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Internet + fake news = risos

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  Outro dia, zapeando no mar da intranquilidade que é a internet, redes sociais, mais precisamente, me deparo com esse anúncio: “Vaga disponível – Provador de urna funerária – Descrição: Testar modelos de caixão em desenvolvimento; Contribuir com feedbacks; Trabalhar em parceria com o setor de produção. Requisitos: Disponibilidade de horários; Está vivo – assim mesmo, matando a já semimorta e semiviva Língua Portuguesa – Boa comunicação para relatar observações técnicas; Nunca ter morrido. Faixa salarial: R$ 2.400 a R$ 3.800 – assim mesmo, afinal, o português já morreu faz tempo nas telinhas – Envie seu currículo”. A seguir, o texto da justificativa da vaga: “Em tempos onde o mercado exige inovação, comprometimento e, acima de tudo, coragem, surge uma vaga que eleva o conceito de ‘entregar o corpo ao trabalho’ a um novo patamar. Estamos recrutando profissionais dedicados para atuar na criteriosa função de testador de urnas funerárias. Uma atividade que dispensa retrabalho, feedback...

A faxina

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  Assisto ao futebol na sexta-feira à noite. Brasil contra Haiti, 3 a 0. Confesso que dormi quase todo o segundo tempo. Mesmo assim, acordo na manhã seguinte, preguiçoso e sonolento. Empurro com a barriga a faxina do sábado para o domingo. A casa está razoavelmente limpa. Mas, nessa época do ano, em Palmas, o vento é incessante e tem poeira por todos os cantos.  Aprendi na internet que os japoneses dividem as tarefas da casa durante a semana, atuando em um compartimento a cada dia. Passei a fazer isso e deu certo. Programei-me para ter folga aos domingos. Trabalho pouco e a casa se mantém limpa todos os dias.  A sala é o cômodo, e o incômodo, da vez. Nela estão os livros, as bonecas Karajá Ritxòkò, as coleções de revistas em quadrinhos, equipamentos de som e minha área de produção literária, com notebook, canetas e cadernos. É a parte mais cansativa da faxina, mais até que a cozinha. Ao acordar, por volta das seis horas da manhã, o canto dos pássaros me lembra que é hora ...

Goiaba

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  Ano passado tive a ideia de fazer uma exposição com o tema: goiaba. Pois é, essas e outras besteiras pintam na minha cabeça de vez em sempre. O pior é que eu acho que faz sentido. Goiaba é um universo inteiro. Me vem à cabeça tendências cleptomaníacas de roubar goiaba do vizinho. Sabe aqueles muros altos com a copa da goiabeira pendendo um pouco para fora do terreno? É isso. Mas também me faz lembrar de consequências, seja de uma surra de cipó de goiabeira ou de prisão de ventre. Não sei você, mas goiaba, da vermelha ou da branca, me travam os intestinos. Mas a gente sabe que vale a pena. É mais tempo de uma deliciosa goiaba dentro de mim. Me desculpe por essa imagem. E vamos para uma melhor: bicho de goiaba. Brincadeira. Semente de goiaba no cocô. Cocô de passarinho. Chega. Goiabada. Ou melhor ainda: goiabada cascão. Ketchup de goiaba. Quem já provou desse último sabe do que estou falando. Goiaba pode sempre nos surpreender. Pode ser por não saber qual cor, textura ou se vai ter...

A pátria de chuteiras (penduradas)

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  Nem com orgulho, nem tanto com constrangimento, me reconheço entre os milhões de brasileiros que vestem a carapuça ufanista de alguém nascido no “país do futebol”. Sou um dos tantos que fecha – de vez em quando – os olhos pras injustiças, trambiques e politicagens do mundo da bola para se embriagar sem culpa no prazer cego de ver a pelota rolando, embalado pelos gritos estridentes de algum narrador afetado. Nessa Copa, a despeito de todas as questões geopolíticas e migratórias, de uma guerra a pleno vapor e das ações fascistoides do presidente mais escroto (dentre tantos presidentes escrotos) que já vimos nos E.U.A, aponto o meu olhômetro para uma questão mais doméstica, que intriga a mim e, aparentemente, a muitos que ainda se prestam a torcer pela Seleção Canarinho: afinal, por que tanta gente ainda acredita em Neymar? A escalação do jogador de pôquer entre os 26 convocados para defender a Seleção Brasileira foi um verdadeiro espetáculo que oscilou entre o mambembe e o pirotécn...

São João do Carneirinho

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As bandeirolas coloridas estendidas em cordão marcavam o território nos terreiros sagrados do nordeste brasileiro. O mês de junho era reservado a estes encontros onde vários sanfoneiros se revezavam na alegria da festa. Aquele momento também era de agradecimento por tudo que o sertanejo conseguira produzir em sua lavoura. Uma festa farta de alegria e também de comidas que foram caindo na graça do paladar daquele povo. A indústria do consumo que só pensa em dinheiro, viu aquele nicho como um espaço que podia gerar milhões, e sem nenhuma cerimônia foi invadindo a festa, transformando aquela convivência amigável, onde quase todo mundo se conhecia, num espaço voltado para o consumo, acabou-se a brincadeira. Os promotores, os gestores, começaram a fazer as contas e viram que realmente aquilo podia virar ouro. O mercado, que sempre entendeu de negociações e de prestações de contas, passou a dar ordens no terreiro. Estabeleceu regras e direcionamento dos recursos, sendo que boa parte deles vi...

Nazareth, Amarula and Cigarretes

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para Dan McCafferty (1946-2022), Roger Waters (1943-), e Walter Augusto Fernandes (1966-) A voz cavernosa do vocalista Dan McCafferty, do setentista/oitentista e escapista Nazareth, adensava seus pensamentos cinquentaneanos. Sempre gostara de vozes masculinas quando o assunto era música. E, mais que masculinas, graves. No grave, pensava, estava suspensa a harmonia do mundo. Só a gravidade vocal para tentar por ordem no caos da existência. À puta que pariu essa historinha de que homem usa a voz grave para intimidar os concorrentes, na antiguíssima carreira dos espermatozóides rumo aos óvulos. À merda com esses chavões e clichês de consultórios psicológicos politicamente corretos desse século de medrosos, caretas e imbecis. Mas, calma, feministas do mundo todo! Vozeirões femininos e gravíssimos como os de Janis Joplin, Maria Bethânia, Angela Ro Ro, e Cássia Eller, têm lugar nesse time. O agudo, acreditava, era a porta de fuga dos efeminados, covardes e medrosos. Quando não, demonstração...

A exemplar Canoinhas

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  Há uma Ciência da Literatura, conhecida como Crítica Literária. E há uma Moral sobre a Literatura que deveria ser batizada por Novus Index Prohibitorum Contemporaneum (NIPCon) . Eu que odeio siglas, por achá-las uma preguiça da língua, vou-me permitir uma exceção. Conste-se o NIPCon. A Ciência da Literatura tem suas fogueiras. O NIPCon muito mais. Ambos só têm existências atiçando chamas e atirando achas à fogueira. Outro dia, queriam o Itamar na fogueira, acusando-o de anacronismo estilístico, caducada originalidade e clichê pelo retorno a uma narrativa regionalista. Também, na França, crivaram o jovem escritor Louis Édouard pelo uso de experiências pessoais, das violências domésticas, pelos sofrimentos recebidos por ser gay, de usurpar o status de romancista reconhecido. A Crítica edifica suas fogueiras, borrifa suas águas bentas e sutiliza seus manuais de exorcismo. Felizmente, a criação literária, para ser genuína, ocorre longe do seu alcance.   Poetas, contistas, roma...