Tempo Perdido

 

TTS ilustra cronica de Claudio Duarete para os Cronistas do Sol

Durante muito tempo duvidei da existência de seres interplanetários. Depois, mudei a percepção e, embora sem nenhuma prova robusta, tenho convicção de que eles existem. O que alterou meu entendimento foi uma conversa com um amigo, de São João do Araguaia, no Pará. Ele contou de um avistamento que presenciou e exigiu segredo. Imediatamente, assegurei: 

– Sou um túmulo!

O beiradeiro confidenciou-me que, na madrugada, pescava com dois amigos no encontro dos rios Araguaia e Tocantins quando uma luz branca brilhou sobre eles. A água vibrou como gotas saltitantes e, aterrorizados, eles mergulharam e se esconderam entre os sarãs. Minutos depois, a luz se apagou e os três retornaram para a canoa. Sem entender o que se passava, remaram até dois outros pescadores, um pouco adiante. Os homens falavam sobre o estranho fenômeno no momento em que o aparelho se iluminou acima deles. As luzes refletiam cores tão variadas que eles ignoravam os tons e os matizes. Um dos pescadores atirou para o alto e o objeto afastou-se. Sua luz era tão forte que era possível perceber o formato das árvores à distância. O óvni permaneceu imóvel por alguns minutos e desapareceu. O relato desse moço de pouco estudo e quase nenhum acesso à internet mudou minha percepção sobre discos voadores. 

Quando já morava na capital do Tocantins, após uma viagem malsucedida de Araguatins para Palmas, contei a um amigo minha desventura. 

Eu saí de moto, por volta das quatro horas da madrugada, e adentrei a Transamazônica. Logo passaria pela Nova Vila, Macaúba, entrada para Axixá e entroncamento de São Bento. Porém, o percurso, de cerca de trinta quilômetros, não guarda registro em minha memória. Após poucos minutos de direção, vi-me diante de uma rotatória. Parei, surpreso e sem entender de onde surgira aquele queijinho rodoviário. Joguei o farol da moto em várias direções e, apesar da forte neblina, reconheci que já estava no entroncamento de São Bento. Não entendi como chegara ali sem passar pelo povoado nem notar a iluminada ponte do Distrito de Macaúba. Senti um calafrio e respirei fundo. Confuso, segui em velocidade moderada para a próxima cidade, a vinte quilômetros. A estrada estava sendo recapeada e havia sinalizadores e máquinas paradas nas laterais. Reduzi mais ainda. Dirigi por alguns minutos e senti-me enjoado e com vontade de vomitar. Pensei em voltar, mas vi, a poucos metros, uma luz ofuscante. Decidi pedir ajuda. Ao me aproximar, notei que havia um clarão na outra margem. Acreditei que fosse um acampamento de trabalhadores e fui até lá. Avancei pelo nevoeiro e, para minha surpresa, estava no posto de Luzinópolis, cuja localização imaginei estar mais adiante. Com tonturas e sem noção de tempo e espaço, não consegui pensar. Parei em frente à lanchonete, desci da moto e me deitei no chão. A atendente acionou o SAMU e ligou para meu irmão.

A esse mesmo amigo contei também que, anos antes, saí de um evento em Araguatins, às três horas da madrugada. Quando cheguei em casa, notei que estava sem cigarros. Peguei a bicicleta e pedalei pelas calçadas até a esquina, onde desci para a rua. Num piscar de olhos, eu seguia pedalando. Segundos depois, estava em pé, diante de minha casa. Duas horas haviam se passado, o céu estava clareando, e eu, desnorteado. Assustei-me e decidi parar de beber. 

Meu amigo ouviu as duas histórias e, imediatamente, deu um veredito: 

– Você viveu episódios de Tempo Perdido, Missing Time. Foi abduzido. 

Surpreso com a afirmação, me aprofundei no assunto. Debrucei-me sobre os artigos da revista UFO e assisti a vídeos e a filmes sobre o tema. 

Há teorias sobre ETs cinzentos, nórdicos, insetoides, reptilianos e muitas outras raças. Dizem que são nativos da Terra, pertencentes a uma civilização avançada que vive no fundo dos oceanos ou no subsolo. A hipótese interdimensional propõe que eles coexistem conosco e operam em dimensões que não conseguimos perceber. Já a tese da inteligência artificial garante que são seres sintéticos e vivem disfarçados entre nós. 

Os produtores de conteúdos ufológicos afirmam que extraterrestres meio-humanos registram com exatidão os fatos e as palavras em seu cérebro biônico. Igual a meu grande amigo, que tem memória fotográfica e fala de livros e filmes com minuciosos detalhes e longas citações. Consta que devido a essa capacidade cerebral, as criaturas necessitam de um crânio maior. Esse fato ligou o meu sinal de alerta. Lembrei que a cabeça de meu amigo não coube no capacete, quando lhe ofereci carona. Duas coincidências podem ser uma evidência? Seria ele um grey? Resolvi brincar e divertir-me com essa possibilidade. Encostei-o na parede, apontei sua imensa cabeça e indaguei sobre sua natureza sintética. 

– Não!

Sua resposta seca e seu visível descontentamento com a brincadeira confundiram-me, e silenciei sobre o assunto. Mas, desde esse dia, ele passou a fazer chacotas e desdenhar de minha suposição. O relógio girou e acabei esquecendo. Achei que a questão do missing time fosse mesmo só uma fuga dissociativa. No entanto, depois que assistimos ao “Disclosure Day – Dia D”, do Spielberg, meu amigo retornou com as piadas e vive fazendo aqueles ruídos na garganta. Ele agora insiste em dar motivos para eu duvidar de sua humanidade e, de modo mecânico, o tempo todo sai com uma dessas zombarias:

– Seu Wi-Fi está interferindo em meu hardware ciático.

– Preciso lubrificar-me, as molas estão enferrujadas.

Dias atrás, chegou em casa dizendo que, ao se levantar, estralou igual a um modem antigo. Ficou sentado alguns minutos e levantou-se resmungando:

– Tenho que ir me alimentar, minha carga está muito baixa – e saiu apressado.

Até acho graça, mas esta semana ele realmente passou da conta. Ao realizar uma compra por aplicativo, depois de errar na hora de provar à plataforma que não era um robô, ele pediu que eu marcasse as opções do captcha em seu lugar. Perdi a paciência e quis repreendê-lo. Rapidamente, ele interrompeu-me emitindo ruídos com sua garganta. Sorriu dissimulado e, olhando para os lados, falou com a voz lenta e gutural:

– Escute...

Sem alternativas, reforcei o chá de camomila com um robusto maracujá.




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