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Sorriso Colgate

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  Aconteceu em Pium. Quando aconteceu, o tempo engoliu, nessa natureza estranha de Cronos. Mas não conseguiu engolir o Zé Gomes. Só o que tenho de certeza é que foi no século passado. Mas esta crônica nada tem a ver com Cronos, e sim com o Zé. Foi de repente. O Zé Gomes, presidente do Conselho Estadual de Cultura, me diz “Casa, amanhã vamos pra Pium”. Claro como água da fonte, que não era pedido, era ordem no modo carinhoso de ser do Zé Gomes. Em verdade, não era ordem de serviço; ao contrário, ele queria me apresentar a pessoas que, no entendimento dele, eu merecia conhecer. Dia seguinte, lá fomos pra Pium. Graças à luz do Zé e sua importância no cenário cultural tocantinense, ficamos hospedados em casa do prefeito, que nos recebeu com o maior dos carinhos, e com a delicadeza de poeta que também é. A mim coube uma suíte no andar superior, com uma sacada de onde eu podia ver boa parte da cidade. Do outro lado da rua, um “pit dog”, como chamávamos as biroscas de então: no te...

O contista

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  Na minha infância um garoto começou a frequentar à noite a meninada da vizinhança. Apareceu de repente, dizia que era recente na cidade. É bom esclarecer que naquele tempo no sertão não havia tevê, nem outro entretenimento além de sentar na calçada e ouvir estórias. Ou então brincar de pega, de polícia e bandido, de esconde-esconde. Eram as opções recorrentes. Eu preferia sentar nas altas calçadas e ouvir estórias dos adultos. Eles contavam as melhores, coisa de experiência acumulada. E a gente só ouvia, porque quem tinha ali raciocínio para elaborar enredo digno de livros consagrados? Ninguém. Aí é que volta o menino recém-chegado. Enturmou-se logo com a gente porque abriu a possibilidade de ouvirmos estórias contadas por quem tinha nossa idade. Acusando modéstia, ou para não parecer pedante e ser excluído prontamente do grupo, disse que as estórias eram de filmes assistidos na capital de onde viera. Entre nós cinema era sonho distante. Bem, se era repeteco de filmes, ele tinha ...

Anos Dourados

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  Acabo de ler o comentário de um amigo escritor que aponta os equívocos no boneco de um livro em relação a seus poemas. O diagramador rearranjou os versos ao Deus dará e, obviamente, o sentido, o ritmo, a estética etc. foram para o beleléu, virando coisa bem diferente do que foi enviado para a publicação. Lembrei-me então de um tempo, há muito tempo, quando, em Barra Mansa e ainda estudante da graduação, participava como autora e copidesque do Jornal do Barrão.  O jornal saía sem muita regularidade. Tínhamos que conseguir patrocinadores e anunciantes, o que não era fácil. Enquanto os jornais tradicionais da cidade tinham lá seus recursos, mas também uma linha editorial muito colada à política local, o nosso era de esquerda, num momento em que mal saíamos dos anos de ditadura.  Um padre, o Silva, escrevia a seção de horóscopo. Dizia entender do recado. Não rabiscava nada que lembrasse diagramas celestes, nunca o vi olhando o céu para ver o arranjo dos astros, mas lá estav...

Internet + fake news = risos

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  Outro dia, zapeando no mar da intranquilidade que é a internet, redes sociais, mais precisamente, me deparo com esse anúncio: “Vaga disponível – Provador de urna funerária – Descrição: Testar modelos de caixão em desenvolvimento; Contribuir com feedbacks; Trabalhar em parceria com o setor de produção. Requisitos: Disponibilidade de horários; Está vivo – assim mesmo, matando a já semimorta e semiviva Língua Portuguesa – Boa comunicação para relatar observações técnicas; Nunca ter morrido. Faixa salarial: R$ 2.400 a R$ 3.800 – assim mesmo, afinal, o português já morreu faz tempo nas telinhas – Envie seu currículo”. A seguir, o texto da justificativa da vaga: “Em tempos onde o mercado exige inovação, comprometimento e, acima de tudo, coragem, surge uma vaga que eleva o conceito de ‘entregar o corpo ao trabalho’ a um novo patamar. Estamos recrutando profissionais dedicados para atuar na criteriosa função de testador de urnas funerárias. Uma atividade que dispensa retrabalho, feedback...

A faxina

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  Assisto ao futebol na sexta-feira à noite. Brasil contra Haiti, 3 a 0. Confesso que dormi quase todo o segundo tempo. Mesmo assim, acordo na manhã seguinte, preguiçoso e sonolento. Empurro com a barriga a faxina do sábado para o domingo. A casa está razoavelmente limpa. Mas, nessa época do ano, em Palmas, o vento é incessante e tem poeira por todos os cantos.  Aprendi na internet que os japoneses dividem as tarefas da casa durante a semana, atuando em um compartimento a cada dia. Passei a fazer isso e deu certo. Programei-me para ter folga aos domingos. Trabalho pouco e a casa se mantém limpa todos os dias.  A sala é o cômodo, e o incômodo, da vez. Nela estão os livros, as bonecas Karajá Ritxòkò, as coleções de revistas em quadrinhos, equipamentos de som e minha área de produção literária, com notebook, canetas e cadernos. É a parte mais cansativa da faxina, mais até que a cozinha. Ao acordar, por volta das seis horas da manhã, o canto dos pássaros me lembra que é hora ...

Goiaba

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  Ano passado tive a ideia de fazer uma exposição com o tema: goiaba. Pois é, essas e outras besteiras pintam na minha cabeça de vez em sempre. O pior é que eu acho que faz sentido. Goiaba é um universo inteiro. Me vem à cabeça tendências cleptomaníacas de roubar goiaba do vizinho. Sabe aqueles muros altos com a copa da goiabeira pendendo um pouco para fora do terreno? É isso. Mas também me faz lembrar de consequências, seja de uma surra de cipó de goiabeira ou de prisão de ventre. Não sei você, mas goiaba, da vermelha ou da branca, me travam os intestinos. Mas a gente sabe que vale a pena. É mais tempo de uma deliciosa goiaba dentro de mim. Me desculpe por essa imagem. E vamos para uma melhor: bicho de goiaba. Brincadeira. Semente de goiaba no cocô. Cocô de passarinho. Chega. Goiabada. Ou melhor ainda: goiabada cascão. Ketchup de goiaba. Quem já provou desse último sabe do que estou falando. Goiaba pode sempre nos surpreender. Pode ser por não saber qual cor, textura ou se vai ter...

A pátria de chuteiras (penduradas)

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  Nem com orgulho, nem tanto com constrangimento, me reconheço entre os milhões de brasileiros que vestem a carapuça ufanista de alguém nascido no “país do futebol”. Sou um dos tantos que fecha – de vez em quando – os olhos pras injustiças, trambiques e politicagens do mundo da bola para se embriagar sem culpa no prazer cego de ver a pelota rolando, embalado pelos gritos estridentes de algum narrador afetado. Nessa Copa, a despeito de todas as questões geopolíticas e migratórias, de uma guerra a pleno vapor e das ações fascistoides do presidente mais escroto (dentre tantos presidentes escrotos) que já vimos nos E.U.A, aponto o meu olhômetro para uma questão mais doméstica, que intriga a mim e, aparentemente, a muitos que ainda se prestam a torcer pela Seleção Canarinho: afinal, por que tanta gente ainda acredita em Neymar? A escalação do jogador de pôquer entre os 26 convocados para defender a Seleção Brasileira foi um verdadeiro espetáculo que oscilou entre o mambembe e o pirotécn...