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O Sol é o limite

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  Um dia o conde Wlad soube que, por essas paragens, havia mulheres de sangue tão delicioso que parecia leite e mel. Então ele resolveu ligar para o Epstein para arrumar um lugar aqui em Palmas, uma hospedagem discreta. O homem ligou para o Trump, que ligou para o Temer, então arrumaram o melhor lugar: a velha galeria fantasmagórica Wilson Vaz — melhor lugar impossível para tipos como aquele. Então ele veio, batendo asas aqui, se escondendo ali, sonhando com o saboroso néctar tocantinense, tonificado com uma porcentagem goiana e maranhense. Se alojou no último piso, onde ninguém ia. O lugar era assustador, até para ele. As primeiras noites foram insanas. Nem precisava ir muito longe: o Tendencies Bar estava logo ali. Virou freguês. Anos passaram, e ele já chamava todos pelo nome e até já tinha esquecido que era uma criatura da noite, apesar de ainda dar umas chupadas — mas agora era só no pessoal da Vila União, da 112, de Taquaralto e das Aurenys; não pegava mais os brothers do qua...

O pedido

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  Tenho um amigo muito folgado. Toda vez que viajo ele prontamente me liga e pede que lhe traga alguma coisa do local onde estou. Como viajo muito de avião, às vezes o que ele pede é impossível de embarcar. Já dispensei televisão, geladeira e carrinho de mão. Mas me comprometi e trouxe violão, vaso de porcelana e ovos de avestruz.  Agora sempre que viajo faço como Bolsonaro após a derrota para Lula nas eleições: entro num mutismo que muitos pensam que morri. Mas não tem jeito, ele acaba descobrindo porque sou traído pelas fotos no "story" das redes sociais.  E a última foi ontem. Ele descobriu que eu estava em Curitiba. E me ligou de imediato. A ligação não estava muito boa e não compreendi perfeitamente o que me pedia para comprar. Intuí que era um absurdo e resolvi checar. -Você tá louco, quer que compre para você doze pratos? - Não, você se enganou - ele disse e eu me senti aliviado. - Então o que você quer que eu compre? -Vou repetir devagar para não deixar dúvida. - ...

Pipoca é melhor que alguns humanos

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  Acordo com a escalada do noticiário da madrugada e desperto com a tortura e a morte violenta do cãozinho Orelha, em Florianópolis.  Saio para ir à panificadora e levo ração para alimentar alguns gatos que vivem nos arredores. Na praça da quadra, encontro e cumprimento um morador que passeia com dois belos amigos caninos. Ele me diz, entristecido, que uma das cadelas está machucada. Um humano, adulto, a feriu com um pau enquanto ela brincava na praça. Ciente da constante violência e do abuso que geram sofrimento aos animais, eu me solidarizo com ele. Nem sempre eu fui assim. Houve um hiato em minha vida, quando ignorei a luta das mamães caninas e felinas para proteger seus filhotes, e desviava o olhar para não ver a fome e a agonia dos que vivem nas ruas. Em minha infância, tivemos a companhia de vários bichos em nossa casa. A maioria cachorros, nenhum gato. Quando nasci, mamãe já criava um jabuti que viveu conosco por trinta e oito anos até ser roubado por mãos humanas. Noss...

Do amor e suas demências

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                Nós, às vezes, nos embrenhamos de tal forma nas recordações do passado, que o já acontecido se levanta das vias da memória e se corporifica no presente. Conceição Evaristo, Canção para ninar menino grande .   A leitura de Conceição Evaristo e a história de Fio Jasmim a levam à urgência da escrita, não aquela pretendida, que deveria registrar, enfim, em termos teóricos, incidindo na descrição da forma da escrevivência, mas uma outra, a subjetiva, ainda sem forma, pela insaciável presença da memória que irrompe sob a provocação do encontro com a narrativa poética. E então. Lembrou-se do tempo em que tinha o sujeito – que considerava amar – como o grande interlocutor. A esse pobre sujeito eleito, à revelia de suas desconhecidas vontades, destinava tudo que escrevia. E pensava. Era para ela uma espécie de amigo imaginário, inventado certamente pela incapacidade de resistir na solidão. Em vez de and...

O pastor e a salsinha

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  Quem o visse no púlpito, julgaria tratar-se de alguém que jejua e, bem por tal razão, apto a pregar. Um Deus que imola o próprio filho tem no sacrifício o meio precípuo de salvar a alma. Correlato à salvação da alma, o castigo do corpo. Comer?, o necessário e obrigatório remédio. E, se assim é, não se guiar o crente pelo sabor, pelo prazer de comer. De prazer em prazer, a gula; e o crente guloso. De prazer em prazer, a luxúria;  e o crente libidinoso. Para a mesa, receitava o pão ázimo, a erva amarga (almeirões e chicórias). E mandava cortar o açúcar da limonada e do café. Quando não o próprio café. Em cada sermão, a proscrição de um específico condimento. O trabalho inverso dos fitoterapeutas. Mel e fel, o fel! E então estaria garantido o céu onde residiria o melhor dos méis e dos vinhos. O que ninguém podia saber é que o pastor cultivava em casa uma horta clandestina. Uma horta num pequeno terreno, cujo acesso se dava por uma porta, estrategicamente colocada na parede de s...

Carnavais

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  Mais uma vez, estamos em pleno Carnaval. É assim mesmo, com maiúscula. Se você buscar na Wikipedia, vai receber a informação de que Carnaval é uma festa do cristianismo ocidental que ocorre antes da quaresma. A informação é só meia verdade. A verdade é que o cristianismo copiou ou suportou essa festa pagã e muitíssimo popular, que fazia furor nas Saturnálias, festa em homenagem ao deus Saturno. Tinha até a eleição de um falso rei (sempre um plebeu), semente histórica do nosso Rei Momo. Durante o período da Saturnália, todas as relações sociais eram invertidas: lautas mesas eram colocadas à disposição do povão, que tinha muitas regalias reservadas, em tempos normais aos nobres e ricos. E reinava o rei plebeu. No Brasil, o Carnaval seguiu a tradição do original, a Saturnália, com eleição de Momo, que se adorna com rico manto, coroa e cetro, enquanto comanda a folia; o povo tem liberdade fora de todas as medidas dos tempos “normais” e vemos homens fantasiados de mulher, mulheres...

A onça cantora

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  Há casos que um cronista jamais deveria contar — por mais interessantes que sejam — para evitar risco de ser confundido com caçador ou pescador. Por achar que há mais absurdo na vida do que numa história — entre tantas que acontecem ou são inventadas —,  não vou deixar de contar a que ouvi na fazenda em conversa de peão. Manoel entretinha com seu fabulário — no intervalo do almoço — os oito homens que roçavam pasto. Boquiabertos, deixavam-se levar pela vivacidade do vaqueiro quando ele resolveu então forçar a credulidade dos peões com a história da onça cantora. “Cantora?”, surpreendeu-se um. “Cantora, sim”, reafirmou Manoel. O homem calou-se, mas olhou para os companheiros em busca de aprovação para a suspeita de que ouviriam uma mentira. Um velho de pele curtida piscou um olho para acalmar o incrédulo e permitir Manoel ir avante. E ele não esperou: “Numa noite de puro breu eu, o Anacleto e o Zózimo fomos caçar uma onça faminta que andava comendo bezerros na fazenda. Pratic...