A onça cantora

 


Há casos que um cronista jamais deveria contar — por mais interessantes que sejam — para evitar risco de ser confundido com caçador ou pescador. Por achar que há mais absurdo na vida do que numa história — entre tantas que acontecem ou são inventadas —,  não vou deixar de contar a que ouvi na fazenda em conversa de peão.

Manoel entretinha com seu fabulário — no intervalo do almoço — os oito homens que roçavam pasto. Boquiabertos, deixavam-se levar pela vivacidade do vaqueiro quando ele resolveu então forçar a credulidade dos peões com a história da onça cantora. “Cantora?”, surpreendeu-se um. “Cantora, sim”, reafirmou Manoel. O homem calou-se, mas olhou para os companheiros em busca de aprovação para a suspeita de que ouviriam uma mentira. Um velho de pele curtida piscou um olho para acalmar o incrédulo e permitir Manoel ir avante.


E ele não esperou: “Numa noite de puro breu eu, o Anacleto e o Zózimo fomos caçar uma onça faminta que andava comendo bezerros na fazenda. Praticante de um sestro ruim, a bicha atacava nos pastos do fundo da casa, onde vocês estão roçando agora. Para a espera eu levava a espingarda, o Anacleto levava a lanterna e a isca para atrair a onça — um bezerro no laço — e o Zózimo seguia-nos de intrometido, calçado em sua chinela de dedo, ouvindo o radinho de pilha que não tirava do ouvido.


No local onde ela mais atacava, amarramos o bezerro em um tronco de faveira e fomos esperar empoleirados na própria árvore que era muito grande. O bezerro berrava constantemente, e isso era positivo para atrair a fera. E nem precisou muito para ela aparecer. Veio pisando macio sobre o braquiarão. Eu e o Anacleto, ouvidos treinados de muitas caçadas, não nos enganamos: era a própria que vinha em busca do alimento fácil. O Zózimo, o desleixo em pessoa, continuava com o radinho pregado ao ouvido, encantando-se com as músicas românticas despreocupadamente, ouvidas baixinho. A um sinal meu, Anacleto alumiou a cara da bicha quando ela já armava o bote pra cima do bezerro. Mirei para atirar na testa dela. Foi então que o Zózimo despregou do pau e caiu quase debaixo dos queixos da maldita. Ela esqueceu o bezerro e partiu pra cima do coitado. Atarantado, ele abriu um berreiro e jogou contra a onça a única arma que tinha em mãos: o radinho, que, ainda na queda, elevara o volume ao último tom. Acertou bem dentro da boca da bicha. Ela o engoliu e, espantada com a zoada da música, sumiu no mato. Descemos da faveira e fomos acudir o Zózimo.


Foi aí que começou a correr a fama da onça cantora.


Nas redondezas, por onde a gente andava, havia notícia dela. Uns diziam que ela executava programação para todos os gostos. A música popular ela tocava mais pela manhã; à tarde, agradava quem era fã da música brega; e à noite encantava os corações apaixonados com muito romantismo. Outros, que ela dizia com acerto o resultado das partidas do campeonato de futebol.


Não é de ver que ela virou o xodó do povo do sertão? Ai de quem falasse de caçar animal tão versátil. Bem, até que caçavam, mas só até encontrá-la. Depois se punham escondidos detrás de tocos ou mesmo trepados nas árvores para curtir os últimos lançamentos da música na capital. Sabedores de que a onça também falava desembestadamente, pois depois de tocar uma música dizia o nome do sucesso e o do cantor. Quem ia à cidade combinava de mandar recados por ela, procurava a emissora de sintonia da onça e, puf!, mandava a mensagem. Tinha-se então que na hora certa procurar a bicha pelo mato. E não era difícil pois com tanta zoada bem de longe já se ouvia o falatório. Tudo aquilo era divertido, porque ouvir pela onça era mais estimulante e inacreditável que ouvir no radinho em casa. Se fosse nesses tempos de hoje, com facilidade de filmagem pelo celular e publicação nas redes sociais, era garantido que a onça viralizaria mundialmente. No período eleitoral, durante a propaganda política obrigatória foi quando ela conheceu mais descanso. Ninguém a incomodava, e quando perguntavam sobre as propostas dos candidatos a resposta do povo estava na ponta da língua: ‘quem vai dar ouvidos a conversa de onça?’ Mas isso foi por pouco tempo, logo a perseguição passou novamente a ser em tempo integral.


Por cumprir função de comunicadora social, um vereador do município onde ela falava e cantava quis conceder-lhe o título honorário de cidadão ou cidadã. Não houve espanto nem discórdia entre seus pares na Câmara, apenas inveja pela brilhante ideia. Mas o título não foi concedido pela impossibilidade de determinar — mesmo com muita investigação — se o animal era macho ou fêmea, para a distinção ser exata.


E nesse vaivém, a onça continuou expandindo — contra a própria vontade, supõe-se — sua prestação de serviços. No sertão é complicado levar um padre para rezar missa pela distância da cidade e porque estradas ruins dificultam a entrada de carro, por isso e também porque desejavam comprovar o milagre da fé de uma missa rezada pela onça, ou quase,
 muitas pessoas perguntaram a Adamastor — uma espécie de pajem da onça — se ela rezava missa também. Abriram um largo sorriso de contentamento com a resposta afirmativa. Ansiaram o milagre da fé já no primeiro domingo. A romaria de gente pelo mato em busca da onça pra acompanhar a missa foi grande. O bicho, acuado por tanta gente e alguns cachorros, empoleirou-se num pau alto e ali ficou. O povo contentou-se em ficar debaixo acompanhando todos os rituais da missa.  E como ninguém se contenta com pouco, logo havia gente querendo que a onça batizasse crianças e casasse os amancebados na primeira oportunidade. Foi uma luta convencer que ela não executava tais coisas.


Mas a vida de onça é dura, essa que o diga!  Por dois motivos ela começou a definhar: quando se aproximava de uma presa para se alimentar, ela fugia alertada pelo som do rádio; e o povo não a deixava em paz — dia e noite estava em seu aceiro em busca do exotismo de que nunca se cansava.


Não deu outra. Um belo dia a onça foi encontrada morta. A comoção, tá na cara, foi grande. De tudo que é distância apareceu gente para ver a famigerada onça cantora. Levada para o pátio da fazenda onde comia bezerros, o João Açougueiro resolveu autopsiá-la em busca do surpreendente rádio que falou por mais de seis meses ininterruptamente. E então a
  surpresa foi maior ainda: no bucho da coitada fazia tempo que não mais existia rádio algum. 




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