Admirável Mundo da Alienação e da Cultura Inútil

 

ilustração de ciro para os cronistas do sol

À deriva, estamos todos, nessa boca modorrenta do Século XXI. Parte, por estar atônita e anestesiada, parte, por estar assustada e desconfiada. O Mal do Século não é a depressão e nem a ansiedade, mas o travamento – psicológico e motricional – a que todos estamos submetidos com tanta informação inútil e sua alta velocidade decorrente dos meios de comunicações atuais.

Amarra o teu arado a um celular… Não ouvimos direito o poeta. Mas, sim, poderíamos começar por esse bichinho. Hoje, praticamente todo mundo está preso nesse pequeno aparelho eletrônico. Nele, estão todos os nossos segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses e anos. Funcional? Sim! Prático? Sim! Disponível? Sim! Mas, o preço é ficar seu escravo 24 horas por dia. 

Veja um exemplo: atualmente os bancos e empresas já não trabalham mais para nós, ao contrário, nós é que trabalhamos para eles, pois, com um celular nas mãos, fazemos diariamente operações que antes eram realizadas pelos mesmos.

Se nos últimos séculos houve um desenvolvimento material extraordinário da tecnologia e da ciência, este não foi acompanhado por uma evolução psíquica e de consciência, evolução essa que é a salvaguarda dos valores éticos de um cidadão. Diante disso, o que vemos é um sofisticado poderio tecnológico dominantemente nas mãos de seres imaturos, vazios, cindidos e prepotentes. Falta-nos maturidade e inteireza.

Mas estou aqui para falar de tanta cultura inútil e alienação resultantes do avanço tecnológico nesse século.  Além de pseudos especialistas – blogueiros, influencers e outros bichos – a internet despeja diariamente milhares de informações e não temos mais filtros para separar o miojo do brilho. Resultado: todos são especialistas em alguma coisa e, no fim, em coisa nenhuma. Nem vou entrar na questão das bolhas existentes nas redes sociais.

Li, numa pesquisa científica outro dia, que o cérebro humano pode armazenar um petabyte de dados. Meu Deus! Primeiro, o que é um petabyte? Vou deixar, é claro, pra você googlar. Segundo, o que faço com tanta informação? Você agora deve estar se indagando também. Eis a encruzilhada fatal do Século XXI.

Se no Século XIX um sentimento de decadência, tédio, desilusão e melancolia, da inutilidade e futilidade da existência afetou profundamente os jovens, e no Século XX a rainha foi a depressão, neste, estamos todos encalacrados e travados. É muita informação travestida de verdade – se bem que em se tratando de verdade, eu deveria escrever uma outra crônica – neste, estamos quase todos travados, seja nos aspectos afetivo e emocional, no profissional, e no espiritual.  

Verdade. Verdade é uma coisa que ainda vai nascer. Porque, como já disse numa crônica anterior, nadar num mar de informação não quer dizer singrar o rio do conhecimento.





Comentários

  1. Ainda bem Ronaldo, que temos esse espaço para nos desintoxicar de tanta coisa inútil. Parabéns pela crônica. Que este mundo novo seja mais admirável de coisas boas e mais cultura.

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