Dia do Trabalho
Crônica para mim é assim: necessidade de escrever. Às vezes, a ideia vem sei lá de onde, motivada por sei lá o quê, de um acontecimento ou notícia lida rapidamente e eis que vem a urgência: é preciso escrever. E surge tão natural, sem muita preocupação estética, apenas pelo dever dizer, mesmo que esse dever soe banal, gratuito, sem qualquer questão que mude o curso da humanidade. Como a escrita demanda tempo, muitas as ideias morrem. No final do dia, como saber a urgência que motivava a escrita na manhã? Perdeu-se entre as chamadas demandas ditas sérias, aquelas de que se ocupam as pessoas da classe trabalhadora.
Prometi uma crônica para o Dia do Trabalho. Disse que estava preparando, afiando a foice e o martelo. Afiei? Muitas questões a motivaram durante a semana, mas o tempo... Uma coisa é o escritor profissional, que até bate ponto diante do computador ou do papel. O outro é o que escreve quando surge a convergência entre a muita vontade, o tema e, principalmente, o tempo.
O que me ocupou o pensamento diante a promessa de escritura durante a semana? A questão da ideologia. Lembrei-me de Bertold Brecht e de seu poema “Perguntas de um trabalhador que lê”. Seria leitura obrigatória para todo trabalhador, a ser ensinado desde a alfabetização. Nada de vovô viu a uva, viu a Eva ou viu o Ivo. A criança da classe trabalhadora deveria aprender pela leitura da poesia e do mundo, como ensinava Paulo Freire ou Brecht, que é o trabalhador quem constrói a riqueza de um país. Foi o braço dos trabalhadores sob sol inclemente que construiu Brasília, a capital hoje ocupada por deputados que não votaram a favor do fim a escala 6 X 1. Quem elege esses deputados, senão trabalhadores, uma vez que o Brasil é um dos países com a maior concentração de renda, que se traduz na terrível proporção de uns muito poucos com excessivamente muito e a maioria com pouquíssimo e ainda sob ameaça de menos ainda? Mas elegem, por razões várias, os que legislarão contra os interesses da maioria.
O domínio da escrita alfabética é simples. Pode ser com aquelas velhas frases de cartilha decoradas nos tempos da ditadura, ensinando famílias silábicas como a do V. Ivo viu a uva. Quem era Ivo mesmo? Mas a alfabetização política é urgente, contra todos os imperialismos, colonialidades, dominação e exploração. O processo parece ser longo enquanto é muito rápida a adesão a influencers sem formação alguma e a candidatos execráveis que querem tornar o Brasil uma nova colônia e relegar o trabalhador a uma nova espécie de escravo. Como mudar isso?
Que o Dia do Trabalho seja de consciência crítica e política, que se aprende, pela vida e não pela IA ou por influencer, nem pela mídia oportunista e covarde. Pode-se começar com a leitura de um poema de Bertold Brecht. A literatura, afinal, tem o poder de subverter a ordem do mundo. Trabalhadores do mundo, uni-vos! É hora de revolução.

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