Pipoca é melhor que alguns humanos
Acordo com a escalada do noticiário da madrugada e desperto com a tortura e a morte violenta do cãozinho Orelha, em Florianópolis.
Saio para ir à panificadora e levo ração para alimentar alguns gatos que vivem nos arredores. Na praça da quadra, encontro e cumprimento um morador que passeia com dois belos amigos caninos. Ele me diz, entristecido, que uma das cadelas está machucada. Um humano, adulto, a feriu com um pau enquanto ela brincava na praça. Ciente da constante violência e do abuso que geram sofrimento aos animais, eu me solidarizo com ele.
Nem sempre eu fui assim. Houve um hiato em minha vida, quando ignorei a luta das mamães caninas e felinas para proteger seus filhotes, e desviava o olhar para não ver a fome e a agonia dos que vivem nas ruas.
Em minha infância, tivemos a companhia de vários bichos em nossa casa. A maioria cachorros, nenhum gato. Quando nasci, mamãe já criava um jabuti que viveu conosco por trinta e oito anos até ser roubado por mãos humanas. Nosso primeiro amigo canino era um lindo pastor alemão que morreu envenenado por um humano que não o estimava. Depois ganhei um porquinho de tio Gregório e o chamei de Astronauta. Contra a minha vontade, ele acabou na panela dos humanos. Por último, criamos um cachorro caramelo, Leão.
Um dia, Leão chegou em casa com a garganta decepada pela faca de um humano açougueiro. A agonia de nosso amigo canino e o desespero em não poder ajudá-lo obrigaram-nos a uma eutanásia, que papai executou, às lágrimas. Aquele dia, mamãe não suportou a agonia em seu peito e se prometeu nunca mais ter um bichinho para nossa estimação. Seu coração fechou as portas para os animais e durante décadas, em casa, só teve humanos. Bichos, só as esperanças e os beija-flores, que sempre foram bem acolhidos em nosso lar.
Foi preciso um bisneto pedir muito, para novamente termos um bichinho andando pela nossa casa.
Primeiro foi Tchutchuca, mestiça de poodle com vira-lata, e depois Branquinha, sua filha. As duas foram o xodó da casa por vários anos, e quando não havia ração, mamãe passava um delicioso bife para nossas amiguinhas. Assim, reatamos nosso contato com os cachorros. Gatos, mamãe não gostava.
Anos depois em Palmas, acolhi na varanda de casa, meio a contragosto, uma gata abandonada pelo vizinho. Essa relação de amizade não durou muito tempo e, logo, ela partiu deixando em minha porta quatro gatinhos, frutos de suas estripulias sensuais, pelas madrugadas, em meu telhado. Eu os convidei a entrar.
Desde essa época, já viveram comigo onze felinos. Atualmente, vivem sete. Nesses anos, foram muitas alegrias e algumas tristezas. Um de meus amiguinhos, Chocolate, se perdeu pelas ruas de Palmas. Também pude conviver alguns anos com um bichinho que foi consumido por um câncer de fígado em pouco mais de quinze dias. Chante Lee se foi e partiu meu coração.
Acredito que os bichos, assim como os humanos, têm um princípio inteligente. Os animais merecem respeito e nossa colaboração para que possam viver com o mínimo de paz e segurança. Tiramos seus espaços, seus alimentos, suas forças e, em geral, devolvemos desprezo e violência.
Certa vez discuti com vizinhos que achavam normal atirar com balas de chumbinho nos felinos que passavam pelo seu muro. Atiraram em Caramelo, meu gatinho, e acertaram meu coração. Tive que me expor. Transtornado, gritei e exigi o mínimo de civilidade daqueles humanos. Ameacei chamar a imprensa e acionar a delegacia que investiga os maus-tratos aos animais. Com o barulho desumano, o equilíbrio retornou.
Palmas é uma cidade de muitos bichinhos. Seu sol brilha individualmente para cada um e superaquece suas quadras. Por ali circulam lindas araras, tucanos, gaviões, urubus, pica-paus, corujinhas, cachorros e gatos. Moro próximo a áreas verdes e, em meus passeios matinais, já encontrei tatu, veado, paca, cutia, filhotes de lobo e diversas aves. Convivo bem com os animais e aprendo a amá-los e respeitá-los, dia após dia.
O último felino a ser acolhido em minha casa, meses atrás, ganhou o nome de Pipoca, em alusão aos grãos de milho que estouram quando muito aquecidos. Com o pelo todo preto, brilhoso, extraordinariamente macio, e exposto ao calor palmense, Pipoquinha é explosivo e vive de modo extremamente agitado.
O felino é dono de mim e desconfio que, assim como o alimento milenar de origem indígena, Pipoca é, de longe, muito melhor do que alguns humanos.



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