se eu quiser brincar com deus

 

ilustracao de ciro para cronica de tacio pimenta para o cronistas do sol

não tenho medo de brincar com a palavra deus. escrevo-a singular e plural, masculina e feminina, maiúscula, minúscula, de trás para frente, sem pudor ou culpa. acho um pecado ter medo de deus.


o assunto é delicado para alguns, talvez por falta de intimidade. gosto de imaginar a palavra deus dentro da palavra dor, tanto quanto na palavra gozo. gosto de ver deus no suíngue de chuck berry, no futebol de zico, na voz de clementina, na tristeza de torquato.


não dizer o nome dele em vão? ora, quantas vezes repeti a palavra mãe, a ponto de minha santa mainha enjoar, pedir para que só por um dia eu a chamasse de tia, para dar um pouco de sossego aos seus ouvidos. me diga, alguma dessas vezes que a chamei foi em vão? era ela meu contato mais direto com a vida. a palavra deus está contida na palavra mãe, assim como a palavra mãe costuma estar contida na palavra tia. e por aí vai.


muito já ouvi dizer que com deus não se brinca e nada me causa mais estranhamento. lembro-me, bate-pronto, de um quadrinho de 2011 do carlos ruas, onde ele retrata o ‘todo-poderoso’, triste e só, sentado em uma gangorra sem ninguém para o gangorrear. putz, é de dar dó! acho de primeira importância que se brinque com deus, como brinquei com meu pai um dia, e com minha irmã, e com uma bicicleta. foi assim que aprendi a confiar e ter afeto, mesmo nas brigas e nas quedas. defendo que com deus também se briga, pois assim costumam terminar as melhores brincadeiras. brigar e brincar amadurecem qualquer relação, humana, sagrada ou léxica.


voltando às palavras, deus é uma das minhas prediletas. tão curtinha e com tantas outras palavras em seu interior. sinto-me impelido a perscrutá-la com bisturi de poeta, testá-la em diferentes contextos. deus dançando. deus comendo caruru com as mãos. deus andando de patinete. deus me observando caminhar através de uma lupa. deus chorando. deus sentindo-se impotente. quem nunca? é uma inquietude crônica que volta e meia vira um verso, e vice-versa.

“no princípio era o verbo (...) e o verbo se fez carne”: eis um trecho que me intriga. meu desconhecimento teológico é vasto, assumo, mas a imaginação que cultivo leva deus a habitar primeiramente a linguagem, fazer parte do nome das coisas, para logo em seguida integrar-se à matéria de tudo que existe. livre interpretação? certamente. mas te prometo que não sou o primeiro a fazer isso, muito menos o faço para tirar algum proveito..


palavras e deuses são para serem chamados à exaustão, para isso existem e isso os fortalece. afinal, vocalizar e escrever, de alguma forma é tentar compreender. ser curioso sobre algo, buscar o entendimento e aprender o manuseio, pode ser mais respeitoso e honesto do que o temor ou a reverência. aliás, muito me intrigam os religiosos que preferem falar de demônios e seus supostos ardis. “quem de tudo desconfia, de si mesmo dá pistas”. enxergam em tudo a sombra do mal, da mesma maneira que me atrevo a ver deus em uma nuvem, numa poça d’água ou no divino cangote da mulher companheira. aliás, devo dizer para que não me confundam, também nada contra a palavra diabo. quanta beleza é capaz de nascer dos contrastes! mas isso fica para outra prosa. adeus!






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