O contista
Na minha infância um garoto começou a frequentar à noite a meninada da vizinhança. Apareceu de repente, dizia que era recente na cidade. É bom esclarecer que naquele tempo no sertão não havia tevê, nem outro entretenimento além de sentar na calçada e ouvir estórias. Ou então brincar de pega, de polícia e bandido, de esconde-esconde. Eram as opções recorrentes.
Eu preferia sentar nas altas calçadas e ouvir estórias dos adultos. Eles contavam as melhores, coisa de experiência acumulada. E a gente só ouvia, porque quem tinha ali raciocínio para elaborar enredo digno de livros consagrados? Ninguém.
Aí é que volta o menino recém-chegado. Enturmou-se logo com a gente porque abriu a possibilidade de ouvirmos estórias contadas por quem tinha nossa idade. Acusando modéstia, ou para não parecer pedante e ser excluído prontamente do grupo, disse que as estórias eram de filmes assistidos na capital de onde viera. Entre nós cinema era sonho distante. Bem, se era repeteco de filmes, ele tinha boa memória. As histórias eram longas e bem recheadas de aventuras. Tudo que a gente curtia. Por isso, ele rápido ganhou importância entre nós. As brincadeiras de toda noite que nos obrigavam depois ao banho para cair na cama foram abolidas. As mães adoraram nossa disciplina desde sua aparição. Todos alinhados na calçada à espera do contista. Assim ele ficou conhecido após poucas estórias. A gente só o via à noite. Era misterioso e demorou a dizer onde morava. As informações sobre ele eram lacunares, não conseguíamos completá-las de modo a checar a veracidade delas. Essa dificuldade justificava-se pelo fato de sermos crianças sem qualquer autonomia para uma investigação profunda. Bastavam suas estórias. Bom dizer, com uma ponta de inveja, que não tinha rival nessa modalidade oral. E até as meninas que passaram a agregar-se ao sarau noturno viam-no com olhos que excediam a admiração de sua habilidade oral.
Aí começou a controvérsia que terminou com uma investigação profunda sobre quem ele era. Dizia que o pai era importante, homem rico, que viera em missão que o deixaria ainda mais rico. E a gente que não sonhava ainda com grana, queria mesmo era ouvir as estórias dos filmes que ele assistia com o dinheiro do pai nos cinemas comendo pipoca. Ah, esse tinha sorte.
Nem tanto, a investigação, embalada pelo ciúme infantil, desmascarou-o. Os pais não eram ricos, nem ele viera de capital alguma. Eram migrantes como muitos de nossos pais chegados antes. E suas alegadas sessões cinematográficas rematadas mentiras. Nunca, como todos nós ali, assistira a um filme.
Isso bastou para ser excluído do convívio da meninada da nossa rua. Mas há uma ressalva. Não lhe neguei a amizade como os outros meninos. E por uma boa razão: se suas estórias não eram relatos de filme, era ainda mais fabuloso. Estava diante de um contista nato. Era tudo invenção sua. Bem, como eu fazia para não ser também escanteado por manter a amizade com ele? Ia secretamente ouvi-lo em casa.



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