Com tradição

 


Assisti a uma entrevista com o autor de Brasil no Espelho, livro que registra o que 10 mil brasileiros falaram sobre si e sobre o próprio país. Uma coisa que me chamou a atenção na entrevista com o autor Felipe Nunes foi que ele diz que o brasileiro é um dos povos que mais desconfiam dos outros.

Na entrevista, ele não fala o número exato e eu fui atrás. Encontrei que 94% dos brasileiros dizem que "é preciso ser muito cuidadoso com as pessoas", enquanto 6% dizem que podemos confiar na maioria das pessoas.

Comparando com o mundo, o Brasil só fica à frente do Zimbábue no índice de confiança interpessoal. Maldade comparar com o Zimbábue, mas é o que tá na pesquisa. Lembrei até da obra da artista zimbabuense Prudence Chimutuwah, que faz seus quadros com antigas cédulas de alta denominação, de 500 milhões, de 1 bilhão, 50 bilhões e até 100 trilhões, que perderam totalmente o valor econômico por conta da situação do seu país.

Deixando essa lembrança intrusiva de lado e indo mais a fundo, me deparei com algo que é a nossa cara: a contradição. Digo isso porque a pesquisa aponta que, para um brasileiro confiar em outro, basta encontrar a pessoa tête-à-tête uma única vez ou ela ser da família.

Ou seja, o brasileiro não sustenta sua própria opinião por muito tempo. Ele tende a depositar confiança nas relações pessoais, em vez de confiar em critérios impessoais, instituições e regras.

Quer ver outra coisa curiosa da pesquisa? Na avaliação sobre a riqueza no Brasil atual, o estudo mostra que os brasileiros acreditam que nascer em família rica, ter oportunidades e formação explicam mais a riqueza do que o trabalho.

Ou seja, todo mundo concorda que pra ser rico é preciso ser rico. No entanto, a percepção de classe do brasileiro é bem distorcida: mais da metade dos mais ricos do país afirma ser de classe baixa ou média baixa.

Não tem jeito. No Brasil, contradição é regra. Não é à toa que o nosso país é marcado por tantas desigualdades. Não advogo uma ojeriza à contradição. Acho que foi até o Millôr Fernandes quem disse que se contradizer deveria ser um dos Direitos Humanos. Direitos Humanos, sempre eles...

Mas, como eu tava dizendo, não tem como e nem tem graça ser completamente coeso. Mas tudo tem limite, né, meu Brasilzão?!

Talvez, indo para esse limite, possamos resgatar dois ícones da nossa música para acabar com essa crônica. Tim Maia, ao dizer a célebre frase de que "o Brasil é o único país onde, além de puta gozar, cafetão tem ciúmes, traficante é viciado, e pobre é de direita", e Tom Jobim, ao dizer que o Brasil não é para principiantes.

Com a pesquisa Brasil no Espelho, sabemos que os brasileiros não sabem de qual classe são. E quem ganha com isso não são principiantes, são Vorcaros da vida e quem considera gente como ele da família, um irmãozão.

Ciro Gonçalves


Comentários

  1. Creio que a melhor imagem para mostrar essa docotomia é uma foto do Jânio Quadros (sim, é do século passado) em que cada pé aponta para uma direção e não dá para saber se ele está caminhando pra direita, esquerda ou centro.

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