Os delírios de um cortejador de fantasmas
Venho de um mergulho prolongado nas catacumbas iluminadas, poéticas e transcendentais da literatura. Emerjo dessa etérea matéria e, em profundo hausto, me poluo dessa névoa espessa e cegante a que chamamos realidade. Essa visita às catacumbas literárias teve como guia pelos insondáveis (des)caminhos a poética de Ronaldo Coelho Teixeira, materializada na obra Cortejador de fantasmas.
A alquimia de Ronaldo, feito mestre das retortas, conseguiu destilar das visões etéreas e eternas de mestres da literatura a essência – éter sutil – das visões poéticas ou proféticas com que tais escritores e poetas desconstruíram, reconstruíram, ressignificaram o mundo na dureza inefável das palavras.
No mergulho que fiz me fui inoculando das essências de escritores tantos entre os quais alguns não conhecia, como Lúcio Cardoso e outros que já me habitavam, como Clarice Lispector e Jorge Luis Borges, nesse habitar que nos amplia os universos que vivemos, inventamos, (d)escrevemos.
Confesso que foi viagem psicodélica, com picos e vales de euforia, de extasiamento, de reflexão e inflexão, cada dose poética desse veneno chamado literatura a causar um único e delírico gozo. Às vezes doses mínimas a causar enormes revoluções no meu sentir; outras, longos tragos profundos a me arremessar nas masmorras da filosofia, a visitar meu próprio Eu, em suas perdidas e obscuras origens.
Cortejador de fantasmas, o livro, não é para amadores. Mas é mil por cento indicado para amantes (da literatura, esclareço). Ronaldo, o poeta, conseguiu buscar a essência literária desses tantos iluminados fantasmas, que deixo de citar por serem muitos e muitas as notas hipnóticas e psicoativas, cada dose de essência com suas delicadas ou abruptas tendências, sensações, sentimentos, escala de aprofundamento na carne ou na filosofia, na inteligência ou no escracho.
Assim como Jean-Baptiste Grenouille, personagem de “O perfume: a história de um assassino”, de Patrick Süskind, que conseguiu extrair a essência dos corpos femininos e embriagar a humanidade, do mesmo modo, Ronaldo, travestido no seu modo poeta, extrai a essência literária dos fantasmas e nos serve em doses raras vezes homeopáticas, sem se preocupar com medidas politicamente corretas.
Hoje, saí dos iluminados caminhos das catacumbas do fantasmas literários (eu chamaria de catedral do espírito literário) onde não me abstive de nenhuma das essências expostas e fui fundo em cada proposta, muitas vezes surtando em sonhos psicodélicos; outras em devaneios bélicos, numa beligerância quase impossível entre Eu e Ego, sorvendo até a mínima gota do mágico elixir do sonho.
Apesar de ter deixado há tão pouco tempo o templo do Cortejador de fantasmas, já sinto os primeiros sinais de abstinência. Me socorro dos fiapos das essências, dos farrapos de memória e o corpo mental se agita enquanto metamorfoseia o mundo e faz das letras sinfonias poéticas onde respingam gotículas dos elementos que me foram inoculados na irrecusável agulha da agudez poética de Ronaldo.
Se você, leitor, não é dado às orgias oníricas entre corpo, alma e espírito, recomendo que não leia o Cortejador de fantasmas. Sinceramente, você corre o risco de se abilolar em uma overdose desde a primeira página. Ou a primeira gota.


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