Mudança

 

Ilustração de Sernio Angelim para os Cronistas do Sol

Mudar-se faz bem, expande o círculo de amizades e a perspectiva visual da cidade. Ocorre o confronto com outros de nós que nos permitem reflexos borrados de nós mesmos, de nossas crenças e gostos pessoais.

Mudei-me a última vez há três anos, para a parte baixa da cidade, que é também a parte fria e nativa, a parte onde tudo começou há mais de um século.

Depois de um ano de residência alguns vizinhos começaram a sinalizar timidamente - a frieza das vizinhanças antigas constituídas -, e a tecer comentários ao pé do ouvido sobre os meus gostos exóticos, de indumentária e musical. Com o decorrer do tempo, rostos sisudos adquiriram ar jovial, ocorreram acenos de mãos, risos intermitentes e, já era tempo!, um convite para uma cerveja.

E lá fomos nós para a primeira resenha de vizinhos  depois de um ano de faces confrontantes de rua, música alta de lá e de cá, com as devidas marcações de gênero e ritmo, e cores e estilos distintos das vestimentas.

Meia-hora de parvoíces de machos e algumas latas de cerveja depois, chegamos à conclusão de que vizinho bom é vizinho do outro lado do muro, da rua e com som baixo. Deixei escapulir minha filiação petista e fui solicitado educadamente para me retirar da casa onde fazíamos a primeira resenha da vizinhança.

Desde então ouço o meu rock em casa, vestido de camiseta preta e certo de que não serei chamado para uma resenha de vizinhos tão cedo. Pelo menos não antes da próxima mudança de bairro.


Francisco Sulo, poeta do Bico do Papagaio, Tocantins
Sernio Angelim



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Senescência

O Evangelho da Paçoca

Carnavais