A faxina
Assisto ao futebol na sexta-feira à noite. Brasil contra Haiti, 3 a 0. Confesso que dormi quase todo o segundo tempo. Mesmo assim, acordo na manhã seguinte, preguiçoso e sonolento. Empurro com a barriga a faxina do sábado para o domingo. A casa está razoavelmente limpa. Mas, nessa época do ano, em Palmas, o vento é incessante e tem poeira por todos os cantos.
Aprendi na internet que os japoneses dividem as tarefas da casa durante a semana, atuando em um compartimento a cada dia. Passei a fazer isso e deu certo. Programei-me para ter folga aos domingos. Trabalho pouco e a casa se mantém limpa todos os dias.
A sala é o cômodo, e o incômodo, da vez. Nela estão os livros, as bonecas Karajá Ritxòkò, as coleções de revistas em quadrinhos, equipamentos de som e minha área de produção literária, com notebook, canetas e cadernos. É a parte mais cansativa da faxina, mais até que a cozinha.
Ao acordar, por volta das seis horas da manhã, o canto dos pássaros me lembra que é hora de o corpo despertar, espreguiçar-se e esquecer a caminhada padrão. Afinal, hoje é domingo de faxina. A limpeza da casa não é minha tarefa favorita, mas não é tão difícil quanto aguentar Daniel, Eliana, Luciano Huck e Patrícia Abravanel na TV aberta.
Mesmo assim, dou início ao protocolo de procrastinação. Abro na TV o site da Liga Mundial de Surfe, a WSL. A etapa mundial está acontecendo no Rio de Janeiro e a chamada está prevista para as sete horas da manhã. Reforço minha decisão mental de procrastinar, e agora tenho um bom motivo: o Brasil tem quatro surfistas entre os oito finalistas, e não quero perder as baterias.
Às sete em ponto, Saquarema não deu onda e as baterias do domingo passam para o dia seguinte. Em casa, mesmo com a marola, não posso adiar a faxina para a segunda-feira. Esqueço as pranchas e começo a pensar na vassoura, no aspirador e no rodo. Só penso. Definitivamente, não quero limpar a casa.
Passeio pelos 477 canais em busca de algo que me permita enrolar mais um pouco. Entre missas, esportes diversos, animais, séries policiais, comédias e filmes repetidos, nada me prende a atenção a ponto de justificar a minha preguiça. Desisto. Vou colocar uma música animada para despertar a minha coragem e o amor pelo brilho da limpeza.
Qual música escolher? Sento-me diante do computador e passo a ouvir fragmentos de canções, escolhendo por onde devo começar: disco music, rock, house ou pop. Limpo a mente com Chico Science, Francisco, el Hombre, BaianaSystem e Bob Marley. Quem sabe o som da Jamaica me “reggae” a força e traga de volta a coragem para faxinar. Volto a atenção para o som do Brasil, e passeio por Raul Seixas, Gil, Cazuza e Rita Lee: “Quero mais saúde!”. Sossego na rainha do rock e encaro a triste sina de um escritor preguiçoso.
Respiro fundo, empunho a vassoura como uma guitarra e começo a limpeza da sala. Desligo a mente e a televisão e ligo o aspirador, decretando o fim da procrastinação. Entre páginas de revistas e o olhar estático das bonecas Karajá, a poeira palmense me dribla a visão, tira onda e surfa pelas dobras do pano de chão.
O destino dá o tom da piada quando a voz de Rita Lee silencia e começa a de Ed Motta, que me grita aos ouvidos: “Eu não nasci pra trabalho”.
Aumento o volume e assumo a sina:
– Falou de mim.



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