Postagens

O CASO DA MOÇA COM AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

Imagem
Soube há pouco do falecimento do professor, pesquisador e escritor Affonso Romano de Sant’Anna. Não sabia que estava doente, que tinha Alzheimer, essa doença que me assusta, porque sei que tudo o que somos se vai quando a memória acaba, que sem memória não há propriamente um sujeito. Segue logo depois de sua companheira, Marina Colasanti, o que me leva a pensar nos laços que ligam as pessoas, na ausência que conta para a decisão de partir, mesmo que precária seja a capacidade da vontade.  Daí me lembrei do caso da moça com o poeta. Vou contar brevemente, eliminando muitos detalhes, porque há coisas que ela não me autoriza a revelar, outras sim.  Ela fazia então uma curso de especialização. Uma primeira disciplina tinha sido um desastre: a professora de Tecnologia Educacional falava das técnicas, metodologias, tecnologias e ela discutia que tudo isso seria secundário, porque havia algo mais profundo e determinante, que seria, por exemplo, o recorte de natureza ideológica dos co...

QUANDO CHOVE SOBRE O CERRADO

Imagem
Filho desse cerrado agreste, herdeiro de um sol implacável e generoso. Nos olhos e no paladar vivencio outra sorte de estação quando chega esse tempinho de chuva. Na memória afetiva e no diário de leituras faiscam lembranças recorrentes.  Recordo quando corri os olhos sobre o romance "Chove sobre minha infância", de Miguel Sanches Neto. Durante a leitura, o autor me fez resgatar mais um embornal de recordações dos dias de chuva, quando de minha infância sertaneja: “Chovia demais naquela manhã, uma chuva que molhava o piso de vermelhão da varanda da casa onde morávamos... A chuva alagando o território onde aquele que fui brincava de escorregar no piso.” Tempos depois, vi o filme "Está chovendo sobre Santiago", fiquei me perguntando sobre o sentido do título e refletindo acerca dos desdobramentos do golpe de estado chileno, uma longa e pesada noite iniciada no ano de 1973. No anúncio das primeiras chuvas do ano, renova-se a expectativa de sempre: tempo do pequi, burit...

O Ermitão da Serra do Lajeado

Imagem
  Dizem que ele chegou faz tempo, mas tempo de mato, que não se conta em calendário, só em poeira e sol. Uns falam que deram fé dele numa tarde quente, quando o céu de Palmas sangra de laranja antes da noite engolir tudo. Outros garantem que ele sempre esteve por ali, feito pedra antiga, feito vento de agosto. Mora lá no alto da serra, escondido entre os galhos retorcidos e os murmúrios da mata. Não tem casa, tem gruta. Não tem vizinho, tem bicho. Dizem que ele conversa com as corujas e entende o que as formigas cochicham. De comer, ele se ajeita com os frutos que o mato dá: pega cagaita, ingá, araticum. Às vezes, quando tem fartura, acham que ele faz fogo e assa mandioca brava. De beber, só água das cachoeiras, porque rio, quando não tá seco, corre limpo. Mas não tá só. Nunca tá. Um lobo-guará anda sempre a seu lado, bicho esguio, de pelo vermelho queimado de sol. Dizem que o velho achou ele ainda pequeno, magro, abandonado na beirada da trilha. Criou como se fosse de sangue. O lo...

A morte da fantasia

Imagem
2025 nos trouxe, neste março, verdadeiro Carnaval marciano, a julgar pelo que vejo nas telas da TV e celulares. Alguns canais mostram o que (ainda) resta da folia tradicional, dando conta de certa quota de saudosismo, mas também mostram a morte lenta da festividade, com áreas necrosadas pela oficialidade. A cidade do Rio de Janeiro, constato, continua a faturar alto com a festa de Momo e sua enorme infraestrutura que alimenta o mercado de trabalho durante todo o ano, num trabalho cotidiano nos galpões das escolas de samba; por outro lado, deparo com notícias de mais e mais cidades que oficialmente cancelaram o investimento na festa.  As razões são variadas, indo de “contenção de gastos com o supérfluo” até “prevenção do aumento da Covid”, mas por trás das razões oficiais há a ação de um vírus cultural que se apresentou já há alguns anos, travestido de “Carnaval da fé”. Não consigo me furtar da sensação de que se trata de um paradoxo do paradoxo. Como se sabe, o Carnaval é uma festa...

CO YVY ORE RETAMA

Imagem
  Era um lugar bom, um cerrado vasto, de ventos secos e árvores retorcidas. Ali, os bichos seguiam sabendo as nuances do chão de quimeras e resistência. O lobo-guará, sempre atento com seu andar silencioso, o tamanduá-bandeira, que fazia suas rondas em busca de formigas, e o tatu, mestre em cavar buracos profundos para se proteger do calor. Todos viviam em harmonia, conhecendo os segredos daquele solo duro e as chuvas que vinham certeiras. Mas, com o tempo, as coisas mudaram. O cerrado começou a receber visitinhas de bichos vindos de florestas úmidas e densas, de terras pantanosas e até de montanhas geladas. Veio o King Kong, que saltava entre as árvores como se tudo ali fosse brincadeira. O urso, com seu jeitão bonachão, decidiu que aquele lugar precisava de mais frio, trazendo um caminhão lotado de ar-condicionado. Veio também o urubu-rei, de terras distantes, que se instalou no topo de um ipê e passou a gritar ordens para todos. E assim, os bichos do cerrado ficaram desorientado...

De onde você é

Imagem
  De onde você é? Perceba que a pergunta não é “onde você nasceu?”. No entanto, insistimos em res-ponder “de onde você é?” falando onde nós nascemos. E não é bem por aí. Eu, por exemplo, nasci em São Luís (MA), mas nunca morei lá. Adoro dizer que sou ludovicense, mas não sou ludovicense. Minha primeira infância foi toda no Piauí, em Teresina, 9 anos, e em Parnaíba, apenas 1 bom ano pertinho da praia antes de me mudar para Palmas (TO). Em Palmas, morei 15 anos direto. Quiquei 7 anos fora, em São Paulo e no Rio, onde frequentemente me perguntavam: de onde você é? Aí vinha o meu dilema. Eu nunca tinha ido aos Lençóis Maranhenses, nunca vi o Boi da Maioba, logo, não sou maranhense. Também não podia dizer que era piauiense. É certo que fui em Sete Cidades, comi carne de sol em Campo Maior e já velejei pelo Delta do Parnaíba. Mas eu não sei emular o sotaque único do piauiense, muito menos do teresinense. Para completar, eu nunca fui visitar Niède Guidon na Serra da Capivara. E tocantine...

Eu e Jamie

Imagem
  Li dias atrás um artigo científico que dizia, e apresentava dados convincentes, que as pessoas estão se deixando ficar mais e mais à frente do computador. E o mais grave não era isso, era o conteúdo consumido, em sua maioria puro lixo digital. Por conta disso, concluía o estudo, as pessoas estão emburrecendo.  Olhei para o computador e imediato imaginei-o uma bomba-relógio que um dia explodirá e atestei que me tornei um dos zumbis da pesquisa. Dormi mal várias noites, encucado com o assunto. Quando acordava e me levantava para o café, olhava Jamie, meu cachorro, e imaginava-o caninamente feliz por não ter essas preocupações. No quinto dia após a leitura, voltei a sonhar. Suara muito e acordei várias vezes na noite aterrorizado com a repetição do mesmo sonho. No sonho, Jamie havia ocupado minha biblioteca, que andava às traças havia muito tempo, e ao tentar desalojá-lo, ele me dizia simplesmente que enfim ela voltara a ter utilidade. E o que andava fazendo? Resolvendo grande...