Primeira vez
Tem um poeminha do Guilherme de Almeida chamado O Ciúme que diz mais ou menos assim:
Minha melhor lembrança é aquele instante no qual
Pela primeira vez, me entrou pela retina
Tua silhueta, provocante e fina
Como um punhal
Depois, passaste a ser unicamente aquela
Que a gente se habitua a achar apenas bela
E que é quase banal.
E agora que te tenho em minhas mãos e sei
Que os teus nervos se enfeixam todos em meus dedos
E os teus sentidos são cinco brinquedos
Com que brinquei
Agora que não mais me és inédita; agora
Que eu compreendo que, tal como te vira outrora
Nunca mais te verei
Agora que de ti, por muito que me dês
Já não podes dar a impressão que me deste
A primeira impressão, que me fizeste
Louco talvez
Tenho ciúme de quem não te conhece ainda
E cedo ou tarde te verá, pálida e linda
Pela primeira vez.
Machismo e anacronismo à parte, ainda não decidi se tenho inveja ou pena de quem ainda não leu alguns dos livros e gibis que eu já li. O sentimento dura pouco porque cai sobre a minha cabeça a minha estante de livros e a impossibilidade de lê-la toda, de cabo a rabo, se isso fosse necessário ou mesmo possível, algum dia. Sei lá.
Mas se eu pudesse indicar um livro hoje, indicaria O filho de mil homens. Eu já tinha lido muita coisa quando, ao ler essa obra do Valter Hugo Mãe, mais uma vez eu redescobri porque gostava de ler. Foi como me alfabetizar novamente, agora com novas formas de ver e sentir o que lia como se fosse a primeira vez.
E é aí é que tá. Por mais repetitiva que possa ser a nossa rotina, tudo está acontecendo sempre pela primeira vez. Seja ler um poema antigo, um livro que virou filme, ler uma crônica, morrer aos poucos vendo besteira na internet.
E sim, às vezes tenho ciúme de quem vê tudo como se fosse a primeira vez.


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