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Mostrando postagens de dezembro, 2025

Tudo de novo

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  Tudo de novo. Adeus Ano Velho. Lá no décimo segundo andar do Ano. Quero justamente trazer à memória aquilo que me dá esperança. Afinal, tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida, é esse minuto que está passando. Mesmo que brasileiro deixe tudo para a última hora. Tudo pavê.  Tudo de novo. Em camadas. A mesma canção. O mesmo poema. O mesmo versículo. A mesma citação. A mesma matéria no jornal sobre as filas nos shoppings e supermercados. A mesma piada. Tudo de novo. Mas quando se tem sorte – e você sabe que sorte não é necessariamente sinônimo de coisa boa –, você reencontra as mesmas pessoas, o mesmo cardápio, os mesmos sentimentos, o mesmo lugar, o mesmo tudo. Tudo de novo, tudo novamente, tudo novo de novo. Tudo como deve ser. O eterno retorno:  “Em cada agora, o ser começa; em torno de cada aqui, rola a esfera do ali. O centro está em toda parte. Curvo é o caminho da eternidade.” Tudo é novo. Se a gente esticar a régua, tudo é novo. Tudo de novo para você....

Chegar partir ficar

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Sim, são verbos. Decorei-os na sua conjugação completa. Verbo e tabuada eram tarefas a dar decor. Chego, chegas, chega ... Parto, partes, parte ... Fico, ficas, fica ... Todo mundo achava que os futuros do presente e do passado eram de conjugação mais complexa. Um dia, caí na esparrela de conjugar somar no futuro do passado: somaria . E eu era José, ainda que maricas. Hoje sou maricas, e continuo sendo José. Lembro do mentecapto de Fernando Sabino, numa disputa de conjugação de verbos, quando lhe pedem para conjugar o verbo pelocupar no condicional. Sabido é que o louco é motivo de riso, porque do riso mesmo ele nunca comunga. O louco é muito sério nas suas certezas. Mas não é nada disso que quero constar dos verbos chegar partir ficar . É que verbos em títulos de textos me remetem aos anos iniciais da escolaridade. Eu quero falar de um colibri e de um prendedor-de-roupas e de suas singulares ontologias. Era um meio de tarde no tempo da seca. A janela do quarto dá vista para o var...

Contas a pagar

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  Tem um amigo que me enxergou de tresvez, certa vez. Preciso sentar com ele e mostrar meu lado de menino. Um irmão, certa vez, me tirou seu brilho de herói que eu trazia na minha retina de menino. Preciso ver ele pelos meus olhos de dentro. Meu cunhado, que eu tanto achava homem, se mostrou um menino perdido e eu não tive a bondade de abrir meus olhos infantis e revê-lo. Outro irmão, que eu achava invencível, se mostrou na sua plenitude: um ser humano buscando o seu pertencimento. E eu, embevecido pela beleza do momento que vivia, não lhe dei a mão no momento certo. Um terceiro irmão, que eu sempre considerava um mito, um indestrutível, se revelou demasiado humano. Tento remontar as memórias que dele trago, pra vê-lo amanhã impoluto e digno. Minha irmã, que eu sempre trouxe comigo como uma Eterna meninhinha, plena da força interminável da alegria da perfeita infância, se revelou uma mulher e mãe, absolutas. Resta me curvar, eternamente, a ela. Minha mãe, que me mos...

Velha crônica

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  Passageira assídua dos “Uber” de Palmas, gosto de conversar com os motoristas. Incrível quantos assuntos surgem nessas minhas idas e vindas, nas inúmeras corridas, em que curto as lindas paisagens da nossa querida cidade. Outro dia, o papo descontraído foi sobre o desaparecimento dos jornais da nossa vida moderna. Aí, lembrei-me de uma “velha crônica” que escrevi em 2019, antes da pandemia. Voilà:   “-Ninguém mais lê jornal” Foi assim que Mariana, aquela menininha de 6 anos se expressou, ao escolher adesivos para colar no livro que eu lhe ofertara. Esse livro infantil, intitulado “Sweet Home”, apresenta, em cada página, o interior de uma casa, tipo sobradinho, com cômodos vazios. A diversão das crianças consiste em: - criarem móveis, com ajuda de moldes de plástico, postos à sua disposição. Depois, colocarem sobre eles adesivos especiais, para decorarem os ambientes como desejarem. Por fim, elas têm ainda a possibilidade de colar figurinhas de pessoas, que serão os moradores...

Anatomia de deus

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  Mirei deus nos olhos e lhe disse: os tempos de subserviência acabaram. Ele encarou-me furibundo, e nesse momento expressou numa pergunta o pensamento que com certeza lhe acutilou o íntimo e os brios com força: rendeu-se ao diabo? Estalei sonora gargalhada em sua cara senil com vestígios de Big Bang: acabou sua onisciência?! Ele, surpreso, entre a dúvida e o concupiscente desejo pela alma alheia, gaguejou: queria ouvir de seus lábios, apenas isso. Neguei-lhe o pedido, ressalvando que a emenda ficara pior que o soneto: presunçoso você, bem isso. Mas tanto tempo valendo-se da submissão humana para endeusar-se, entendo sua exacerbação de caráter, mas a reprovo. Sem ligar a mínima para meu juízo, mas abrandando a ira, ele insistiu: Sim ou não? Recusar um, para mim, não é submissão ao outro; tampouco significa qualquer possibilidade de retratação futura... Ele interrompeu-me querendo ser irônico, mas soou infantil e hilário: o futuro a deus pertence. Ri do bordão, desconcertando-o, e c...