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O sacrifício dos santos

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  Fui católica na infância, mas num tempo atravessado pela Teologia da Libertação, na qual os santos não ganhavam tanto destaque no cenário religioso. Importava uma compreensão mais política sobre as dinâmicas sociais e o compromisso com as transformações para uma sociedade mais justa. Muito pouco li das hagiografias. De vez em quando aparecia algum livrinho em nossa casa, que lia curiosa como diante de toda e qualquer leitura, até jornais que embrulhavam ovos. Adulta, não tive interesse pela causa, mas tenho certa amizade com Santo Antônio, porque é atende a demandas amorosas; com são José, porque era trabalhador carpinteiro; com São Sebastião, porque minha avó diz um dia ter se encontrado face a face com o santo. Era um dia de procissão e, ocupada com o trabalho, não pode ir cumprir o compromisso de seguir o santo passeando pelas ruas da cidade. Triste, passava roupas, pensando que cometia pecado. Foi então que o santo lindo, todo soldado, apareceu para ela. Fiquei fã de São Seba...

Um Saramago por um amor canino

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  Minha história com bichos é extensa como a minha incompreensão diante do mundo dos homens. Testemunha atenta das maldades e descasos para com os primeiros pelos segundos, já nem conto quantas vezes meu coração ardeu frente a atos vis e cruéis, especialmente contra caninos e felinos. Sempre gostei de bichos. Todos, sem exceção. Sou capaz de sentir pena até de uma mosca. Sei, mosca não é bicho, é inseto. Mas como um inseto que penso sermos todos nós, ditos humanos, na grande teia da vida que, uma hora, manda a Viúva-Negra nos cortar o fio da vida. Assim, hoje, temos em casa um casal de papagaios verdadeiros, o Gabo e a Hilda, dois cães, a Estrela e o Pretinho, este, visitante incansável por meses do portão de casa em que fez morada vigilante e, depois, todos em casa enternecidos, não fizemos outra coisa: o pusemos para dentro. E a Caetana, gata amorosa (do jeito de gato, ou seja, cagando e andando para nós, humanos). Esta, gata-presente porque quando trouxe a família de Gurupi para...

Com tradição

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  Assisti a uma entrevista com o autor de Brasil no Espelho, livro que registra o que 10 mil brasileiros falaram sobre si e sobre o próprio país. Uma coisa que me chamou a atenção na entrevista com o autor Felipe Nunes foi que ele diz que o brasileiro é um dos povos que mais desconfiam dos outros. Na entrevista, ele não fala o número exato e eu fui atrás. Encontrei que 94% dos brasileiros dizem que "é preciso ser muito cuidadoso com as pessoas", enquanto 6% dizem que podemos confiar na maioria das pessoas. Comparando com o mundo, o Brasil só fica à frente do Zimbábue no índice de confiança interpessoal. Maldade comparar com o Zimbábue, mas é o que tá na pesquisa. Lembrei até da obra da artista zimbabuense Prudence Chimutuwah, que faz seus quadros com antigas cédulas de alta denominação, de 500 milhões, de 1 bilhão, 50 bilhões e até 100 trilhões, que perderam totalmente o valor econômico por conta da situação do seu país. Deixando essa lembrança intrusiva de lado e indo mais a...

Tempo Perdido

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  Durante muito tempo duvidei da existência de seres interplanetários. Depois, mudei a percepção e, embora sem nenhuma prova robusta, tenho convicção de que eles existem. O que alterou meu entendimento foi uma conversa com um amigo, de São João do Araguaia, no Pará. Ele contou de um avistamento que presenciou e exigiu segredo. Imediatamente, assegurei:  – Sou um túmulo! O beiradeiro confidenciou-me que, na madrugada, pescava com dois amigos no encontro dos rios Araguaia e Tocantins quando uma luz branca brilhou sobre eles. A água vibrou como gotas saltitantes e, aterrorizados, eles mergulharam e se esconderam entre os sarãs. Minutos depois, a luz se apagou e os três retornaram para a canoa. Sem entender o que se passava, remaram até dois outros pescadores, um pouco adiante. Os homens falavam sobre o estranho fenômeno no momento em que o aparelho se iluminou acima deles. As luzes refletiam cores tão variadas que eles ignoravam os tons e os matizes. Um dos pescadores atirou para...

Como se tornar uma árvore

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  Acreditava que a santidade está ou se alcança quando a pessoa consegue virar uma árvore. Não no sentido literal, é claro. Mas aquela pessoa em que as aves se aproximam e chegam até pousar na sua cabeça, no seu ombro ou mesmo na sua mão. Esse é o maior grau de santidade que um homem pode alcançar. Acreditava ele. Um São Francisco do Século XXI. Era o que todos deveríamos procurar ser. O lance era saber separar o vegetal do reino homônimo do vegetal homem. Lasca de ser que, surpreendentemente, cria raízes sem nem mesmo ter onde enterrá-las. E vegeta em rotinas, horários, compromissos, contas, afazeres que nunca dizem o que ele é. E cada vez o distanciam mais dele mesmo.  Como consegue alimentar essas raízes podres e vampirescas? Cria lodo e limo em relações que eram para ser faiscantes, fogo de vida, de alumbramento e suspiração. Ao contrário, amarras humanas que o puxam para baixo, pro fundo da terra, afundando-o cada vez mais no fosso do entorpecimento, do tédio e do esqueci...

A Jatobá

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  Todo dia é dia de alguma coisa. E um dia desses foi o Dia Nacional da Cachaça. Vi isso e me lembrei que meu pai gostava de presentear seus amigos com um litro de cachaça. Pois é. Mas não era qualquer cachaça, era a Jatobá, o aguardente mais especial, tipo exportação, de Penalva, cidade do interior do interior do Maranhão e adjacências. Essa cachaça era vendida nas melhores mercearias da cidade e nas pequenas casas de vender fumo, arroz e farinha. O negócio dos meus pais estava entre esses dois. Mais para o segundo, para ser sincero. O lugarejo que fabricava a Jatobá levava o mesmo nome. Mas nunca cheguei a conhecer. Ficava mesmo era sentado num banco de madeira próximo ao balcão com os pés ao ar, sentindo o frescor da cana passar, acompanhando o bafo dos apreciadores da branquinha. Deixava de balançar os pés e às vezes me tornava garçom, maître, desse objeto de desejo tanto pelos que têm dinheiro quanto pelos que não têm. Minha mãe me afastava e assumia o posto. Para ela os bêbad...

Bicicleta na Bahia

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  Para Bete Barros   O destino das bicicletas é andar pelo mundo. Nem sempre é tão livre o passeio. Em Araguaína, na Castelo Branco, nem recomendo. Sem faixa para ciclistas, a pressa de motos, dos automóveis e dos caminhões, disputando a pista dupla... Também nem recomendo a Castelo Branco a pé, porque os carros ficam nas calçadas, com carrinhos de mão, escadas, propaganda de tinta, casinhas de cachorro, saco de cimento, panelas, pneus. Como diria Marc Augé, a agitada avenida com nome de ditador poderia se caracterizar como um não-lugar.  Tenho, porém, afetos pelos comerciantes que nos atendem, sabem o que comem meus gatos e cachorros, o tipo de pneu para meu carro e a marca de cerveja que bebo. Tenho também prazer estético ao ver brilhantes panelas de alumínio penduradas em uma das lojas. Apesar de tudo, o lugar resiste como tal, com amizades que driblam o trânsito e o tempo. E com muitas bicicletas, apesar dos riscos. Eis então uma moça, a protagonista da nossa hist...