Carnavais

 

Carnavais de Osmar Casagrande


Mais uma vez, estamos em pleno Carnaval. É assim mesmo, com maiúscula. Se você buscar na Wikipedia, vai receber a informação de que Carnaval é uma festa do cristianismo ocidental que ocorre antes da quaresma. A informação é só meia verdade.

A verdade é que o cristianismo copiou ou suportou essa festa pagã e muitíssimo popular, que fazia furor nas Saturnálias, festa em homenagem ao deus Saturno. Tinha até a eleição de um falso rei (sempre um plebeu), semente histórica do nosso Rei Momo. Durante o período da Saturnália, todas as relações sociais eram invertidas: lautas mesas eram colocadas à disposição do povão, que tinha muitas regalias reservadas, em tempos normais aos nobres e ricos. E reinava o rei plebeu.

No Brasil, o Carnaval seguiu a tradição do original, a Saturnália, com eleição de Momo, que se adorna com rico manto, coroa e cetro, enquanto comanda a folia; o povo tem liberdade fora de todas as medidas dos tempos “normais” e vemos homens fantasiados de mulher, mulheres seminuas, seios à mostra, orgias alcoólicas, fantasias criativas dos mais diversos matizes e perfiz psicológicos, além de outras “anomalias” do comportamento social.

Só para entrar no corpo fechado da crônica, repito: estamos em pleno Carnaval. Mas, que saudade do Carnaval nesta Palmas que vi nascer. Lembro-me dos desfiles das escolas de samba em Palmas e de quanto a festa mexia com a economia da cidade, tendo como arquiteto maior da festividade o muito querido, educado, jornalista premiado (ganhou dois prêmios Esso), profundo conhecedor da língua portuguesa e com a alma virada no espírito do Carnaval, Iberê Barroso.

Iberê não era presidente de nenhuma escola de samba. Era o presidente da LIESPA, Liga das Escolas de Samba em Palmas. E, como presidente, se desdobrava no esforço de conseguir as verbas necessárias para estruturar o desfile das escolas.

Palmas se transformava e se transmutava nos dias de folia, mas esse pequeno período que fenece com a quarta-feira de cinzas começava a ser produzido muito antes, com os sambistas participando de desafios em suas respectivas escolas, buscando enredo que garantisse o primeiro lugar; com os carnavalescos buscando inspiração e adaptação de alegorias e fantasias; com as costureiras e produtores dos carros alegóricos dando duro muitos meses antes e… faturando seu salário para sobreviver. Nos dias de folia, reinava Momo e o povo se esbaldava na licenciosidade própria do período, enquanto acontecia um tsunami na economia local.

Hoje, o Carnaval em Palmas, capital do Tocantins, perdeu a magia dos foliões Saturnais. Tem música gospel, sertaneja, forró e pagode. Tudo importado, prontinho, sem criatividade dos nossos sambistas, sem carnavalescos, sem costureiras, sem a ingenuidade do povo que se fantasiava de índio, sem alma. Até virou Carnaval da Fé, sucumbiu à praga das igrejas engolidoras de verbas.

Contudo, se estamos em pleno Carnaval, me é dado o direito, assegurado pelo Rei Momo, de protestar, trazendo para esta crônica um tempo em que reinava a alegria em lugar da hipocrisia.

Em Niterói, a Escola de Samba Acadêmicos de Niterói homenageia Lula do Brasil, figura importantíssima na história de nosso país; eu cá, trago uma figura importantíssima para nossa Palmas, o cavalheiro, jornalista, publicitário e que tinha a alma virada no santo do Carnaval, Iberê Barroso. Espero que ele esteja comandando a folia lá no outro plano da vida.





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