São João do Carneirinho

ilustração de ciro para cronica de zeca tocantins

As bandeirolas coloridas estendidas em cordão marcavam o território nos terreiros sagrados do nordeste brasileiro. O mês de junho era reservado a estes encontros onde vários sanfoneiros se revezavam na alegria da festa. Aquele momento também era de agradecimento por tudo que o sertanejo conseguira produzir em sua lavoura. Uma festa farta de alegria e também de comidas que foram caindo na graça do paladar daquele povo.

A indústria do consumo que só pensa em dinheiro, viu aquele nicho como um espaço que podia gerar milhões, e sem nenhuma cerimônia foi invadindo a festa, transformando aquela convivência amigável, onde quase todo mundo se conhecia, num espaço voltado para o consumo, acabou-se a brincadeira. Os promotores, os gestores, começaram a fazer as contas e viram que realmente aquilo podia virar ouro. O mercado, que sempre entendeu de negociações e de prestações de contas, passou a dar ordens no terreiro. Estabeleceu regras e direcionamento dos recursos, sendo que boa parte deles vinham das Leis de Incentivo à Cultura, recursos que deveriam estimular os verdadeiros fazedores culturais.

Primeira decisão foi trocar aquelas pessoas simples por quem tivesse dinheiro, encontraram a solução trocando as atrações. Foi assim que os sanfoneiros, que tanta alegria tinham dado àqueles terreiros, foram sendo refugados. Mas a indústria acertou em cheio, estes espaços foram ampliados e a multidão extasiada nem percebeu a transformação. E os milhões prometidos milagrosamente começaram a aparecer em cidades que mesmo vendidas todinha não valiam aquele montante. Pior, depois destes acontecimentos milionários elas, as cidades, conseguiam ficar ainda mais pobres.

Esse ano um grito de guerra ecoou por todo nordeste, grandes nomes de nossa música ergueram sua voz em defesa do verdadeiro São João. A descaracterização comercial esmagou os valores autênticos, aqueles que traduzem conhecimento, que desperta na gente o gosto pela boa música. Ferindo de morte o verdadeiro São João:  estudos afirmam que essa música tão apreciada pela indústria de consumo, tem sido responsável pelo avanço de feminicídios e pelo consumo excessivo de álcool, herança destas festas milionárias.

O estrago está feito e tenho dúvidas se há interesse de ser corrigido, tem muita gente se beneficiando. O mercado tem o seu poder, não é o grito destes sanfoneiros que vai inibir tanto interesses escusos. Mas vale o grito, pelo menos para dizer que continuamos vivos ou simplesmente para exercitar nosso senso crítico que anda meio enferrujado. 

Desculpem, ia encerrar o texto sem reconhecer que onde há pressão eles inserem alguma atividade local, quase sempre no começo quando não tem ninguém. Assim justificam o dinheiro recebido das "Leis" de Cultura e mostram o vazio das apresentações locais, tudo de maneira muito profissional.

Zeca Tocantins

Ciro Gonçalves quadrinista ilustre ilustrador e poeta


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