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Do amor e suas demências

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                Nós, às vezes, nos embrenhamos de tal forma nas recordações do passado, que o já acontecido se levanta das vias da memória e se corporifica no presente. Conceição Evaristo, Canção para ninar menino grande .   A leitura de Conceição Evaristo e a história de Fio Jasmim a levam à urgência da escrita, não aquela pretendida, que deveria registrar, enfim, em termos teóricos, incidindo na descrição da forma da escrevivência, mas uma outra, a subjetiva, ainda sem forma, pela insaciável presença da memória que irrompe sob a provocação do encontro com a narrativa poética. E então. Lembrou-se do tempo em que tinha o sujeito – que considerava amar – como o grande interlocutor. A esse pobre sujeito eleito, à revelia de suas desconhecidas vontades, destinava tudo que escrevia. E pensava. Era para ela uma espécie de amigo imaginário, inventado certamente pela incapacidade de resistir na solidão. Em vez de and...

O pastor e a salsinha

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  Quem o visse no púlpito, julgaria tratar-se de alguém que jejua e, bem por tal razão, apto a pregar. Um Deus que imola o próprio filho tem no sacrifício o meio precípuo de salvar a alma. Correlato à salvação da alma, o castigo do corpo. Comer?, o necessário e obrigatório remédio. E, se assim é, não se guiar o crente pelo sabor, pelo prazer de comer. De prazer em prazer, a gula; e o crente guloso. De prazer em prazer, a luxúria;  e o crente libidinoso. Para a mesa, receitava o pão ázimo, a erva amarga (almeirões e chicórias). E mandava cortar o açúcar da limonada e do café. Quando não o próprio café. Em cada sermão, a proscrição de um específico condimento. O trabalho inverso dos fitoterapeutas. Mel e fel, o fel! E então estaria garantido o céu onde residiria o melhor dos méis e dos vinhos. O que ninguém podia saber é que o pastor cultivava em casa uma horta clandestina. Uma horta num pequeno terreno, cujo acesso se dava por uma porta, estrategicamente colocada na parede de s...

Carnavais

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  Mais uma vez, estamos em pleno Carnaval. É assim mesmo, com maiúscula. Se você buscar na Wikipedia, vai receber a informação de que Carnaval é uma festa do cristianismo ocidental que ocorre antes da quaresma. A informação é só meia verdade. A verdade é que o cristianismo copiou ou suportou essa festa pagã e muitíssimo popular, que fazia furor nas Saturnálias, festa em homenagem ao deus Saturno. Tinha até a eleição de um falso rei (sempre um plebeu), semente histórica do nosso Rei Momo. Durante o período da Saturnália, todas as relações sociais eram invertidas: lautas mesas eram colocadas à disposição do povão, que tinha muitas regalias reservadas, em tempos normais aos nobres e ricos. E reinava o rei plebeu. No Brasil, o Carnaval seguiu a tradição do original, a Saturnália, com eleição de Momo, que se adorna com rico manto, coroa e cetro, enquanto comanda a folia; o povo tem liberdade fora de todas as medidas dos tempos “normais” e vemos homens fantasiados de mulher, mulheres...

A onça cantora

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  Há casos que um cronista jamais deveria contar — por mais interessantes que sejam — para evitar risco de ser confundido com caçador ou pescador. Por achar que há mais absurdo na vida do que numa história — entre tantas que acontecem ou são inventadas —,  não vou deixar de contar a que ouvi na fazenda em conversa de peão. Manoel entretinha com seu fabulário — no intervalo do almoço — os oito homens que roçavam pasto. Boquiabertos, deixavam-se levar pela vivacidade do vaqueiro quando ele resolveu então forçar a credulidade dos peões com a história da onça cantora. “Cantora?”, surpreendeu-se um. “Cantora, sim”, reafirmou Manoel. O homem calou-se, mas olhou para os companheiros em busca de aprovação para a suspeita de que ouviriam uma mentira. Um velho de pele curtida piscou um olho para acalmar o incrédulo e permitir Manoel ir avante. E ele não esperou: “Numa noite de puro breu eu, o Anacleto e o Zózimo fomos caçar uma onça faminta que andava comendo bezerros na fazenda. Pratic...

A volta de Pelé

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  Solé ficou cismado. Como quê do nada, aquele cãozinho estranho aparecera na porta de casa e dali não arredava as patas. Bastava entreabrir o portão e como um zás o bichinho se escalavrava entre as frestas de ferro e a parede e adentrava a casa como se possuísse intimidade com o ambiente, a posição e a característica dos móveis, a disposição dos cômodos, com as pessoas. Fazia a leitura da área nos fundos através do olfato e deitava estirado, relaxado ao pé da rede. Quando o cãozinho viu Ramiro, filho de Solé, hoje com oito ou nove anos, foi como um reencontro entre velhos amigos separados pelo tempo. Solé ficou grilado. Ficou grilado, mas não deu muita importância. Eram tantos os cães nas alamedas da quadra 31 que nenhum dos moradores distinguia com exatidão quem era dono de quem. Chusmas vadias de cães costumavam acompanhar as brincadeiras e folguedos das crianças nas calçadas e, às tardes mornas, deitavam no meio da rua para uma confraternização típica. Um coçava as costas se es...

Crônico Tocantins

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  O Estado do Tocantins foi criado na Assembleia Constituinte de 1988 com o objetivo de desenvolver social e economicamente a Região Norte do então Estado de Goiás. É fato, quem aqui vive desde o século passado sabe que os políticos goianos só apareciam nessa região em tempos de pleitos eleitorais. É vero que melhorou bastante. Antes, não tínhamos quase nada de rodovias asfaltadas, apenas a Belém-Brasília. Hoje, essa realidade mudou e muito, para melhor. Nem pontes dignas, o que também melhorou bastante, permitindo o acesso e o melhor escoamento da nossa produção agrícola. E sequer dignos hospitais, o que fazia com que, diante de questões de Saúde, as famílias daqui se deslocassem para Goiânia, Brasília ou outra capital mais próxima. Chegando aos seus 38 de idade, o Tocantins, por outro lado, virou motivo de chacota em todo o país devido ao alto grau de corrupção – principalmente no executivo estadual – já que dos seus nove governadores instituídos até então, desde 2006, nenhum dos...

O nosso tocantino Povo do Sol

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  Há povos que se explicam por mapas. O nosso se explica pelo sol. O Povo do Sol é irmão da claridade, aprende a conversar com ela. Levanta cedo, porque o dia chama, e o cerrado responde. O sol não castiga: ensina. Ensina a resistir, a esperar a hora certa, a beber água com gratidão e a rir quando a sombra chega. Somos gente de sertão adentro e de beira de rio. Gente que conhece o chão pelo pé firme e o tempo pelo canto do passarinho. Resistimos como quem planta: sem pressa, com teimosia boa. O sol bate forte, mas a alma aprende a dançar no calor. E dança. Dança ao som dos tambores e rodas de folia porque viver também é festa. Quando o encontro acontece, o sertão vira salão de chão batido. Há riso espalhado, comida simples, conversa comprida. O corpo canta antes da voz. E a alegria, essa alegria que não se compra, aparece como quem sempre esteve ali, sentada num banco de madeira, esperando a prosa começar. Somos também povo de reza em igrejas, ruas e romarias. A fé caminha. Vai nas...