O Sol é o limite
Um dia o conde Wlad soube que, por essas paragens, havia mulheres de sangue tão delicioso que parecia leite e mel. Então ele resolveu ligar para o Epstein para arrumar um lugar aqui em Palmas, uma hospedagem discreta. O homem ligou para o Trump, que ligou para o Temer, então arrumaram o melhor lugar: a velha galeria fantasmagórica Wilson Vaz — melhor lugar impossível para tipos como aquele.
Então ele veio, batendo asas aqui, se escondendo ali, sonhando com o saboroso néctar tocantinense, tonificado com uma porcentagem goiana e maranhense. Se alojou no último piso, onde ninguém ia. O lugar era assustador, até para ele.
As primeiras noites foram insanas. Nem precisava ir muito longe: o Tendencies Bar estava logo ali. Virou freguês. Anos passaram, e ele já chamava todos pelo nome e até já tinha esquecido que era uma criatura da noite, apesar de ainda dar umas chupadas — mas agora era só no pessoal da Vila União, da 112, de Taquaralto e das Aurenys; não pegava mais os brothers do quarteirão.
Em uma daquelas noites de verão — como se toda noite em Palmas não fosse de verão! —, mirando uma mina de Taquari, um baixinho com cara de personagem de conto de fadas se aproximou dele e se sentou ao lado.
— Noite quente, hein?
O silêncio amigável foi a resposta. Mas aí ele indagou:
— Você é das Aurenys?
O baixinho, com cara de escritor gurupiense, respondeu:
— Não, sou daqui de perto. Eu morava em Gurupi e agora moro aqui.
Curioso, o homem olhou com aquele olhar de Gargamel imaginando um Smurf na panela e perguntou:
— O que você fazia lá?
— Eu era escritor lá e ainda sou aqui — respondeu o baixinho com cara de personagem de conto de fadas.
Wlad deixou de olhar para a menina e se voltou para o baixinho.
— Que interessante. Eu gosto de contos, história de assombração...
— Sério? — se animou o baixinho contista. — Então vou lhe convidar para participar do meu grupo de escritores de contos.
— Quanta honra, meu camarada! E como se chama esse grupo? — disse o homem empolgado.
— Cronistas do Sol — respondeu, com muito entusiasmo, o baixinho com cara de personagem de conto de fadas.
— Nome forte, quem diria, hein? Pois eu aceito!
— Ótimo! Vou pedir para o nosso melhor ilustrador lhe acompanhar com uma ilustração para o seu primeiro conto. O Ciro!
— Sério? Ele é das Aurenys? De onde?
— Do Norte, ali, tipo Vila União!
— Hum, interessante… — disse o homem, passando a ponta da língua numa presa.
A aurora já dava sinais quando o homem resolveu que tinha que ir embora, mas prometeu trabalhar no seu primeiro conto para o grupo. Antes de sair, perguntou:
— Como é mesmo seu nome?
— Ah, que coisa, não falei! Me chamo Ronaldo Teixeira!
E o homem se perdeu na penumbra da aurora.
Com o passar dos dias, ele se dedicou ao seu primeiro conto. Escreveu. Imergiu tão fundo que esqueceu a própria identidade. Esqueceu que era criatura da noite. Esqueceu o instinto. Esqueceu o perigo.
Quando terminou, ficou tão contente que saiu às pressas para mostrar ao novo amigo contista. Na empolgação, esqueceu que era dia.
O sol já dominava o céu.
O primeiro clarão tocou-lhe o rosto. Depois o peito. Depois tudo.
Virou uma tocha humana na calçada do Wilson Vaz.
O papel também pegou fogo em sua mão, consumindo versos que jamais seriam lidos.
Os curiosos correram para resenhar a cena. Depois de muitas teorias, alguém falou no meio do magote:
— Ele se matou porque o Bozo está na papudinha!
Mas ninguém ali suspeitou da verdade.
O vampiro não morreu de política. Morreu de literatura.


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