Bicicleta na Bahia

 

ilustração de TTS para cronica de Luiza Silva

Para Bete Barros

 O destino das bicicletas é andar pelo mundo. Nem sempre é tão livre o passeio. Em Araguaína, na Castelo Branco, nem recomendo. Sem faixa para ciclistas, a pressa de motos, dos automóveis e dos caminhões, disputando a pista dupla... Também nem recomendo a Castelo Branco a pé, porque os carros ficam nas calçadas, com carrinhos de mão, escadas, propaganda de tinta, casinhas de cachorro, saco de cimento, panelas, pneus. Como diria Marc Augé, a agitada avenida com nome de ditador poderia se caracterizar como um não-lugar.  Tenho, porém, afetos pelos comerciantes que nos atendem, sabem o que comem meus gatos e cachorros, o tipo de pneu para meu carro e a marca de cerveja que bebo. Tenho também prazer estético ao ver brilhantes panelas de alumínio penduradas em uma das lojas. Apesar de tudo, o lugar resiste como tal, com amizades que driblam o trânsito e o tempo. E com muitas bicicletas, apesar dos riscos.

Eis então uma moça, a protagonista da nossa história, mudando-se para a Bahia. Resolveu assumir a vocação dos ciclistas e o destino das bicicletas, coisa mais que saudável, pedalando enquanto ouve Olodum. Lá ia ela pelas avenidas de Feira de Santana, com os movimentos rápidos, a saúde agradecendo, o céu comemorando, bicicleta novinha, os timbaus dando o ritmo das pedaladas. Mas e a bicicleta? Desapareceu por uns dias. Investiga daqui e dali e nada: mistérios de prédio em metrópole. Nenhum registro em câmera, nenhuma testemunha. Volta, também inesperadamente, depois do breve sumiço, a aventureira, discreta, silenciosa, solene, sorumbática e se posta no lugar de onde não deveria ter saído sem sua dona proprietária atleta.

Acredita-se que na Bahia de todos os santos e entidades, ela tenho ido ali, dar um passeio sozinha, visitando os territórios de dona Flor, seus dois maridos, parado num bar onde Quincas Berro d’Água ainda se refestela ignorando as duas mortes, ido ao restaurante de Nacib comer um dos quitutes de Gabriela, apostado corrida com Pedro Bala, subido e descido o elevador Lacerda, enfeitando-se de fitinhas do Senhor do Bonfim no Pelourinho, visitado apressadamente o Recôncavo, dado uma espiada na ilha de Itaparica para conversar com personagens do João Ubaldo e, enfim, exausta, voltara, discretíssima, para casa. Como sua proprietária é da literatura, o repertório é grande e a urgência de conhecer os lugares que abrigam tantas narrativas seria ainda maior.

A dona ainda não entendeu o sumiço, nem o retorno. Só sei que destino das bicicletas é andar pelo mundo e que o mar, como dizia Caymmi, quando quebra na praia, é bonito, é bonito.





Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Carnavais

O pastor e a salsinha

Senescência