O pastor e a salsinha

 

Ilustração de Sérnio Angelim para crônica de José Carlos de Freitas


Quem o visse no púlpito, julgaria tratar-se de alguém que jejua e, bem por tal razão, apto a pregar. Um Deus que imola o próprio filho tem no sacrifício o meio precípuo de salvar a alma. Correlato à salvação da alma, o castigo do corpo. Comer?, o necessário e obrigatório remédio. E, se assim é, não se guiar o crente pelo sabor, pelo prazer de comer. De prazer em prazer, a gula; e o crente guloso. De prazer em prazer, a luxúria;  e o crente libidinoso.

Para a mesa, receitava o pão ázimo, a erva amarga (almeirões e chicórias). E mandava cortar o açúcar da limonada e do café. Quando não o próprio café. Em cada sermão, a proscrição de um específico condimento. O trabalho inverso dos fitoterapeutas. Mel e fel, o fel! E então estaria garantido o céu onde residiria o melhor dos méis e dos vinhos.

O que ninguém podia saber é que o pastor cultivava em casa uma horta clandestina. Uma horta num pequeno terreno, cujo acesso se dava por uma porta, estrategicamente colocada na parede de seu quarto. Nenhuma visita, nenhum fiel, nenhum irmão de igreja o suspeitaria. Vinham para se edificarem e edificados iam embora.

Ali, coentros, cebolinhas, pimentas de cheiro, alho, gengibre cresciam robustos entre outras hortaliças bem diversas dos almeirões que receitava. Tesouro particular o seu pecado. De modo que sua pregação tinha o sabor aliciante da sabotagem de si mesmo e a satisfação da retórica devidamente ensaiada para o convencimento pulpitante de almas de que, no fundo, desprezava pela facilidade da adesão.

Mas o diabo, como ele redundantemente afirmava, era ardiloso. Não havia contentamento no ser clandestino. Faltava o frêmito das coisas burladas. Crime clandestino é perfeito, mas não ousado. E a ousadia sempre enfrenta o perigo, o arriscado. Viver perigosamente, convencer-se da própria hipocrisia e gostar de sê-lo para continuar a ser o santo pastor de sempre. Tentação máxima, como a daquele condutor que resolve sair nu a passear pela cidade. Se der polícia? Se der acidente? Se furar um pneu? Não, levar um calção, um roupão dá no mesmo que não ter ousado o tudo. O desafio é levar nada e desafiar o devir que, no caso dele, diferia do inocente devir de Nietzsche.

Assim açodado, decidiu sair às noites de quinta para a rua, portando um feixe de suas hortaliças. Na primeira, coentro. Na segunda, cebolinha. Na terceira, pimenta. Na quarta, gengibre. Na quinta, alho-poró. Na sexta, deu ruim. Não se deu conta das câmeras que monitoravam o bairro. Foi registrado saindo do carro com um vaso de salsinhas. Invejáveis salsinhas. De peito estufado, acintoso. Dançou um tango com elas, como se conduzisse uma bela moça com vestido vermelho pelo salão. O vídeo, em preto e branco, fornecia uma visão retrô de um louco perdido na madrugada. E o vídeo vazou e veio a público, ao conhecimento de seus fiéis estupidificados. Careciam de uma satisfação. Exigiam-na.

Era possível que as salsinhas esvaziassem a sua igreja, destruíssem o seu púlpito e a obra edificada. Colegas pastores confabulavam-se. Qual saída para o impasse? A aposta na fé, depois de um exemplo contrário, não era coisa facilitada. Na sexta, tinha culto. No sábado, também. 

Sem tempo, estudou o arranjo das justificativas. Assumiria o que era irrefutável. Não negaria a identificação nem o fato. Com o apoio da esposa, cúmplice da horta clandestina, apresentou-se à assembleia e declarou-se como estudioso dos temperos que o diabo grassava na sociedade. Investigava os elementos químicos com que o diabo atentava contra os jejuns sagrados e necessários, na correta intenção de combater o inimigo destrinchando a própria arma do inimigo. Conhecer o inimigo e o que ele porta de arsenal é coisa fundamental para o bom combate. Era o que ele tinha feito, correndo o risco do escândalo. Razão pela qual fora visto de noite e não à luz do dia. Resguardava os fiéis, desta forma, do “mau exemplo”. 

No sábdo, dia seguinte, a igreja estava duplamente lotada. Pelos fiéis que viam nele o anjo seráfico e crisóstomo de sempre. Pelos curiosos que queriam ver ao vivo e a cores o pastor das salsinhas.


José Carlos de Freitas

Sérnio Angelim


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