O contista
Na minha infância um garoto começou a frequentar à noite a meninada da vizinhança. Apareceu de repente, dizia que era recente na cidade. É bom esclarecer que naquele tempo no sertão não havia tevê, nem outro entretenimento além de sentar na calçada e ouvir estórias. Ou então brincar de pega, de polícia e bandido, de esconde-esconde. Eram as opções recorrentes. Eu preferia sentar nas altas calçadas e ouvir estórias dos adultos. Eles contavam as melhores, coisa de experiência acumulada. E a gente só ouvia, porque quem tinha ali raciocínio para elaborar enredo digno de livros consagrados? Ninguém. Aí é que volta o menino recém-chegado. Enturmou-se logo com a gente porque abriu a possibilidade de ouvirmos estórias contadas por quem tinha nossa idade. Acusando modéstia, ou para não parecer pedante e ser excluído prontamente do grupo, disse que as estórias eram de filmes assistidos na capital de onde viera. Entre nós cinema era sonho distante. Bem, se era repeteco de filmes, ele tinha ...