Sorriso Colgate
Aconteceu
em Pium. Quando aconteceu, o tempo engoliu, nessa natureza estranha de Cronos.
Mas não conseguiu engolir o Zé Gomes. Só o que tenho de certeza é que foi no
século passado.
Mas
esta crônica nada tem a ver com Cronos, e sim com o Zé.
Foi
de repente. O Zé Gomes, presidente do Conselho Estadual de Cultura, me diz
“Casa, amanhã vamos pra Pium”. Claro como água da fonte, que não era pedido,
era ordem no modo carinhoso de ser do Zé Gomes. Em verdade, não era ordem de
serviço; ao contrário, ele queria me apresentar a pessoas que, no entendimento
dele, eu merecia conhecer.
Dia
seguinte, lá fomos pra Pium. Graças à luz do Zé e sua importância no cenário
cultural tocantinense, ficamos hospedados em casa do prefeito, que nos recebeu
com o maior dos carinhos, e com a delicadeza de poeta que também é.
A
mim coube uma suíte no andar superior, com uma sacada de onde eu podia ver boa
parte da cidade. Do outro lado da rua, um “pit dog”, como chamávamos as
biroscas de então: no terreno de esquina, com um cômodo exíguo onde cabia um
fogão, uma geladeira e pouco mais que o corpo do dono da birosca. À guisa de
varanda, uma cobertura para proteger a clientela e uma única mesa com quatro
cadeiras.
Ao
observar a birosca, vi ali um único cidadão sentado àquela mesa que
possivelmente levava o nome de “solidão”. Observei o sujeito, a mesa e o copo.
Daquela cena saiu o poema “Entremeios”:
“Olho
a mesa de bar
e
vejo
um
copo quase cheio
defronte
a um homem quase vazio.
Ambos
se completam
em
seus meios-termos,
ambos
se inteiram em seu desvario”
Contudo,
não é de poesia que se pinta esta crônica, mas de cor, a cor branca, para ser
exato.
Ocorre
que, pelo convite de inopino do Zé Gomes, não tive tempo de lavar o tênis
Rainha, de lona, que estava feito pele vermelha da poeira de Palmas. Mas, como
se apresentar com o tênis naquele estado? Foi aí que, ao entrar no banheiro da
suíte, a luz se fez. Recorri ao tubo de creme dental Colgate que encontrei no
armarinho. Não deu outra. Cobri inteiramente o par de tênis com a “pasta”
Colgate. Para minha surpresa, o arranjo ficou excelente, o tênis,
resplandecente.
Resultado
imediato: muito riso meu e do Zé, com meu tênis branquíssimo, feito sorriso
Colgate.
Hoje,
claro, o tênis já era, o prefeito não tem mais o cargo (continua bom poeta), o
Zé Gomes passou pro andar de cima mas, estranhamente, continua a preencher meu
coração. Aprendi a acreditar no que ele dizia: “não morro nem que me matem”.
Pura verdade.


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