Do amor e suas demências

 

Ilustração de Lia Testa Colagista para crônica de Luiza Silva


             Nós, às vezes, nos embrenhamos de tal forma nas recordações do passado, que o já acontecido se levanta das vias da memória e se corporifica no presente.

Conceição Evaristo, Canção para ninar menino grande.

 

A leitura de Conceição Evaristo e a história de Fio Jasmim a levam à urgência da escrita, não aquela pretendida, que deveria registrar, enfim, em termos teóricos, incidindo na descrição da forma da escrevivência, mas uma outra, a subjetiva, ainda sem forma, pela insaciável presença da memória que irrompe sob a provocação do encontro com a narrativa poética. E então.

Lembrou-se do tempo em que tinha o sujeito – que considerava amar – como o grande interlocutor. A esse pobre sujeito eleito, à revelia de suas desconhecidas vontades, destinava tudo que escrevia. E pensava. Era para ela uma espécie de amigo imaginário, inventado certamente pela incapacidade de resistir na solidão. Em vez de andar só, convocava sua presença. Falava com ele mesmo ausente. O monólogo interior era uma tagarelice muito bem acompanhada. Esse caso talvez até interessasse aos estudos de Benveniste em torno da enunciação. Com ele compartilhava prazeres dos dias, como as leituras que fazia, estudos, até outros amores, aqueles desimportantes, passageiros. Levava-o à praia. Balançavam juntos na mesma rede. Adormeciam vendo juntos o mesmo filme.

Assim passara muitos e muitos anos, até que acabou. Precisou reconfigurar-se, o que não foi feito sem grande esforço e muita insistência. Não queimou fotos, porque sabe-se lá um dia lhe fariam alguma falta, mas as olhara tanto ao longo dos tantos anos que estavam mais impressas na mente que no papel fotográfico. Não havia cartas para queimar, mas deletou e-mails, bloqueou telefone que, enfim, perdeu-se na troca de aparelho. O cidadão vendeu casa, mudou-se, sumiu na metrópole. Ela o imagina ainda frequentando a mesma livraria, comendo a tarte Tatan, tomando o mesmo café, mas isso são conjecturas. E mais não pensava. Ou quase.

Mas a memória intrometida é sempre um problema. Lembrou-se de quando um certo príncipe, depois de muitos anos, assumira a amada da juventude. Tanto o príncipe quanto a amada estavam um tanto envelhecidos e feios. Mais moço, ele nem parecia tão orelhudo, os olhos tão juntos ao nariz aquilino. Nunca fora, afinal, príncipe de contos de fadas. Mas tanto o príncipe quanto a amante puderam, por fim, realizar o grande sonho, adiado pelas demandas da corte, acordos, interferências políticas etc. Casaram-se depois de 20, 30, 40 anos?

Foi quando a notícia chegou ao Tocantins, correndo rápida desde o Atlântico Norte, que ela se assanhou. Havia esperanças de união feliz, depois de tanto tempo, para os casos mais improváveis. Escrevera, então, imediatamente ao amado, distraído com maçonaria e política e sem a mínima vontade de viver no Tocantins profundo. Ela tinha esperanças.

Os membros da realeza foram, afinal, felizes? Ainda são? A cumplicidade permanece diante dos desafios do cotidiano, das obrigações reais? É obrigatório que as mulheres da corte usem escarpins? Os pés não doem? Não se entortaram com tanto salto? Quantos chapéus ela tem?

A vida da realeza interessa, afinal, muito pouco. Importava saber que amor tão interditado pudesse ter sobrevivido ao tempo e, enfim, alcançado a forma como convém: viver junto, andar de mãos dadas, misturar-se como todo mundo no mundo. Os paparazzi perderam interesse: que graça há em falar de amor oficializado?  O assunto ficou velho demais. Como os dois.

Ela, porém, ainda se interessa pelo acontecimento real, haja vista a aparição trazida pela memória. Apesar dos muitos anos de grande silêncio. De tudo que foi destruído. De qualquer modo, ela não usará jamais escarpins. O coração pode até ainda ter salvação, mas os pés... E o futuro...


Luiza Silva

Lia Testa



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