Um Saramago por um amor canino
Minha história com bichos é extensa como a minha incompreensão diante do mundo dos homens. Testemunha atenta das maldades e descasos para com os primeiros pelos segundos, já nem conto quantas vezes meu coração ardeu frente a atos vis e cruéis, especialmente contra caninos e felinos.
Sempre gostei de bichos. Todos, sem exceção. Sou capaz de sentir pena até de uma mosca. Sei, mosca não é bicho, é inseto. Mas como um inseto que penso sermos todos nós, ditos humanos, na grande teia da vida que, uma hora, manda a Viúva-Negra nos cortar o fio da vida.
Assim, hoje, temos em casa um casal de papagaios verdadeiros, o Gabo e a Hilda, dois cães, a Estrela e o Pretinho, este, visitante incansável por meses do portão de casa em que fez morada vigilante e, depois, todos em casa enternecidos, não fizemos outra coisa: o pusemos para dentro. E a Caetana, gata amorosa (do jeito de gato, ou seja, cagando e andando para nós, humanos). Esta, gata-presente porque quando trouxe a família de Gurupi para Palmas em fins de dezembro último, Mimico, nosso querido e amado guardador de nossos mais estritos sentimentos de humanos para com felinos, assustou-se com a mudança e no primeiro dia de casa nova desapareceu. Sim, foram dias e meses de intensa e desabalada procura na quadra local e nas vizinhas, em grupos de pet no facebook e outros. Mas, nada. Mimico foi-se. Logo depois, uns três meses após o seu desaparecimento, estou sentado na minha varanda, num final de tarde, quando veja uma gata se esgueirando pelo portão menor. Aproximo e vendo que é a mesma que, às vezes, a víamos em frente à nossa nova morada, chamo-a para dentro, abro o portão e ela, como se há milhares de anos reinasse felinamente nesse pedação de chão, entrou altivamente e aqui continua.
Mas, tudo isso para falar que na vida, sim, conversa antiga e fiada, tudo tem o seu preço. Um dos meus irmãos, também residente em Palmas, noutro setor, havia adotado uma pastora alemã, a Luna. Filhote quase adulta, nas duas vezes em que lá estive depois de sua chegada, sempre me fitava e latia, sem se aproximar. Viajado, não forcei. Sabia que ela precisava do seu tempo para aprovar meu cheiro de humano. Então, numa terceira vez, estou lá. Me recebera como das outras vezes, latindo e postando-se desconfiada sempre distante uns dois metros. Depois de ler um pouco Levantado do Chão, do Saramago, largo o livro em cima da cadeira e vou para dentro jogar conversa fora com a parentada.
Quando volto, a cena indesejada: o livro aos pedaços, rasgado, jogado ao chão. Logo ela vem, se achega perto, me cumprimenta caninamente lambendo minha mão, como se pedisse bênção e perdão pelo preço do início de nossa amizade. Aturdido, mesmo assim devolvo o carinho ingrato por ela proposto. E o livro vai, infelizmente, direto pro lixo. Rima nada fácil para quem ama bichos e literatura.


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