O sacrifício dos santos

 


Fui católica na infância, mas num tempo atravessado pela Teologia da Libertação, na qual os santos não ganhavam tanto destaque no cenário religioso. Importava uma compreensão mais política sobre as dinâmicas sociais e o compromisso com as transformações para uma sociedade mais justa. Muito pouco li das hagiografias. De vez em quando aparecia algum livrinho em nossa casa, que lia curiosa como diante de toda e qualquer leitura, até jornais que embrulhavam ovos. Adulta, não tive interesse pela causa, mas tenho certa amizade com Santo Antônio, porque é atende a demandas amorosas; com são José, porque era trabalhador carpinteiro; com São Sebastião, porque minha avó diz um dia ter se encontrado face a face com o santo. Era um dia de procissão e, ocupada com o trabalho, não pode ir cumprir o compromisso de seguir o santo passeando pelas ruas da cidade. Triste, passava roupas, pensando que cometia pecado. Foi então que o santo lindo, todo soldado, apareceu para ela. Fiquei fã de São Sebastião para o resto da vida. Nem sei o que fez, que lutas lutou, que razões motivaram sua beatificação. 

Uma música de Chico Buarque, um tanto irônica, fala da permuta dos santos em igrejas pelo interior do Brasil. O santo ou a santa são retirados de suas igrejas, mudados de lugar e só retornam à origem depois de atendidos os milagres solicitados. O santo é, afinal, um trabalhador, sujeito a chantagens. Acho justo. Se têm poder para mudar a ordem do mundo, por que cochilam? Não batem ponto? Não possuem metas de produtividade a cumprir? Mas esta crônica é sobre outra permuta de santos. 

Um amigo, artista plástico, colecionava imagens sacras, esculpidas em madeira, produzidas por artesãos dotados de fé e competência estética. Não tinha pelas imagens alguma espécie de adoração. A aquisição das esculturas era movida por sua inquietação cultural. Casou-se com uma moça evangélica e, por isso, dada a perspectiva religiosa da companheira, precisou desfazer-se dos santos. Deu-as a um amigo, também artista. Tudo combinado, os santos mudaram de casa e ficaram lá, tranquilos em sua pose de santidade até que os dois amigos romperam a relação, sabe-se lá por que intrigas. 

Os santos precisaram novamente mudar de casa. Recebi-os, feliz, pondo-os bem lindos nas estantes da casa. Os gatinhos gostaram do novo brinquedo. Depois de alguns tapas, dois santos quedaram ao chão, tendo as respectivas cabeças devoradas pelos incréus cães, possivelmente Julien e Folie, os mais terríveis comedores de cabeça de santo do Tocantins. 

Guardei, por um tempo, os santos, colocando-os na mesa de trabalho, já descabeçados. Tinha pudor de jogá-los fora, depois de tanta romaria. Um dia, no afã das arrumações, foram-se embora ambos para o lixo. A santidade persiste mesmo sem cabeça? 

O santo sobrante fica bem resguardado de tombos, no cantinho, protegido entre livros. Já minha alma... não sei não. Se até os santos perdem a cabeça...




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