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A pátria de chuteiras (penduradas)

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  Nem com orgulho, nem tanto com constrangimento, me reconheço entre os milhões de brasileiros que vestem a carapuça ufanista de alguém nascido no “país do futebol”. Sou um dos tantos que fecha – de vez em quando – os olhos pras injustiças, trambiques e politicagens do mundo da bola para se embriagar sem culpa no prazer cego de ver a pelota rolando, embalado pelos gritos estridentes de algum narrador afetado. Nessa Copa, a despeito de todas as questões geopolíticas e migratórias, de uma guerra a pleno vapor e das ações fascistoides do presidente mais escroto (dentre tantos presidentes escrotos) que já vimos nos E.U.A, aponto o meu olhômetro para uma questão mais doméstica, que intriga a mim e, aparentemente, a muitos que ainda se prestam a torcer pela Seleção Canarinho: afinal, por que tanta gente ainda acredita em Neymar? A escalação do jogador de pôquer entre os 26 convocados para defender a Seleção Brasileira foi um verdadeiro espetáculo que oscilou entre o mambembe e o pirotécn...

São João do Carneirinho

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As bandeirolas coloridas estendidas em cordão marcavam o território nos terreiros sagrados do nordeste brasileiro. O mês de junho era reservado a estes encontros onde vários sanfoneiros se revezavam na alegria da festa. Aquele momento também era de agradecimento por tudo que o sertanejo conseguira produzir em sua lavoura. Uma festa farta de alegria e também de comidas que foram caindo na graça do paladar daquele povo. A indústria do consumo que só pensa em dinheiro, viu aquele nicho como um espaço que podia gerar milhões, e sem nenhuma cerimônia foi invadindo a festa, transformando aquela convivência amigável, onde quase todo mundo se conhecia, num espaço voltado para o consumo, acabou-se a brincadeira. Os promotores, os gestores, começaram a fazer as contas e viram que realmente aquilo podia virar ouro. O mercado, que sempre entendeu de negociações e de prestações de contas, passou a dar ordens no terreiro. Estabeleceu regras e direcionamento dos recursos, sendo que boa parte deles vi...

Nazareth, Amarula and Cigarretes

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para Dan McCafferty (1946-2022), Roger Waters (1943-), e Walter Augusto Fernandes (1966-) A voz cavernosa do vocalista Dan McCafferty, do setentista/oitentista e escapista Nazareth, adensava seus pensamentos cinquentaneanos. Sempre gostara de vozes masculinas quando o assunto era música. E, mais que masculinas, graves. No grave, pensava, estava suspensa a harmonia do mundo. Só a gravidade vocal para tentar por ordem no caos da existência. À puta que pariu essa historinha de que homem usa a voz grave para intimidar os concorrentes, na antiguíssima carreira dos espermatozóides rumo aos óvulos. À merda com esses chavões e clichês de consultórios psicológicos politicamente corretos desse século de medrosos, caretas e imbecis. Mas, calma, feministas do mundo todo! Vozeirões femininos e gravíssimos como os de Janis Joplin, Maria Bethânia, Angela Ro Ro, e Cássia Eller, têm lugar nesse time. O agudo, acreditava, era a porta de fuga dos efeminados, covardes e medrosos. Quando não, demonstração...

A exemplar Canoinhas

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  Há uma Ciência da Literatura, conhecida como Crítica Literária. E há uma Moral sobre a Literatura que deveria ser batizada por Novus Index Prohibitorum Contemporaneum (NIPCon) . Eu que odeio siglas, por achá-las uma preguiça da língua, vou-me permitir uma exceção. Conste-se o NIPCon. A Ciência da Literatura tem suas fogueiras. O NIPCon muito mais. Ambos só têm existências atiçando chamas e atirando achas à fogueira. Outro dia, queriam o Itamar na fogueira, acusando-o de anacronismo estilístico, caducada originalidade e clichê pelo retorno a uma narrativa regionalista. Também, na França, crivaram o jovem escritor Louis Édouard pelo uso de experiências pessoais, das violências domésticas, pelos sofrimentos recebidos por ser gay, de usurpar o status de romancista reconhecido. A Crítica edifica suas fogueiras, borrifa suas águas bentas e sutiliza seus manuais de exorcismo. Felizmente, a criação literária, para ser genuína, ocorre longe do seu alcance.   Poetas, contistas, roma...

Dark a 99%

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Neste meado de maio que antecede as eleições presidenciais no Brasil, meus olhos incréus das soluções simplistas se entregaram a um sorriso triste, desses sorrisos de quem se sabe órfão da verdade, quando se anunciou, oficialmente, que a familícia está envolvida até o talo com a engrenagem sombria do Vorcaro através do Banco Master. Enfim, meus olhos viram, sob a luz dos holofotes da imprensa, o que já viam desenrolar na treva densa, por trás das cortinas de fumaça. O filme Dark Horse (significa cavalo azarão, o que ninguém bota fé mas ganha a corrida) nos foi apresentado como um esquema do submundo (sombrio, sombrio) político-delinquente, pensado na medida para arrecadar fundos. Aliás, a grana do Master foi para um fundo chamado Havengate Development Fund LP, um portão do céu implantado lá no Texas do tio Sam, do MAGA e daquele laranjão que o Jair Messias confessou amar. O mais estranho para quem crê seja suficiente a solução simplista é que a produtora do filme declarou que não r...

Futebol é para todes

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  Em ano de Copa do Mundo, a pauta em qualquer conversa no Brasil termina em futebol. Para manter-me atualizado, assisto aos debates intermináveis dos programas esportivos, mas percebo uma desproporção entre homens e mulheres na composição das bancadas; mais rara ainda é a presença de gays. Enquanto eu vivi nas sombras, nunca fui questionado sobre gostar de futebol; porém, depois que quebrei o armário e o triturei no moedor de purpurina, sempre ouvi piadinhas sobre meu interesse por um esporte tão masculinizado. A participação das mulheres no mundo do futebol iniciou-se ainda em 1895; mas no Brasil, de 1941 até 1979, elas eram proibidas de praticar o esporte e somente no ano de 1983 foi regulamentada a modalidade. No meio masculino, a luta era para manter longe dos olhos e dos comentários ferinos qualquer resquício de homossexualidade que, porventura, florescesse entre os jogadores. Todos tinham que ser cabra macho. Reinaldo, ex-jogador do Atlético Mineiro e um dos melhores atacant...

O faquir

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  Vendo outro dia num site a foto do grosso da minha turma - formada um semestre antes de mim no curso de Jornalismo em Goiânia -, percebi que ninguém usava beca. Não questionarei se era desapego ou rebeldia à tradição. Vivíamos dias duros da ditadura que esboroava e se fosse um protesto estava justificado. Além do mais sei que jornalista é assim mesmo: muitas ideias na cabeça e uma disposição para contrariar as formalidades e as tradições.  Mas comigo se deu o contrário: eu e os outros retardatários formamos de beca. A retrógrada beca, que me causou muitos transtornos. Quando penso nela o que imediatamente me vem à mente é uma tremenda fome. Isso mesmo! O que tem uma coisa a ver com a outra? talvez todos perguntem. Calma que já explico. E me entenderão.  Para me formar, tive que fazer curso para faquir. Isso, faquir. Aqueles ascetas indianos, magrinhos, que suportam sacrifícios sobre-humanos.  Já trabalhava, tinha até um troco no banco, mas, mais por desleixo que qu...