Aparências, reflexos e reflexões
Na minha juventude, sempre quis aproximar-me da aparência física de Renato Russo. O vocalista da Legião Urbana foi, de longe, o ídolo maior de minha geração de roqueiros.
No dia a dia, eu usava sempre jeans surrado e camisas combinadas com a estética do popstar. Meus óculos eram iguais aos dele, e usava os cabelos e a barba desalinhados. As conversas com amigos eram pontuadas por citações da banda e, como resultado, algumas pessoas achavam mesmo que eu parecia o Renato Russo, e até me chamavam pelo seu nome. Claro que eu adorava e alimentava essa doce ilusão.
Os anos passaram e a estética mudou. Chegaram rugas e marcas de expressão, novos amigos e novas interpretações das aparências. Com a maturidade, acho que fiquei um pouco parecido com um de meus irmãos, o poeta Chico Duarte. Mas para algumas pessoas de nossa cidade, somos mais que parecidos, somos reflexos da mesma pessoa. Há quem diga que a cara de um é o focinho do outro, e há até quem, tentando ser mais preciso, substitua o focinho por outra parte do corpo.
Já fomos confundidos, e às vezes é difícil convencer as pessoas de que não sou ele. Ainda me lembro da primeira vez, quando uma professora me convidou para uma palestra na escola. Fiquei lisonjeado, até que ela pediu que eu levasse meus livros de poesia. Tive que explicar que eu não era o irmão poeta, e ela resistiu bastante à informação.
Certo dia, cheguei a um bar de esquina em Araguatins e encontrei um tocador de forró rodeado de amigos. Bastante animado de cachaça, o homem me cumprimentou e falou aos colegas sobre nossa amizade. Percebi a confusão e disse-lhe que era o Cláudio, não o Chico. Ele não gostou, e ficou bravo. Disse que me conhecia muito bem, que jogou futebol comigo, e não aceitou que eu não fosse meu irmão. Para evitar confusão maior, concordei com ele.
Quando estou acompanhado de minha cunhada, aí então é que viro o Chico mesmo.
– Bom dia, Dr. Francisco.
– Bom dia! – agora eu respondo logo.
Explicar que somos dois dá muito trabalho. Facilita as coisas quando eu e ele estamos juntos. Quando minha mãe fazia fisioterapia, a moça que a auxiliava em casa, desde a primeira vez que me viu falava como se já me conhecesse. Lá pelo terceiro dia, ela me viu ao lado do Chico e surpreendeu-se:
– Vixe! E são dois!
Chico toca violão e é muito fã de Raimundo Fagner. Canta suas músicas, e até parece um pouco com ele. Aí, existem aquelas pessoas que me acham escritinho o cantor cearense.
Em Búzios, no litoral do Rio de Janeiro, fui interpelado por um turista argentino que insistia em tirar uma foto comigo. Eu não entendia o motivo, o qual ele me esclareceu em um confuso portunhol:
– Reimondo Fágner!
Disse a ele que eu não era o artista. Ele insistiu muito, e parecia frustrado. Quase deixei que fizesse a selfie.
Em Palmas, diversas vezes as pessoas param, literalmente, à minha frente e exclamam:
– Meu Deus! Pensei que fosse o Fagner.
Acho engraçado e não me incomodo. Mas alguns anos atrás, teve um senhor que avançou o sinal. Proprietário de uma rede de hotéis, ele me disse que no passado viajou muito para Fortaleza. Nostálgico, dizia conhecer o cantor e afirmava que nossa semelhança era mesmo impressionante. Não sei se era verdade, mas com quase oitenta anos, falava com carinho sobre o cantor de “Revelação” e sugeria ter tido uma proximidade afetiva com o artista nordestino.
Enquanto fixava seus olhos convidativos nos meus, o homem tocava levemente minha perna e repetia insistentemente que o “Fagner fazia de tudo”. Percebi um flerte na recorrência do termo e esquivei-me do convite, educadamente.
Olhei para meu amigo Hudson, que presenciava tudo ao meu lado. Ele fez um sinal expressivo com os olhos e soltou uma gargalhada explosiva.
O senhor, aparentemente entusiasmado pelas boas recordações, não se constrangeu, e repetiu algumas vezes:
– Ele fazia de tudo... de tudo...
Envergonhado, sorri de canto e, para dar fim àquele affaire, recorri a uma citação sertaneja:
– Aparências, nada mais!



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