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Quinas

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  Desde que me tornei mãe de uma menina, minha percepção do mundo mudou de tamanho, forma e urgência. Ganhei um novo par de olhos e um novo par de pernas. Os dela. E, com isso, ganhei também uma porção de medos que antes nem nome tinham. Ela ainda era só um respiro curto entre mamadas e chorinhos quando comecei a treinar uma nova habilidade: detectar perigos invisíveis e, conforme ela cresce, me antecipar nas precauções. Ando tendo muitos déjà-vus. Quinas de móveis viraram monstros à espreita. Tomadas passaram a ter algo de ameaçador. Tapetes escorregadios, copos de vidro ao alcance das mãos, escadas, janelas... Até o silêncio longo demais já me faz temer. Tudo é motivo de alerta. Eu até tento ser mais rápida que esses pequenos olhos e pernas ligeiras que querem descobrir tudo de uma vez. Eu me tornei especialista em prever acidentes que nunca aconteceram. E, mesmo assim, agradeço por isso. Porque ser mãe é, entre tantas coisas, evitar o que ninguém nunca verá. Queria que meu medo ...

Admirável Mundo da Alienação e da Cultura Inútil

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  À deriva, estamos todos, nessa boca modorrenta do Século XXI. Parte, por estar atônita e anestesiada, parte, por estar assustada e desconfiada. O Mal do Século não é a depressão e nem a ansiedade, mas o travamento – psicológico e motricional – a que todos estamos submetidos com tanta informação inútil e sua alta velocidade decorrente dos meios de comunicações atuais. Amarra o teu arado a um celular… Não ouvimos direito o poeta. Mas, sim, poderíamos começar por esse bichinho. Hoje, praticamente todo mundo está preso nesse pequeno aparelho eletrônico. Nele, estão todos os nossos segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses e anos. Funcional? Sim! Prático? Sim! Disponível? Sim! Mas, o preço é ficar seu escravo 24 horas por dia.  Veja um exemplo: atualmente os bancos e empresas já não trabalham mais para nós, ao contrário, nós é que trabalhamos para eles, pois, com um celular nas mãos, fazemos diariamente operações que antes eram realizadas pelos mesmos. Se nos últimos séculos...

Mudança

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  Mudar-se faz bem, expande o círculo de amizades e a perspectiva visual da cidade. Ocorre o confronto com outros de nós que nos permitem reflexos borrados de nós mesmos, de nossas crenças e gostos pessoais. Mudei-me a última vez há três anos, para a parte baixa da cidade, que é também a parte fria e nativa, a parte onde tudo começou há mais de um século. Depois de um ano de residência alguns vizinhos começaram a sinalizar timidamente - a frieza das vizinhanças antigas constituídas -, e a tecer comentários ao pé do ouvido sobre os meus gostos exóticos, de indumentária e musical. Com o decorrer do tempo, rostos sisudos adquiriram ar jovial, ocorreram acenos de mãos, risos intermitentes e, já era tempo!, um convite para uma cerveja. E lá fomos nós para a primeira resenha de vizinhos  depois de um ano de faces confrontantes de rua, música alta de lá e de cá, com as devidas marcações de gênero e ritmo, e cores e estilos distintos das vestimentas. Meia-hora de parvoíces de machos e...

O Sol é o limite

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  Um dia o conde Wlad soube que, por essas paragens, havia mulheres de sangue tão delicioso que parecia leite e mel. Então ele resolveu ligar para o Epstein para arrumar um lugar aqui em Palmas, uma hospedagem discreta. O homem ligou para o Trump, que ligou para o Temer, então arrumaram o melhor lugar: a velha galeria fantasmagórica Wilson Vaz — melhor lugar impossível para tipos como aquele. Então ele veio, batendo asas aqui, se escondendo ali, sonhando com o saboroso néctar tocantinense, tonificado com uma porcentagem goiana e maranhense. Se alojou no último piso, onde ninguém ia. O lugar era assustador, até para ele. As primeiras noites foram insanas. Nem precisava ir muito longe: o Tendencies Bar estava logo ali. Virou freguês. Anos passaram, e ele já chamava todos pelo nome e até já tinha esquecido que era uma criatura da noite, apesar de ainda dar umas chupadas — mas agora era só no pessoal da Vila União, da 112, de Taquaralto e das Aurenys; não pegava mais os brothers do qua...

O pedido

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  Tenho um amigo muito folgado. Toda vez que viajo ele prontamente me liga e pede que lhe traga alguma coisa do local onde estou. Como viajo muito de avião, às vezes o que ele pede é impossível de embarcar. Já dispensei televisão, geladeira e carrinho de mão. Mas me comprometi e trouxe violão, vaso de porcelana e ovos de avestruz.  Agora sempre que viajo faço como Bolsonaro após a derrota para Lula nas eleições: entro num mutismo que muitos pensam que morri. Mas não tem jeito, ele acaba descobrindo porque sou traído pelas fotos no "story" das redes sociais.  E a última foi ontem. Ele descobriu que eu estava em Curitiba. E me ligou de imediato. A ligação não estava muito boa e não compreendi perfeitamente o que me pedia para comprar. Intuí que era um absurdo e resolvi checar. -Você tá louco, quer que compre para você doze pratos? - Não, você se enganou - ele disse e eu me senti aliviado. - Então o que você quer que eu compre? -Vou repetir devagar para não deixar dúvida. - ...

Pipoca é melhor que alguns humanos

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  Acordo com a escalada do noticiário da madrugada e desperto com a tortura e a morte violenta do cãozinho Orelha, em Florianópolis.  Saio para ir à panificadora e levo ração para alimentar alguns gatos que vivem nos arredores. Na praça da quadra, encontro e cumprimento um morador que passeia com dois belos amigos caninos. Ele me diz, entristecido, que uma das cadelas está machucada. Um humano, adulto, a feriu com um pau enquanto ela brincava na praça. Ciente da constante violência e do abuso que geram sofrimento aos animais, eu me solidarizo com ele. Nem sempre eu fui assim. Houve um hiato em minha vida, quando ignorei a luta das mamães caninas e felinas para proteger seus filhotes, e desviava o olhar para não ver a fome e a agonia dos que vivem nas ruas. Em minha infância, tivemos a companhia de vários bichos em nossa casa. A maioria cachorros, nenhum gato. Quando nasci, mamãe já criava um jabuti que viveu conosco por trinta e oito anos até ser roubado por mãos humanas. Noss...

Do amor e suas demências

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                Nós, às vezes, nos embrenhamos de tal forma nas recordações do passado, que o já acontecido se levanta das vias da memória e se corporifica no presente. Conceição Evaristo, Canção para ninar menino grande .   A leitura de Conceição Evaristo e a história de Fio Jasmim a levam à urgência da escrita, não aquela pretendida, que deveria registrar, enfim, em termos teóricos, incidindo na descrição da forma da escrevivência, mas uma outra, a subjetiva, ainda sem forma, pela insaciável presença da memória que irrompe sob a provocação do encontro com a narrativa poética. E então. Lembrou-se do tempo em que tinha o sujeito – que considerava amar – como o grande interlocutor. A esse pobre sujeito eleito, à revelia de suas desconhecidas vontades, destinava tudo que escrevia. E pensava. Era para ela uma espécie de amigo imaginário, inventado certamente pela incapacidade de resistir na solidão. Em vez de and...