peão. Manoel entretinha com seu fabulário — no intervalo do almoço — os oito homens que roçavam pasto. Boquiabertos, deixavam-se levar pela vivacidade do vaqueiro quando ele resolveu então forçar a credulidade dos peões com a história da onça cantora. “Cantora?”, surpreendeu-se um. “Cantora, sim”, reafirmou Manoel. O homem calou-se, mas olhou para os companheiros em busca de aprovação para a suspeita de que ouviriam uma mentira. Um velho de pele curtida piscou um olho para acalmar o incrédulo e permitir Manoel ir avante. E ele não esperou: “Numa noite de puro breu eu, o Anacleto e o Zózimo fomos caçar uma onça faminta que andava comendo bezerros na fazenda. Pratic...