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Morreu. Morreu? Morreu. Tô te dizendo. Mas morreu, morreu mesmo? Morreu. Cutuca aí pra ver se morreu mesmo. Olha. Aqui. É. Morreu mesmo. Tô te dizendo. Mas quem é? É alguém importante. Importante? No conozco. Todo mundo é importante para alguém. Fale por sua conta. Tem gente que não vale o pau que chupa. Baixou o nível. Perdão. Mas quem é? Não sei. Importa saber? Talvez. Morre tanta gente todo dia. É. E se fosse tu? Mas não é. E “e se” não existe. E é? É. E agora? Morreu, enterra. Choro? Chora, por via das dúvidas. Putz, tá chorando mesmo. Tu conhecia? Preciso conhecer para chorar? Não sei. Mas é triste mesmo. É. Mas não é de soluçar. Às vezes merecia. Merecia? Merecia morrer ou as lágrimas? Vou nessa. Vamos! Tá. E o morto? Que morto? Já foi. Vivo te dizendo isso: morreu, morreu. E o algortimo? Ah, vá!

ALICERCES

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  O mês, julho; o dia, 18; o ano, 1990. O sol, banhando o paralelo 13, fazia que os poucos viventes buscassem um lugar à sombra. Cá na terra, o que se via eram as largas fitas rasgadas na pele do cerrado, vermelhas e empoadas, leito das futuras avenidas, enquadrando porções de verde, pedaços de chão a que se emprestavam nomes estranhos: ARSE, ARNO, ARNE, ARSO, decorrente da matemática que divide a terra para multiplicar proprietários. O governo em movimento de mudança (geográfica); umas poucas casas tipo pré-fabricadas na “Vila dos Deputados”, disputadas por todos, a começar pelos caciques (muitos) e a terminar pelos “Ó ESSE”, os “Oreia Seca”, invenção popular referindo-se aos trabalhadores que cumpriam “Ordem de Serviço“. No mais, o Palácio de Governo e o prédio da Assembleia Legislativa, pré-fabricados em madeira. Na parte de trás do Palácio de Governo, persistiam dois enormes barracões montados em madeira compensada. Um deles abrigava as dependências da TV estatal, recém implant...

DONA BIBITA

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  Minha amiga, anos atrás, mudou-se para uma cidade mediana em seu estado natal e iniciou um trabalho em um antiquário. A loja vendia lindos moveis antigos, raros e de valor histórico, além de suntuosos objetos de decoração em porcelanas e cristais. Nos primeiros dias, ela tratou de ir conhecendo os clientes mais recorrentes da loja, e alguns moradores populares da cidade. Não escapou aos seus olhos a pequena Josefa. Josefa tinha entre vinte e trinta e cinco anos. A dificuldade em definir sua idade, era por conta de sua baixíssima estatura, pouco mais de um metro e quarenta em saltos altos, o que dava a ela uma aparência quase adolescente. Era natural da cidade, portanto, uma pessoa conhecida por quase todos dali. As crianças, ainda na fase infantil, deram-lhe o apelido de Bibita, que ela odiava. O apelido a perseguiu a vida toda e foi motivo de grandes discussões e, algumas vezes, até caso de polícia. Josefa passava em uma rua e não faltava quem gritasse, às escondidas, o sórdido ...

GATOS

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  Até que gostava de gatos. Achava-os elegantes e graciosos. Sempre manteve um em casa, com cuidados exclusivos. Pois, além da beleza, o gato cuidava de afugentar ratos e insetos. Preava pássaros imprudentes, pardais que enchiam de cisco as beiradas da casa. Efeito colateral inevitável que considerava excessiva, pois ao gato não faltava a ração suficiente. Matava pardais só por instinto. Nem o comia. O festival de penas e a carcaça do pássaro sujando a calçada. Até então, gostava de gatos. Entendia-os e se divertia, vendo sua agilidade e sua modorrice no sofá. Uma vida para poucos. Comer, dormir; dormir, comer. Tinha a destita de suas fezes, mais fétidas do que as de um cachorro ou mesmo de gente. Mas se é um gato só, contornável. Ocorre que, à sua porta, foram abandonando filhotes de gatos. Os filhos e a esposa, com dó, foram recolhendo-os, tratando deles. De um a um, chegaram a ser quatorze. No princípio, o miado desesperado dos pequenos órfãos que faziam das pessoas uma agência...

A avó

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  Acabara de nascer o netinho e a avó não cabia em si de tão feliz. Já tinha imaginado que a família não cresceria para além dos três filhos e duas noras. Os dias são difíceis e é necessário ter mais esperança que descrença para apostar no futuro, para entregar ao mundo uma nova criancinha, aliás, a mais linda do mundo, o netinho. É preciso acreditar que o país, mais adiante, tornar-se mais democrático, igualitário, justo, vencidos os preconceitos e intolerâncias, com mais consciência ecológica... E com direito à mais literatura que à pressa da leitura em textos elementares em redes sociais e de uso desavergonhado de IA. Para isso, enfim, milita a avó, afiando desde cedo sua foice e tomando nas mãos o seu martelo. Ou o computador. Tornara-se incapaz de concentrar-se no trabalho, o tempo todo à espera de que o netinho chorasse e pudesse, na qualidade de avó raiz ou quase, oferecer-lhe o colo. Com o colo, vêm as canções de ninar. Aí começou o problema. Inquietou-se um tanto com o rep...

Dinossauro

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  Fui surpreendido no trabalho por um telefonema aflito de casa. Era a funcionária: “Seu Zé, acuda, há um dinossauro dentro de casa”. Sem dar mais tempo para nada, desligou.  Mesmo não sendo um dinossauro, conjeturei, deve ser algo grave para ela alarmar assim. Que não fosse um bicho desses, mas talvez um jacaré-açu. Estava na cara que a gravidade era quase a mesma. Tranquilizei-me um pouco ao lembrar que ela frequentemente trocava os bichos uns pelos outros. Era a chance de o bicho ser menor e menos perigoso. Ainda que certa feita tenha exagerado jurando que uma lagartixa era um dragão de Komodo, era minha obrigação correr em socorro. Por via das dúvidas, acionei Bombeiros, SAMU, IBAMA, polícia e tudo quanto é órgão que me veio à cabeça. Não pude dispor dos préstimos dos tanques do Exército porque faziam faxina nas favelas cariocas.  Corri pra casa e quando lá cheguei os agentes de socorro e gente curiosa estavam indo embora de cara torcida. Aviei umas desculpas, que nem...

QUEIMADAS

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Vivi uma experiência em criança que guardei em segredo até o dia de hoje. A cena me foi tão contundente, tão forte que por dias e noites voltava a minha memória em momentos inesperados devolvendo instantaneamente a dor e o sofrimento que presenciei e que atravessaram meu espírito.  Andava por meus nove anos de idade e morava num pequeno prédio de um bairro bucólico do Rio de Janeiro – a Tijuca e sua emblemática floresta. Estava de férias e minha traquinagem matutina predileta consistia em descer as escadas do edifício, a partir do quarto andar, trocando pães e litros de leite das portas de todos os apartamentos que alcançava numa sorrateira carreira. Quando as famílias acordavam, criava-se uma confusão trajada de pijamas camisolas e caras de sono estupefatas entre os moradores. Pois houve o dia em que me pus à escada para cumprir minhas obrigações de moleque e deparei com uma mulher grávida, nua, com o corpo em chamas. Os braços abertos acima da cabeça, olhos esbugalhados, choro co...