A Jatobá

 

ilustração de ciro para cronica de jose antonio goncalves para o cronistas do sol


Todo dia é dia de alguma coisa. E um dia desses foi o Dia Nacional da Cachaça. Vi isso e me lembrei que meu pai gostava de presentear seus amigos com um litro de cachaça. Pois é. Mas não era qualquer cachaça, era a Jatobá, o aguardente mais especial, tipo exportação, de Penalva, cidade do interior do interior do Maranhão e adjacências.
Essa cachaça era vendida nas melhores mercearias da cidade e nas pequenas casas de vender fumo, arroz e farinha. O negócio dos meus pais estava entre esses dois. Mais para o segundo, para ser sincero.
O lugarejo que fabricava a Jatobá levava o mesmo nome. Mas nunca cheguei a conhecer. Ficava mesmo era sentado num banco de madeira próximo ao balcão com os pés ao ar, sentindo o frescor da cana passar, acompanhando o bafo dos apreciadores da branquinha.
Deixava de balançar os pés e às vezes me tornava garçom, maître, desse objeto de desejo tanto pelos que têm dinheiro quanto pelos que não têm.
Minha mãe me afastava e assumia o posto. Para ela os bêbados infortunados sempre pediam pequenas doses, servidas num copo de vidro transparente com algumas marcas que sugeriam o preço. No entanto, acabavam recebendo a mais alguns dedos generosos e solidários. Afinal de contas, só os bêbados, poetas e enamorados têm a capacidade de fugir do tempo.
“Detesto bêbados cuspindo no chão e falando bobagem, por isso não tenho bar”, dizia minha mãe. Mas as conversas dos “jatobeiros” ao pé do balcão era o que mais me agradava. Participavam de vaqueiro a prefeito. Trocavam pensamento tanto de política como de coisa nenhuma para o desenvolvimento da cidade.
No final das contas, a Jatobá ajudava na convivência social. E está aqui nessa minha braseira recordação.



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