A volta de Pelé
Solé ficou cismado. Como quê do nada, aquele cãozinho estranho aparecera na porta de casa e dali não arredava as patas. Bastava entreabrir o portão e como um zás o bichinho se escalavrava entre as frestas de ferro e a parede e adentrava a casa como se possuísse intimidade com o ambiente, a posição e a característica dos móveis, a disposição dos cômodos, com as pessoas. Fazia a leitura da área nos fundos através do olfato e deitava estirado, relaxado ao pé da rede. Quando o cãozinho viu Ramiro, filho de Solé, hoje com oito ou nove anos, foi como um reencontro entre velhos amigos separados pelo tempo. Solé ficou grilado. Ficou grilado, mas não deu muita importância. Eram tantos os cães nas alamedas da quadra 31 que nenhum dos moradores distinguia com exatidão quem era dono de quem. Chusmas vadias de cães costumavam acompanhar as brincadeiras e folguedos das crianças nas calçadas e, às tardes mornas, deitavam no meio da rua para uma confraternização típica. Um coçava as costas se es...