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Mostrando postagens com o rótulo Claudio Duarte

Tempo Perdido

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  Durante muito tempo duvidei da existência de seres interplanetários. Depois, mudei a percepção e, embora sem nenhuma prova robusta, tenho convicção de que eles existem. O que alterou meu entendimento foi uma conversa com um amigo, de São João do Araguaia, no Pará. Ele contou de um avistamento que presenciou e exigiu segredo. Imediatamente, assegurei:  – Sou um túmulo! O beiradeiro confidenciou-me que, na madrugada, pescava com dois amigos no encontro dos rios Araguaia e Tocantins quando uma luz branca brilhou sobre eles. A água vibrou como gotas saltitantes e, aterrorizados, eles mergulharam e se esconderam entre os sarãs. Minutos depois, a luz se apagou e os três retornaram para a canoa. Sem entender o que se passava, remaram até dois outros pescadores, um pouco adiante. Os homens falavam sobre o estranho fenômeno no momento em que o aparelho se iluminou acima deles. As luzes refletiam cores tão variadas que eles ignoravam os tons e os matizes. Um dos pescadores atirou para...

Aparências, reflexos e reflexões

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  Na minha juventude, sempre quis aproximar-me da aparência física de Renato Russo. O vocalista da Legião Urbana foi, de longe, o ídolo maior de minha geração de roqueiros. No dia a dia, eu usava sempre jeans surrado e camisas combinadas com a estética do popstar. Meus óculos eram iguais aos dele, e usava os cabelos e a barba desalinhados. As conversas com amigos eram pontuadas por citações da banda e, como resultado, algumas pessoas achavam mesmo que eu parecia o Renato Russo, e até me chamavam pelo seu nome. Claro que eu adorava e alimentava essa doce ilusão. Os anos passaram e a estética mudou. Chegaram rugas e marcas de expressão, novos amigos e novas interpretações das aparências. Com a maturidade, acho que fiquei um pouco parecido com um de meus irmãos, o poeta Chico Duarte. Mas para algumas pessoas de nossa cidade, somos mais que parecidos, somos reflexos da mesma pessoa. Há quem diga que a cara de um é o focinho do outro, e há até quem, tentando ser mais preciso, substitua ...

A faxina

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  Assisto ao futebol na sexta-feira à noite. Brasil contra Haiti, 3 a 0. Confesso que dormi quase todo o segundo tempo. Mesmo assim, acordo na manhã seguinte, preguiçoso e sonolento. Empurro com a barriga a faxina do sábado para o domingo. A casa está razoavelmente limpa. Mas, nessa época do ano, em Palmas, o vento é incessante e tem poeira por todos os cantos.  Aprendi na internet que os japoneses dividem as tarefas da casa durante a semana, atuando em um compartimento a cada dia. Passei a fazer isso e deu certo. Programei-me para ter folga aos domingos. Trabalho pouco e a casa se mantém limpa todos os dias.  A sala é o cômodo, e o incômodo, da vez. Nela estão os livros, as bonecas Karajá Ritxòkò, as coleções de revistas em quadrinhos, equipamentos de som e minha área de produção literária, com notebook, canetas e cadernos. É a parte mais cansativa da faxina, mais até que a cozinha. Ao acordar, por volta das seis horas da manhã, o canto dos pássaros me lembra que é hora ...

Futebol é para todes

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  Em ano de Copa do Mundo, a pauta em qualquer conversa no Brasil termina em futebol. Para manter-me atualizado, assisto aos debates intermináveis dos programas esportivos, mas percebo uma desproporção entre homens e mulheres na composição das bancadas; mais rara ainda é a presença de gays. Enquanto eu vivi nas sombras, nunca fui questionado sobre gostar de futebol; porém, depois que quebrei o armário e o triturei no moedor de purpurina, sempre ouvi piadinhas sobre meu interesse por um esporte tão masculinizado. A participação das mulheres no mundo do futebol iniciou-se ainda em 1895; mas no Brasil, de 1941 até 1979, elas eram proibidas de praticar o esporte e somente no ano de 1983 foi regulamentada a modalidade. No meio masculino, a luta era para manter longe dos olhos e dos comentários ferinos qualquer resquício de homossexualidade que, porventura, florescesse entre os jogadores. Todos tinham que ser cabra macho. Reinaldo, ex-jogador do Atlético Mineiro e um dos melhores atacant...

Pipoca é melhor que alguns humanos

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  Acordo com a escalada do noticiário da madrugada e desperto com a tortura e a morte violenta do cãozinho Orelha, em Florianópolis.  Saio para ir à panificadora e levo ração para alimentar alguns gatos que vivem nos arredores. Na praça da quadra, encontro e cumprimento um morador que passeia com dois belos amigos caninos. Ele me diz, entristecido, que uma das cadelas está machucada. Um humano, adulto, a feriu com um pau enquanto ela brincava na praça. Ciente da constante violência e do abuso que geram sofrimento aos animais, eu me solidarizo com ele. Nem sempre eu fui assim. Houve um hiato em minha vida, quando ignorei a luta das mamães caninas e felinas para proteger seus filhotes, e desviava o olhar para não ver a fome e a agonia dos que vivem nas ruas. Em minha infância, tivemos a companhia de vários bichos em nossa casa. A maioria cachorros, nenhum gato. Quando nasci, mamãe já criava um jabuti que viveu conosco por trinta e oito anos até ser roubado por mãos humanas. Noss...

Dona Bibita

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  Minha amiga, anos atrás, mudou-se para uma cidade mediana em seu estado natal e iniciou um trabalho em um antiquário. A loja vendia lindos moveis antigos, raros e de valor histórico, além de suntuosos objetos de decoração em porcelanas e cristais. Nos primeiros dias, ela tratou de ir conhecendo os clientes mais recorrentes da loja, e alguns moradores populares da cidade. Não escapou aos seus olhos a pequena Josefa. Josefa tinha entre vinte e trinta e cinco anos. A dificuldade em definir sua idade, era por conta de sua baixíssima estatura, pouco mais de um metro e quarenta em saltos altos, o que dava a ela uma aparência quase adolescente. Era natural da cidade, portanto, uma pessoa conhecida por quase todos dali. As crianças, ainda na fase infantil, deram-lhe o apelido de Bibita, que ela odiava. O apelido a perseguiu a vida toda e foi motivo de grandes discussões e, algumas vezes, até caso de polícia. Josefa passava em uma rua e não faltava quem gritasse, às escondidas, o sórdido ...