Nazareth, Amarula and Cigarretes
para Dan McCafferty (1946-2022), Roger Waters (1943-), e Walter Augusto Fernandes (1966-)
A voz cavernosa do vocalista Dan McCafferty, do setentista/oitentista e escapista Nazareth, adensava seus pensamentos cinquentaneanos. Sempre gostara de vozes masculinas quando o assunto era música. E, mais que masculinas, graves. No grave, pensava, estava suspensa a harmonia do mundo. Só a gravidade vocal para tentar por ordem no caos da existência. À puta que pariu essa historinha de que homem usa a voz grave para intimidar os concorrentes, na antiguíssima carreira dos espermatozóides rumo aos óvulos. À merda com esses chavões e clichês de consultórios psicológicos politicamente corretos desse século de medrosos, caretas e imbecis. Mas, calma, feministas do mundo todo! Vozeirões femininos e gravíssimos como os de Janis Joplin, Maria Bethânia, Angela Ro Ro, e Cássia Eller, têm lugar nesse time.
O agudo, acreditava, era a porta de fuga dos efeminados, covardes e medrosos. Quando não, demonstração de desespero em causa própria. Dos fudidos do mundo todo. Atente-se! Por isso, tanto agudo nas ondas do rádio, TVs, e outras plataformas modernas musicais. Bando de serzinhos medrosos. Acusava. Porque, para ele, o agudo, é tentativa de chamar atenção dos outros para si, enquanto que o grave é simplesmente o contrário.
Claro que um solo – aquele solo – de guitarra é imprescindível numa grande canção. Mas, e a mesma música sem o baixo? Lembrou-se da adolescência, quando empostava a voz para seduzir a garota. Sim, na empostação, suspendia o mundo. Seu corpo, seu machismo, sua afirmação masculina estavam plenas de garantia. Além do frágil, acima de quaisquer desconsertos que naquele instante o mundo poderia oferecer.
O baixo, o grave, numa banda, serve para ser guia de todos os outros instrumentos, feito um pastor que carrega suas ovelhas seguras, ao longo das adversidades da jornada. O som do baixo é como que uma cama, uma camada onde os outros instrumentos podem se acomodar e seguir. Preferia sempre o grave nas coisas, porque intuía que quando o caos, próximo, chegasse, não haveriam ouvidos para tantos agudos.
Sempre soube que o silêncio era mais poderoso que o barulho. Que toda agonia e tragédia são precedidas, não de muito barulho – isso pode vir depois – mas de muita quietude, um estranho e indefinível silêncio. Antes do caos, a calma.
E agora entendia porque tanto agudo, tanto barulho no mundo. As pessoas têm necessidade de muito barulho para que possam esconder e esconder-se de suas frustrações diárias, dos seus desapontamentos, das suas derrotas desde o que o mundo ensinou-lhes, erradamente, que tudo é batalha, é disputa, é combate.
Soube que o silêncio era poderoso ao conhecer, na adolescência, um estranho. Um sujeito de poucas e medidas palavras, mas que, no seu silêncio, precedido do olhar observador e denunciante, podia dizer muito mais do que tantas palavras juntas. A partir dali, começou a prestar mais atenção ao silêncio e a medir as pessoas pelo seu falatório ou a ausência deste. Era como perceber que ninguém tem o direito de colonizar o outro, seja em que situação for. Que cada um tem o sacrossanto direito de errar e errar e errar. É isto a vida, não?
Junto, naquele mesmo tempo, aprendeu – mas às vezes desesqueceu – que devemos sempre desconfiar daquela pessoa que nos chega pela primeira vez escancarando os dentes. Esse tipo de pessoa não é confiável, porque precisa do aval do outro para se aprovar e se sentir pertencido. Diferente do calado. Este chega sabendo de si, não precisa do adendo de ninguém para se pertencer. E poucos o entendem e o aceitam. A maioria, claro, arreganha os dentes para aquele primeiro, que irá lhe sugar todo o sangue e vida possíveis. Mas isso é uma outra história. Estamos falando de grave.
Grave é, antes de mais nada, o barulho que precede tudo. O som que precedeu a criação do universo. É escutar-se a si mesmo até quando tudo é barulho e desorientação. Mas, quem é mesmo que está disposto a ver o que há no fundo do poço? Quem tem culhões para ver e encarar seu lado negro? Mas estou divagando demais e fugindo do tema. A Amarula, bebida, é um licor da África do Sul preparado com creme de leite e suco do fruto da árvore maruleira (Sclerocarya birrea). Seu teor alcoólico é de 17%. Até para me drogar sou grave, ou seja, de pouca consistência etílica e longa e prazeirosa degustação. Sou daqueles que prefere beber a bebida do que ser bebido por ela. Bebedores entenderão.
Cigarros. Também sou grave nesta questão. Não trago, apenas quando bebo. A fumaça é como a vida, uma grande ilusão, estamos aqui agora. Amanhã, quem sabe, fumaça ao vento. Mas se o faço é para não sair atirando em políticos corruptos, brigando com meio mundo, chamando pelo nome cada abestalhado que se põe diante de mim. Fumar, é meio que como o grave, suspende tua ira, tua agonia e teu desespero e te devolve pro teu lugar, de onde nunca deves sair.
Porque a vida é esse fole louco e incansável, ora, pra dentro, ora pra fora, ora tristeza demais, ora alegria incontida. Feito o grave e o agudo. Feito Nazareth, Amarula and cigarretes.



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