O pastor e a salsinha
Quem o visse no púlpito, julgaria tratar-se de alguém que jejua e, bem por tal razão, apto a pregar. Um Deus que imola o próprio filho tem no sacrifício o meio precípuo de salvar a alma. Correlato à salvação da alma, o castigo do corpo. Comer?, o necessário e obrigatório remédio. E, se assim é, não se guiar o crente pelo sabor, pelo prazer de comer. De prazer em prazer, a gula; e o crente guloso. De prazer em prazer, a luxúria; e o crente libidinoso. Para a mesa, receitava o pão ázimo, a erva amarga (almeirões e chicórias). E mandava cortar o açúcar da limonada e do café. Quando não o próprio café. Em cada sermão, a proscrição de um específico condimento. O trabalho inverso dos fitoterapeutas. Mel e fel, o fel! E então estaria garantido o céu onde residiria o melhor dos méis e dos vinhos. O que ninguém podia saber é que o pastor cultivava em casa uma horta clandestina. Uma horta num pequeno terreno, cujo acesso se dava por uma porta, estrategicamente colocada na parede de s...