Quinas
Desde que me tornei mãe de uma menina, minha percepção do mundo mudou de tamanho, forma e urgência. Ganhei um novo par de olhos e um novo par de pernas. Os dela. E, com isso, ganhei também uma porção de medos que antes nem nome tinham.
Ela ainda era só um respiro curto entre mamadas e chorinhos quando comecei a treinar uma nova habilidade: detectar perigos invisíveis e, conforme ela cresce, me antecipar nas precauções.
Ando tendo muitos déjà-vus.
Quinas de móveis viraram monstros à espreita. Tomadas passaram a ter algo de ameaçador. Tapetes escorregadios, copos de vidro ao alcance das mãos, escadas, janelas... Até o silêncio longo demais já me faz temer. Tudo é motivo de alerta.
Eu até tento ser mais rápida que esses pequenos olhos e pernas ligeiras que querem descobrir tudo de uma vez. Eu me tornei especialista em prever acidentes que nunca aconteceram. E, mesmo assim, agradeço por isso.
Porque ser mãe é, entre tantas coisas, evitar o que ninguém nunca verá.
Queria que meu medo se limitasse às quinas dos móveis e que, para tudo, bastasse uma fita protetora. Mas a angústia já me faz pensar neste mundo (que não foi feito para nós, mulheres).
O que posso fazer além de tudo o que já faço?
Sei que a vida vai correr além das estantes, além da nossa casa, e eu quero minha filha para além da "resistência", desbravando tudo. Tendo a oportunidade de simplesmente viver livremente. É querer muito?


Bela crônica. Com certeza Natália, sua filha estará protegida pelas suas orações e bençãos divinas quando estiver caminhando pelas es-quinas da vida.
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