Internet + fake news = risos
Outro dia, zapeando no mar da intranquilidade que é a internet, redes sociais, mais precisamente, me deparo com esse anúncio: “Vaga disponível – Provador de urna funerária – Descrição: Testar modelos de caixão em desenvolvimento; Contribuir com feedbacks; Trabalhar em parceria com o setor de produção. Requisitos: Disponibilidade de horários; Está vivo – assim mesmo, matando a já semimorta e semiviva Língua Portuguesa – Boa comunicação para relatar observações técnicas; Nunca ter morrido. Faixa salarial: R$ 2.400 a R$ 3.800 – assim mesmo, afinal, o português já morreu faz tempo nas telinhas – Envie seu currículo”.
A seguir, o texto da justificativa da vaga: “Em tempos onde o mercado exige inovação, comprometimento e, acima de tudo, coragem, surge uma vaga que eleva o conceito de ‘entregar o corpo ao trabalho’ a um novo patamar. Estamos recrutando profissionais dedicados para atuar na criteriosa função de testador de urnas funerárias. Uma atividade que dispensa retrabalho, feedbacks negativos e, principalmente, pressões do dia a dia — afinal, o ambiente é, no mínimo, tranquilo. Buscamos candidatos com perfil discreto, excelente capacidade de permanecer imóvel sob pressão e comprometimento absoluto com a função… em todos os sentidos possíveis. Se você conhece alguém que nasceu para essa missão (ou que sempre disse que queria ‘descansar em paz’), esta é a chance perfeita. Marque aquele amigo ou compartilhe com quem definitivamente levaria o trabalho até o fim”.
Pronto! Minha crônica do mês estava à mão. Não precisamente pelo texto do anúncio, mas pelos comentários. Ah! Os comentários… Prato cheio para um catador de coisas ao rés do chão. Senão, vejamos: “A gente brinca e tudo. Mas quando minha mãezinha morreu tive que entrar no caixão pra ver se ela ia caber direitinho nele. Ajudei o pessoal da funerária arrumar ela minha vozinha e meus tios. Vo falar uma coisa cm vcs é uma sensação única”, teclou a filha modelo, assim como fez a próxima comentarista: “minha mãe tbm quando morreu tive que entrar em um pra ver se daria na minha mãe”.
O internauta exigente já colocou dificuldades: “iria concorrer a vaga, mas com um doutorado desse, prefiro nem tentar”, disparou. E a filósofa das telinhas tascou: “com certeza e uma sensação única que ninguém deseja kkkkkk”, rindo litros. O que foi prontamente seguida por outra navegante das nuvens: “única e última”. E também mais uma outra, discípula de São Tomé, atacou: “nossa serio isso”, aqui, a última flor do Lácio continuava morrendo – se já não estava morta.
Um outro internauta foi respeitoso e disse: “Meus sentimentos por suas perdas, mas...me perdoa, tô rindo horrores aqui imaginando a cena: Esse não, tá apertado demais, Ah...agora sim! Esse ela vai gostar." Desculpa… rindo com muito respeito! Mas rindo horrores”. E a dona de casa que já não aguenta mais a rotina, perguntou: “Onde envio meu currículo? Tenho dois filhos tbm, caso seja do interesse de vcs, testarem urnas menores, eles tbm poderiam trabalhar no contra turno da escola”, já tentando encaixar os filhotes no emprego dos sonhos. O que foi seguida por outra senhora dos afazeres domésticos: “Eu sou mãe gente! Qualquer oportunidade de deitar, eu tô é indo! E, ainda pagando esse 3 k”, arrematou.
E um zapeador já foi lembrando do bardo cearense Belchior (1946-2017), disparando: “Não poderei me candidatar, pois ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”. O que foi seguido prontamente por outro felino fã do cantor: “Só nos últimos 5 meses, eu já morri umas 4x, ainda me restam 3 vidas pra gastar. Posso mandar. Currículo? Me junto a eles, eu também já morri tantos anos, mas esse ano eu não morro, me agarrando no dizer de Euclides da Cunha (1866-1909), quando disse: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”, endosso e generalizo: o brasileiro é, antes de tudo, um forte.
Mas sempre tem o pragmático: “Por 3.800 posso até fazer simulação de enterro kkkk”, e o sempre disposto: “Por 3k eu até levo minha família pra chorar no meu caixão”. Um outro foi logo destacando sua imortalidade para se qualificar para a vaga: “Finalmente uma vaga que eu tenho experiência: nunca ter morrido”, declarou, mas não de pés juntos.
E aquela que antes de ser internauta já navegava nas viagens espirituais, new age, leituras de Don Juan, Paulo Coelho e outros gurus, já foi logo filosofando: “Experiência de quase morte configura já ter morrido? Seria interessante esclarecer, pois tenho interesse na vaga, mas como já tive essa experiência anterior, assim como a de viagem astral, não sei se estou apta para o serviço”. E a católica apostólica romana – se já não virou evangélica – também deu sua contribuição: “Pra você que bebe, fuma tá sem tempo para aceitar Jesus, nada mais nada menos que provar seu caixão, se prepare para morrer e escolha sua melhor opção de conforto do sono eterno. Seria assim minha divulgação”.
E o trabalhador brasileiro, que luta pelo fim da escala 6x1, também se manifestou: “Se for aos sábados eu quero. Já chego morto do trabalho na sexta-feira mrm. Só me jogar já era”, afirmou. Seguido por outra brasileira que não desiste nunca: “Meu trabalho dos sonhos! Todo dia saio para trabalhar na minha escala 6x1 morta de cansaço, se tiver vaga em SP tô dentro! Mando CV para onde?”, perguntou. Enquanto o estudante de teatro já foi logo performando: “Com esse salário aí todo dia vou entrar em um personagem diferente só pra todo dia ter um enterro novo”, imaginando a cena perfeita com louvor.
O filho de Morfeu – ou outro fã do fim da escala 6x1 foi logo deixando a sua preocupação: “Me tira uma dúvida? Dormir, vai significar que o caixão é confortável? Provavelmente pode acontecer comigo”, questionou. E o discípulo de Alan Kardec foi profundo: “No mundo espiritual nunca morremos. Então quem tem interesse, está apto?” E a técnica de preservação e preparação do corpo humano após a morte, emendou: “Eu aceitaria mais sem tanatos sou formada em tanatopraxia”, ou seja, morrer? Never!
Um pré-candidato já foi logo colocando as suas credenciais: “Eu trabalhava no necrotério e as urnas chiques que chegava eu entrava pra vê se era acolchoado kkkkkkk”, com muita gaiataria, claro! E o Kid Bengala da net foi logo avisando: “O meu não vai dar, meu pau não cabe no caixão”. E o nerd da vez foi logo emendando: “Qual o e-mail para enviar o currículo? Já preparei o currículo em PDF, docx, odt, markdown e HTML. Para garantir que será lido em qualquer aparelho eletrônico”, visando garantir sua vaga, seja em qual plataforma for. E do sudeste, um internauta questionou o algoritmo na rede: “Por que isso apareceu pra mim? Eu moro em SP, gente, que sacanagem. Dá pra trabalhar home office?!”
A turma da classe trabalhadora brasileira também se apresentou: “Um monte de gente querendo a vaga! Depois dizem que o brasileiro não quer trabalhar!”, disparou um deles. “Será que tem adicional de periculosidade?”, indagou um outro. “Se eu morrer no processo sou demitida por justa causa?”, emendou outra ferrenha defensora da classe.
Quanto aos trâmites e exigências da vaga, um internauta foi taxativo: “Algum ‘usuário’ já voltou pra reclamar da baixa qualidade dos produtos de modo a ensejar esse controle rígido de qualidade de produtos ou vocês possuem um 0800 no qual recebem as reclamações via call death?”, disparou.
Um outro foi, no mínimo, engraçadinho: “O currículo tem que ser enviado por e-mail ou deixo em cima da lápide mais próxima?”. E um terceiro foi na onda: “Uma pergunta: como assim contribuir com os feedbacks? Algum morto já reclamou?”.
Nos finalmentes, um outro zapeador foi incisivo e questionou o perfil do anúncio: “Que troço mais bizarro. Eu achei que o perfil fosse sério”. Ao que o responsável pelo mesmo foi 100% merchan: “Nosso perfil é sério, porém isso não significa que não podemos brincar com os nossos seguidores”, guardou. Por fim, outro pragmático e cético – como tantos navegantes, já cansado de tanta fake news, foi certeiro – ou quase: “É verdade esse bilhete?”



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