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Nós na Praça

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  Um passeio de fim de tarde, uma caminhada, encontros, namorados no banquinho, crianças no parquinho ou aprendendo a se equilibrar na bicicleta, idosos jogando cartas, cachorro fazendo xixi , jardins secos ou floridos. Sem saber, todos estamos conectados na urbe. Da antiguidade até aqui, em qualquer lugar do mundo existe uma praça. Dizem que as praças públicas surgiram na Grécia e que tinham a função de reunir as pessoas para debater sobre os assuntos da pólis. Além disso, eram utilizadas como forma de transmitir cultura e conhecimento, bem como para expor ideias e tomar decisões. Na Idade Média, as praças passaram a ser voltadas para a realização de comércio, execuções e outros ritos religiosos.   No período Barroco e Renascentista, elas ganharam espaços voltados à vegetação, artes, contemplação e descanso, com um conceito mais estético.   A primeira praça no Brasil foi criada em 1549, em Salvador na Bahia, e foi nomeada Praça Tomé de Souza, mas ficou conhecid...

Caseara

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  O carro quebrou. A cidade de Caseara, próxima ao Rio Araguaia, há menos de quarenta quilômetros. A estrada de terra, lotada de buracos e pedras parecia com a pista de um jogo de obstáculos. Passamos, em velocidade atrevida, para o tipo de terreno, por um previsível buraco. O buraco era previsível, mas seu tamanho e extensão escaparam a nossos cálculos. Era uma cratera lunar, ou o marco de pouso de alguma nave espacial. O carro alçou vôo por uns cinco ou seis metros depois de topar com a barranca da fenda. Na aterrisagem, os amortecedores foram insuficientes para o impacto. O fundo do carro bateu com força no chão, e nós, batemos as cabeças no teto. Entre mortos e feridos, sobrevivemos todos, menos a caixa de câmbio, que ficou dependurada como um cacho de ferro velho, balangando de maneira patética. Seria uma longa noite. A uma das margens da estrada, se é que se pode nomear aquilo como estrada, um pasto infinito, que agora, pós o barulho do acidente, chamara a atenção de uma enor...

Chico 81

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  Não sou do tipo que cultua personalidades, adota herói (ou bandido), mas tem uns caras que não tem como não reconhecer o brilho, a beleza, a imensidão. Um desses é o Chico Buarque de Holanda, que hoje, 19 de junho de 2025 completa 81 anos de vida e pelo menos 50 anos na (minha) vida. Se somarmos todos os anos de vida que ele preencheu e preenche junto aos milhões de fãs, já virou imortal. Ou quase. Pois foi esse cara que começou o encantamento do brasileiro com a canção singela A BANDA ao ganhar o II Festival de Música Popular Brasileira, em 1966. Também nesse ano lançou Quem te viu, quem te vê. A partir daí, foi brincando, com as palavras, conceitos, pontos de vista, focos teatrais (tive o prazer de assistir a peça Gota d’Água, que ele escreveu com Paulo Pontes, em 1975) e brincadeiras com Os Saltimbancos, mostrando a imensa sensibilidade ao tratar com o público infantil. Ao conquistar o público infantil, fechou o círculo de admiradores, pois todos os outros já haviam sido encan...

Essa tal vida

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  É um circo irado, deduzi. Tudo nele é inquietante em vez de agradável. Do drama à comédia, passando pelo rigorosamente hilário, soava-me estranho. Eu estava na plateia, mas me sentia membro ativo daquele espetáculo, e vi entristecido que todo mundo a minha volta sorria às gargalhadas até mesmo quando a caricatura de palhaço vestido de terno com cores berrantes, cartola multicolorida e sapatões pontiagudos com que chutava o traseiro das pessoas estafadas por tarefas repetitivas, entrou no palco. Um imenso palco, tão vasto quanto um país, quiçá o mundo. E eu, amargurado, pensei, porque aquilo beirava o absurdo –, é sonho ou realidade? Como se adivinhasse meu pensamento, o palhaço apontou o dedo para a plateia, e pareceu escolher-me como alvo entre os milhões ali presentes – sim, eram milhões –, mirando minha cabeça como um policial com sua arma contra preto e pobre em batidas na favela, e disse num misto de irritação e riso: “escrotos como você prejudicam o riso e o mundo. Bons são...

Vento inspirador

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A chegada do vento aqui em Palmas me traz muitas recordações. Lembro-me muito dele, com intensidade e nomes diferentes, nos diversos lugares por onde passei, por onde vivi. Lembro-me dele na Bíblia, nas obras literárias lidas, em títulos de livros, filmes ou como “personagem” de romances famosos. Lembro-me dele nas músicas e poemas que curti, desde a minha tenra infância. Nesse emaranhado de recordações destaca-se aquela madrugada, há alguns anos, quando fui surpreendida pela impetuosidade e impressionante barulho do vento “tocantinense”. Parecia que o nosso prédio iria desabar ou simplesmente voar... De manhã, ao me levantar, abri a janela e saí do quarto. O vento continuava bem forte, mas o sol amigo generoso, dissipara meus receios noturnos. Quando voltei ao quarto, achei um pedacinho de papel, caído no chão, perto da janela. Não havia nada escrito nele, mas num cantinho, estavam as palavras “Pequeno Príncipe” e uma singela imagem do próprio. Via-se que o papel tinha sido cortado cu...

O fim do mundo

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A mãe anunciava diariamente como mantra para buscar a conversão da filha: o fim do mundo está próximo. Jesus está voltando. A filha pensava na vagarosa caminhada que Jesus fazia, demorando-se desgostoso. Os que se diziam cristãos defendiam posse de armas, criminalizavam crianças violentadas que demandassem urgência de aborto, votavam pelo PL da devastação e contra a isenção de IR para os mais pobres... Deus já ordenara: vai, filho. São as profecias. Maria entendia sua relutância. Já vou. Já vou. Pôs as sandálias e partiu a pé do ponto mais longínquo da esfera celeste. Iria meditando, como os peregrinos de Santiago de Compostela, parando aqui e ali... A Bíblia fala na besta do Apocalipse. A filha, aderindo à pregação da mãe, buscava identificá-la: era Trump, sem dúvida, munido de mísseis, ódio, intolerância, preconceito e controle dos algoritmos. O que não estava nas sagradas escrituras é que a besta se multiplica em muitas cabeças e, como toda saga, Israel estava dentro. Como um f...

Quando a crônica não vem

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  Há dias tento escrever uma crônica para o projeto Cronistas do Sol, pra não dizer, meses. Mas sempre alguma coisa encasquetava minha cuca e eu travava. Nada de prosa catada ao rés do chão, por enquanto, me soprava um dos meus guias.  Excesso de (des)informação, fake news, tudo acontecendo ao mesmo tempo, política, cultura, sociedade, cultura inútil e outros temas pululando nas redes sociais na internet, essa cornucópia digital de Deus e do Diabo. A princípio, iria escrever sobre os comentários acerca de algum assunto apimentado postado interneticamente. Primeiro, veio o tino de dibuiar sobre uma postagem no Facebook em que uma mulher decretava: “Aceitei a solicitação, mas não precisava vim (sic) agradecer no messenger não (sic)”. Claro, a sobremesa seriam os comentários. E, nestes, fica evidente o quanto a empatia e resiliência são artigos raros nas telas de Narciso 5.0. interpretação de texto- isso quase ninguém saiba mais o que seja. Segundo pesquisa do Indicador de Alfabe...