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Primeira vez

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  Tem um poeminha do Guilherme de Almeida chamado O Ciúme que diz mais ou menos assim: Minha melhor lembrança é aquele instante no qual Pela primeira vez, me entrou pela retina Tua silhueta, provocante e fina Como um punhal   Depois, passaste a ser unicamente aquela Que a gente se habitua a achar apenas bela E que é quase banal.   E agora que te tenho em minhas mãos e sei Que os teus nervos se enfeixam todos em meus dedos E os teus sentidos são cinco brinquedos Com que brinquei Agora que não mais me és inédita;  agora Que eu compreendo que, tal como te vira outrora Nunca mais te verei Agora que de ti, por muito que me dês Já não podes dar a impressão que me deste A  primeira impressão, que me fizeste Louco talvez Tenho ciúme de quem não te conhece ainda E cedo ou tarde  te verá, pálida e linda Pela primeira vez. Machismo e anacronismo à parte, a inda não decidi se tenho inveja ou pena de quem ainda não leu alguns dos livros e gibis que eu já li. O sentiment...

Os delírios de um cortejador de fantasmas

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  Venho de um mergulho prolongado nas catacumbas iluminadas, poéticas e transcendentais da literatura. Emerjo dessa etérea matéria e, em profundo hausto, me poluo dessa névoa espessa e cegante a que chamamos realidade. Essa visita às catacumbas literárias teve como guia pelos insondáveis (des)caminhos a poética de Ronaldo Coelho Teixeira, materializada na obra Cortejador de fantasmas . A alquimia de Ronaldo, feito mestre das retortas, conseguiu destilar das visões etéreas e eternas de mestres da literatura a essência – éter sutil – das visões poéticas ou proféticas com que tais escritores e poetas desconstruíram, reconstruíram, ressignificaram o mundo na dureza inefável das palavras. No mergulho que fiz me fui inoculando das essências de escritores tantos entre os quais alguns não conhecia, como Lúcio Cardoso e outros que já me habitavam, como Clarice Lispector e Jorge Luis Borges, nesse habitar que nos amplia os universos que vivemos, inventamos, (d)escrevemos. Confesso que foi vi...

O sacrifício dos santos

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  Fui católica na infância, mas num tempo atravessado pela Teologia da Libertação, na qual os santos não ganhavam tanto destaque no cenário religioso. Importava uma compreensão mais política sobre as dinâmicas sociais e o compromisso com as transformações para uma sociedade mais justa. Muito pouco li das hagiografias. De vez em quando aparecia algum livrinho em nossa casa, que lia curiosa como diante de toda e qualquer leitura, até jornais que embrulhavam ovos. Adulta, não tive interesse pela causa, mas tenho certa amizade com Santo Antônio, porque é atende a demandas amorosas; com são José, porque era trabalhador carpinteiro; com São Sebastião, porque minha avó diz um dia ter se encontrado face a face com o santo. Era um dia de procissão e, ocupada com o trabalho, não pode ir cumprir o compromisso de seguir o santo passeando pelas ruas da cidade. Triste, passava roupas, pensando que cometia pecado. Foi então que o santo lindo, todo soldado, apareceu para ela. Fiquei fã de São Seba...

Um Saramago por um amor canino

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  Minha história com bichos é extensa como a minha incompreensão diante do mundo dos homens. Testemunha atenta das maldades e descasos para com os primeiros pelos segundos, já nem conto quantas vezes meu coração ardeu frente a atos vis e cruéis, especialmente contra caninos e felinos. Sempre gostei de bichos. Todos, sem exceção. Sou capaz de sentir pena até de uma mosca. Sei, mosca não é bicho, é inseto. Mas como um inseto que penso sermos todos nós, ditos humanos, na grande teia da vida que, uma hora, manda a Viúva-Negra nos cortar o fio da vida. Assim, hoje, temos em casa um casal de papagaios verdadeiros, o Gabo e a Hilda, dois cães, a Estrela e o Pretinho, este, visitante incansável por meses do portão de casa em que fez morada vigilante e, depois, todos em casa enternecidos, não fizemos outra coisa: o pusemos para dentro. E a Caetana, gata amorosa (do jeito de gato, ou seja, cagando e andando para nós, humanos). Esta, gata-presente porque quando trouxe a família de Gurupi para...

Com tradição

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  Assisti a uma entrevista com o autor de Brasil no Espelho, livro que registra o que 10 mil brasileiros falaram sobre si e sobre o próprio país. Uma coisa que me chamou a atenção na entrevista com o autor Felipe Nunes foi que ele diz que o brasileiro é um dos povos que mais desconfiam dos outros. Na entrevista, ele não fala o número exato e eu fui atrás. Encontrei que 94% dos brasileiros dizem que "é preciso ser muito cuidadoso com as pessoas", enquanto 6% dizem que podemos confiar na maioria das pessoas. Comparando com o mundo, o Brasil só fica à frente do Zimbábue no índice de confiança interpessoal. Maldade comparar com o Zimbábue, mas é o que tá na pesquisa. Lembrei até da obra da artista zimbabuense Prudence Chimutuwah, que faz seus quadros com antigas cédulas de alta denominação, de 500 milhões, de 1 bilhão, 50 bilhões e até 100 trilhões, que perderam totalmente o valor econômico por conta da situação do seu país. Deixando essa lembrança intrusiva de lado e indo mais a...

Tempo Perdido

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  Durante muito tempo duvidei da existência de seres interplanetários. Depois, mudei a percepção e, embora sem nenhuma prova robusta, tenho convicção de que eles existem. O que alterou meu entendimento foi uma conversa com um amigo, de São João do Araguaia, no Pará. Ele contou de um avistamento que presenciou e exigiu segredo. Imediatamente, assegurei:  – Sou um túmulo! O beiradeiro confidenciou-me que, na madrugada, pescava com dois amigos no encontro dos rios Araguaia e Tocantins quando uma luz branca brilhou sobre eles. A água vibrou como gotas saltitantes e, aterrorizados, eles mergulharam e se esconderam entre os sarãs. Minutos depois, a luz se apagou e os três retornaram para a canoa. Sem entender o que se passava, remaram até dois outros pescadores, um pouco adiante. Os homens falavam sobre o estranho fenômeno no momento em que o aparelho se iluminou acima deles. As luzes refletiam cores tão variadas que eles ignoravam os tons e os matizes. Um dos pescadores atirou para...

Como se tornar uma árvore

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  Acreditava que a santidade está ou se alcança quando a pessoa consegue virar uma árvore. Não no sentido literal, é claro. Mas aquela pessoa em que as aves se aproximam e chegam até pousar na sua cabeça, no seu ombro ou mesmo na sua mão. Esse é o maior grau de santidade que um homem pode alcançar. Acreditava ele. Um São Francisco do Século XXI. Era o que todos deveríamos procurar ser. O lance era saber separar o vegetal do reino homônimo do vegetal homem. Lasca de ser que, surpreendentemente, cria raízes sem nem mesmo ter onde enterrá-las. E vegeta em rotinas, horários, compromissos, contas, afazeres que nunca dizem o que ele é. E cada vez o distanciam mais dele mesmo.  Como consegue alimentar essas raízes podres e vampirescas? Cria lodo e limo em relações que eram para ser faiscantes, fogo de vida, de alumbramento e suspiração. Ao contrário, amarras humanas que o puxam para baixo, pro fundo da terra, afundando-o cada vez mais no fosso do entorpecimento, do tédio e do esqueci...