Futebol é para todes
Em ano de Copa do Mundo, a pauta em qualquer conversa no Brasil termina em futebol. Para manter-me atualizado, assisto aos debates intermináveis dos programas esportivos, mas percebo uma desproporção entre homens e mulheres na composição das bancadas; mais rara ainda é a presença de gays.
Enquanto eu vivi nas sombras, nunca fui questionado sobre gostar de futebol; porém, depois que quebrei o armário e o triturei no moedor de purpurina, sempre ouvi piadinhas sobre meu interesse por um esporte tão masculinizado.
A participação das mulheres no mundo do futebol iniciou-se ainda em 1895; mas no Brasil, de 1941 até 1979, elas eram proibidas de praticar o esporte e somente no ano de 1983 foi regulamentada a modalidade.
No meio masculino, a luta era para manter longe dos olhos e dos comentários ferinos qualquer resquício de homossexualidade que, porventura, florescesse entre os jogadores. Todos tinham que ser cabra macho.
Reinaldo, ex-jogador do Atlético Mineiro e um dos melhores atacantes de todos os tempos, acredita que por conta de suas posições políticas e de sua amizade com o radialista Tutti Maravilha, gay assumido, sofreu linchamento moral e teve sua carreira menosprezada na Seleção Brasileira durante a Copa de 1982. Acompanhei a Copa, e acredito que ele possa ter razão.
Os torcedores brasileiros sempre usaram e abusaram de trocadilhos, enchendo a boca, para dizer que Garrincha era de Pau Grande/RJ, mas se eximem de comentar a ótima combinação de talento e delicadeza do jogador Richarlyson, que atuou no São Paulo e no Atlético Mineiro. Excelente volante e lateral-esquerdo, ele foi desprezado por alguns técnicos, chacoteado pelos torcedores rivais e teve sua capacidade limitada pelas homofóbicas forças invisíveis que permeiam o futebol. Ao lado do irmão Alecsandro, ele participou de um programa do jornalista Jorge Kajuru, que indagou sobre sua sexualidade: “Richarlyson, você é gay?”. Desconfortável e exposto entre a cruz e duas espadas, sentiu-se obrigado a dar uma resposta meio flácida: “Não. Sou heterossexual completamente”. Após abandonar a carreira de jogador, ele assumiu-se bissexual e, atualmente, é um excelente comentarista, de voz suave e posicionamento firme.
Demorou muito tempo, mas a bola dos gays masculinos, que não é plana, também girou. Em outubro de 2021, Josh Cavallo, lateral-esquerdo australiano, tornou-se o primeiro jogador de futebol profissional em atividade a assumir publicamente sua homossexualidade. A revelação o levou a enfrentar a fúria de muitos torcedores e, segundo ele, a ter tratamento diferenciado no clube.
Dias atrás, o argentino Nacho Lago ganhou destaque após apresentar publicamente o namorado durante uma entrevista na televisão. O jogador de 23 anos de idade assumiu que vive, ao lado de outro homem, um grande amor fora de campo com a mesma entrega que tem dentro dele. Incendiou os armários do futebol argentino.
Ser gay e gostar de futebol pode ser um paradoxo para muitas pessoas, não para mim. Sou torcedor rubro-negro desde o dia 6 de outubro de 1976, na noite em que o Flamengo venceu a seleção brasileira por 2 a 0, no jogo em homenagem ao falecido jogador Geraldo. Eu tinha 11 anos de idade, e estavam em campo Pelé, Rivelino e Zico: verdadeiros donos da bola. Acordei na manhã seguinte com o coração rubro-negro, encantado pelo talento do galinho. Passei a acompanhar os jogos na televisão e no rádio, e a ler semanalmente as matérias da revista Placar.
Ainda assisto a quase todos os jogos do Flamengo, dos seus principais rivais e os clássicos internacionais das grandes ligas. Não vou negar que admiro os belos corpos tanto quanto os dribles talentosos. Olho e gosto muito dos shortinhos brancos que, molhados, ao mesmo tempo escondem e demarcam as vergonhas dos atletas. Também acho divertidos comentários que geram duplo-sentido como “penetração com profundidade”. Brincadeiras à parte, a verdade é que eu não assisto futebol para me excitar sexualmente. Tanto é, que adoro assistir aos jogos de futebol das mulheres. Brincar de bola sempre me fascinou. Muito jovem, tentei aprender com meus primos que eram bastante hábeis no campo, mas não deu. Eu era infinitamente melhor nos jogos de queimada e na produção de roupinhas para bonecas. Mas, cinquenta anos após apaixonar-me pelo Flamengo ainda percebo censuras silenciosas e levantar de sobrancelhas sempre que respondo que naquele horário não dá, por conta do futebol.
Inclusive, vou ter que parar por aqui, porque escrevo em uma quarta-feira, às 21h30, e o Maracanã pulsa como um coração apaixonado na expectativa de outro grande espetáculo do clube mais querido do Brasil.
Eu não preciso fingir que não vou reclamar se uma das equipes estiver usando bermudas brancas, e caso o jogo esteja fácil, ainda vou lembrar-me de Jorge Ben Jor, outro torcedor rubro-negro, e cantar:
– Chove chuva, chove sem parar...



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