Dark a 99%

Ilustração de Álvaro Maia para crônica de Osmar Casagrande

Neste meado de maio que antecede as eleições presidenciais no Brasil, meus olhos incréus das soluções simplistas se entregaram a um sorriso triste, desses sorrisos de quem se sabe órfão da verdade, quando se anunciou, oficialmente, que a familícia está envolvida até o talo com a engrenagem sombria do Vorcaro através do Banco Master. Enfim, meus olhos viram, sob a luz dos holofotes da imprensa, o que já viam desenrolar na treva densa, por trás das cortinas de fumaça.

O filme Dark Horse (significa cavalo azarão, o que ninguém bota fé mas ganha a corrida) nos foi apresentado como um esquema do submundo (sombrio, sombrio) político-delinquente, pensado na medida para arrecadar fundos. Aliás, a grana do Master foi para um fundo chamado Havengate Development Fund LP, um portão do céu implantado lá no Texas do tio Sam, do MAGA e daquele laranjão que o Jair Messias confessou amar.

O mais estranho para quem crê seja suficiente a solução simplista é que a produtora do filme declarou que não recebeu (e depois desmentiu) sequer vintém, centavo ou cent do Master, do Vorcaro ou de qualquer de suas empresas. Mas como é possível se, como corre à larga e em letras garrafais, Mr. Rachadinha já recebeu R$ 61 milhões dos R$ 123 milhões contratados (com cláusula de cala-boca)?

Pois taí a explicação: the fund! Definido o lugar onde afundou o capital, soube-se que o fund aplicou parte da grana na compra de uma casa (coincidentemente, onde se asila Mr. Bananinha, que aparece imbricado, enrodilhado, envolto nas peripécies dos funds) enquanto atores e produtores de Dark Horse se viam sub-traídos (o hífen é intencional, sim) de seus cachês e até mesmo de suas refeições.

E mais se aclara o sórdido esquema sombrio quando a imprensa nos trás o modus operandi do propinoduto com que Vorcaro buscou construir uma rede de proteção para suas atitudes criminosas: mesada para alguns, como o honestíssimo e homem de bens Ciro Nogueira, venda de mansões a um terço do preço de mercado, como aquela “comprada” por Mr. Rachadinha, festas de arromba, da cueca (há quem diga que não teve nada disso de cueca), “venda” de empresas a 20% do preço de mercado e outras tramoias nas quais o crime organizado é perito.

Depois desse primeiro deleite, meus lábios se distenderam em sorriso (um tanto maroto, confesso!) ao ver o Senador-Précandidatoapresidente-Rachadinha mentir, ser desmentido, se desmentir e tornar a mentir, num ato reflexo pavloviano quando a imprensa toca as notas tristes da corrupção familiar. E o sorriso desaguou em gargalhada (sinistra, gente) ao ver que outros membros da ORCRIM vieram a público tentando defender o mentiroso e homem de “bens”, afirmando que não teve nenhum esquema, que a grana não foi para financiar o filme. Pode parecer burrice demais, mas tolice e estupidez não são artigos raros no sombrio mercado da familícia, nem mesmo quando se foca no brilho das joias, diamantes e outros mimos das Arábias.

Antes que se chegue ao THE END, já deu para perceber que o tal Dark Horse acabou por se mostrar um Dark Monster, uma besta-fera de sete vezes sete cabeças, as quais, felizmente, começam a rolar. Em minha visão para além das cortinas, diviso outras cabeças e caras, protagonistas do mesmo drama darkest que movimenta a cena da extrema direita e, a julgar pelo nível de estupidez da trupe (o corretor queria meter “trump”), muitos horrores brotarão das celulares caixinhas de Pandora.

Isso não é clarividência nem premonição, é simples constatação de que o Banco Master é apenas um hub que integra os diversos braços da ORCRIM (braço político, agro, evangélico, empresarial etc.). A coisa bate os 99 tons de cinza, pois começa a passar pela cabeça de muitos que todo esse movimento de capital nada mais é que a construção de um caixa 2 para comprar meio mundo na próxima eleição. Sem novidades, posto que o roubo é o menor dos pecados em certos setores mergulhados nesse grau extremo de  obscuridade.

Aproveito este final para temperar com limão, pimenta e sal esse jiló que se chama produção cultural, enquanto solidarizo com todos os artistas, notadamente os das telinhas e telonas, em sua indignação diante da montanha de R$ 123 milhões “contratados” pelo dark show para realizar um único filme, enquanto nossos caros cineastas ralam exaustivamente para conseguir uma verba dez, quinze, vinte vezes menor, através da lei Rouanet, do Funcines ou de editais para fazer brilhar, nas telas, as luzes da cultura.

Osmar Casagrande

Álvaro Maia


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