O faquir
Vendo outro dia num site a foto do grosso da minha turma - formada um semestre antes de mim no curso de Jornalismo em Goiânia -, percebi que ninguém usava beca. Não questionarei se era desapego ou rebeldia à tradição. Vivíamos dias duros da ditadura que esboroava e se fosse um protesto estava justificado. Além do mais sei que jornalista é assim mesmo: muitas ideias na cabeça e uma disposição para contrariar as formalidades e as tradições.
Mas comigo se deu o contrário: eu e os outros retardatários formamos de beca. A retrógrada beca, que me causou muitos transtornos. Quando penso nela o que imediatamente me vem à mente é uma tremenda fome. Isso mesmo! O que tem uma coisa a ver com a outra? talvez todos perguntem. Calma que já explico. E me entenderão.
Para me formar, tive que fazer curso para faquir. Isso, faquir. Aqueles ascetas indianos, magrinhos, que suportam sacrifícios sobre-humanos. Já trabalhava, tinha até um troco no banco, mas, mais por desleixo que qualquer outra coisa, procurei o caminho mais prático – pelo menos na aparência.
Morava na rua 4, setor Oeste, nos fundos da casa de um tio meu, que alugava lá uma pequena casa (muitos viveram esta realidade de estudantes do interior). Uma filha dele havia formado naqueles dias, ainda estava com a beca alugada em casa. Corri lá, era uma mão na roda. Meio sem jeito, depois de constatar que beca é tudo igual, falei com ela. E ela, prontamente consentiu no empréstimo. Peguei a bichinha meio descorada: no início da carreira tinha sido preta, mas o uso impiedoso deixara-a com uma cor indistinta entre preto e cinza. Pode isso? Pode sim.
Levei para casa e corri para experimentar a bendita. Decepção: a prima era mais magra que eu. Se para ela ficara justa, em mim os colchetes não abotoavam. Desespero: e agora? Não sabia onde alugar uma. E se alugasse, ajustes teriam que ser feitos. Imaginei um mundo de complicação. Mais uma vez optei pelo caminho que achei melhor – mas que era o mais complicado: fazer regime!
Fui no calendário e olhei a data: faltava menos de uma semana para a formatura. Daria conta sim. Sempre fora obstinado, conseguiria perder uns quilinhos e abotoar a beca. Afinal, faltava pouco! E vamos lá! Regime acelerado, a pão e água. Dizer isso é até um luxo: não houve pão, somente água. Verdade! Nenhum alimento sólido, somente líquido! Ao final de cada dia, me metia na beca para um teste e os ajustes no cardápio. Mas que cardápio? Era somente água. Ajustes na quantidade então. Menos água se o peso teimasse em não cair.
Comecei a sonhar com comida. Carnes em churrascaria, banquetes e toda espécie de pecado próprio dos glutões.
Mas resisti. Já disse que sou obstinado.
No dia da formatura era o tudo ou nada. O teste final!
Para minha sorte, cabia dentro da beca. Mas não pensem que a tortura havia chegado ao fim. Ficara apertadinha, os colchetes em luta renhida. Percebi logo que a respiração tinha que ser controlada rigorosamente. Aos pouquinhos: uma tortura. Os colchetes podiam arrebentar se houvesse grandes haustos de ar. Outra coisa que percebi ainda na frente do espelho quando tentei pentear os cabelos: estava literalmente imobilizado dentro de uma armadura. Precisei de ajuda
Que suplício!
Mas me resignei: não havia como retroceder. Na Faculdade de Educação, local da formatura, caminhei até a frente para receber o canudo como um autômato diante da plateia intrigada. Braços esticados pra baixo, passos medidos, respiração num suspiro. A única coisa que abundava àquela altura era a vergonha de ver todo mundo com os olhos cravados em mim. Não me coube de alegria ao receber o canudo. Tanta alegria, não pelo diploma que era uma conquista passo a passo, mas por ter conseguido caber na beca e resistir. Isso me levou a uma incontrolada vibração. Pulei e gritei, levantando o canudo: consegui! O auditório me aplaudiu pensando que comemorava a formatura.



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