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Crônico Tocantins

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  O Estado do Tocantins foi criado na Assembleia Constituinte de 1988 com o objetivo de desenvolver social e economicamente a Região Norte do então Estado de Goiás. É fato, quem aqui vive desde o século passado sabe que os políticos goianos só apareciam nessa região em tempos de pleitos eleitorais. É vero que melhorou bastante. Antes, não tínhamos quase nada de rodovias asfaltadas, apenas a Belém-Brasília. Hoje, essa realidade mudou e muito, para melhor. Nem pontes dignas, o que também melhorou bastante, permitindo o acesso e o melhor escoamento da nossa produção agrícola. E sequer dignos hospitais, o que fazia com que, diante de questões de Saúde, as famílias daqui se deslocassem para Goiânia, Brasília ou outra capital mais próxima. Chegando aos seus 38 de idade, o Tocantins, por outro lado, virou motivo de chacota em todo o país devido ao alto grau de corrupção – principalmente no executivo estadual – já que dos seus nove governadores instituídos até então, desde 2006, nenhum dos...

O nosso tocantino Povo do Sol

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  Há povos que se explicam por mapas. O nosso se explica pelo sol. O Povo do Sol é irmão da claridade, aprende a conversar com ela. Levanta cedo, porque o dia chama, e o cerrado responde. O sol não castiga: ensina. Ensina a resistir, a esperar a hora certa, a beber água com gratidão e a rir quando a sombra chega. Somos gente de sertão adentro e de beira de rio. Gente que conhece o chão pelo pé firme e o tempo pelo canto do passarinho. Resistimos como quem planta: sem pressa, com teimosia boa. O sol bate forte, mas a alma aprende a dançar no calor. E dança. Dança ao som dos tambores e rodas de folia porque viver também é festa. Quando o encontro acontece, o sertão vira salão de chão batido. Há riso espalhado, comida simples, conversa comprida. O corpo canta antes da voz. E a alegria, essa alegria que não se compra, aparece como quem sempre esteve ali, sentada num banco de madeira, esperando a prosa começar. Somos também povo de reza em igrejas, ruas e romarias. A fé caminha. Vai nas...

Maria das Caatingas

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            A seca na vegetação denuncia a ausência de chuva, os galhos retorcidos imprimem o retrato da estiagem. A esperança nos olhos de Maria não era verde, era da cor da paisagem e parecia querer enxergar muito além das serras e dos baixões. A seca, seca as lágrimas, endurece os corações, ainda assim Maria sentia despertar um novo amor no fundo de suas entranhas. Naquele mundo o sofrimento parecia ter construído morada, coronéis decidiam os destinos das pessoas, ora protegendo, ora condenando conforme seus interesses. Sua opinião não podia ser confrontada, era a lei.          Um pensamento entretanto há dias vinha cutucando o juízo de Maria, chegara o momento de tomar sua mais difícil decisão; abandonar o marido e entrar pro cangaço ao lado do homem que lhe despertara aquele amor. Juntou um punhado de afetos e um restinho de alegria e seguiu seu destino com suas alpercatas de couro lhe ensinando os caminhos das caatingas. Era u...

Terror no ar

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  Aos fogos de festejo do primeiro de janeiro, seguiram-se os fogos do terror no dia terceiro deste 2026. Ainda ecoava na madrugada bêbada e já um tanto de ressaca, os acordes de tim-tins das taças e dos augúrios de “feliz ano novo”. Os mais embriagados ainda não haviam enviado os tais votos e já o céu de Caracas se rompia com os fogos dos caças. Primeira notícia ao acordar da manhã, o crime cometido contra Venezuela enchia telejornais, reels, vídeos e mentes. O mundo reagiu; os países condenaram o ataque à soberania; comentaristas da política, da geopolítica, da economia trataram de fazer suas leituras do ato de guerra, onde se raptou não apenas o presidente do país, mas também sua esposa. Dentre as muitas milhares de reações nas redes sociais, já se podiam ler as entrelinhas do medo ou da satisfação, da incredulidade, da comiseração, da revolta. Sim, o império havia assassinado o “feliz 2026”, inaugurando o ano de incertezas, medo, corrida às armas na América do Sul. Eu, bestific...

Tudo de novo

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  Tudo de novo. Adeus Ano Velho. Lá no décimo segundo andar do Ano. Quero justamente trazer à memória aquilo que me dá esperança. Afinal, tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida, é esse minuto que está passando. Mesmo que brasileiro deixe tudo para a última hora. Tudo pavê.  Tudo de novo. Em camadas. A mesma canção. O mesmo poema. O mesmo versículo. A mesma citação. A mesma matéria no jornal sobre as filas nos shoppings e supermercados. A mesma piada. Tudo de novo. Mas quando se tem sorte – e você sabe que sorte não é necessariamente sinônimo de coisa boa –, você reencontra as mesmas pessoas, o mesmo cardápio, os mesmos sentimentos, o mesmo lugar, o mesmo tudo. Tudo de novo, tudo novamente, tudo novo de novo. Tudo como deve ser. O eterno retorno:  “Em cada agora, o ser começa; em torno de cada aqui, rola a esfera do ali. O centro está em toda parte. Curvo é o caminho da eternidade.” Tudo é novo. Se a gente esticar a régua, tudo é novo. Tudo de novo para você....

Chegar partir ficar

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Sim, são verbos. Decorei-os na sua conjugação completa. Verbo e tabuada eram tarefas a dar decor. Chego, chegas, chega ... Parto, partes, parte ... Fico, ficas, fica ... Todo mundo achava que os futuros do presente e do passado eram de conjugação mais complexa. Um dia, caí na esparrela de conjugar somar no futuro do passado: somaria . E eu era José, ainda que maricas. Hoje sou maricas, e continuo sendo José. Lembro do mentecapto de Fernando Sabino, numa disputa de conjugação de verbos, quando lhe pedem para conjugar o verbo pelocupar no condicional. Sabido é que o louco é motivo de riso, porque do riso mesmo ele nunca comunga. O louco é muito sério nas suas certezas. Mas não é nada disso que quero constar dos verbos chegar partir ficar . É que verbos em títulos de textos me remetem aos anos iniciais da escolaridade. Eu quero falar de um colibri e de um prendedor-de-roupas e de suas singulares ontologias. Era um meio de tarde no tempo da seca. A janela do quarto dá vista para o var...

Contas a pagar

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  Tem um amigo que me enxergou de tresvez, certa vez. Preciso sentar com ele e mostrar meu lado de menino. Um irmão, certa vez, me tirou seu brilho de herói que eu trazia na minha retina de menino. Preciso ver ele pelos meus olhos de dentro. Meu cunhado, que eu tanto achava homem, se mostrou um menino perdido e eu não tive a bondade de abrir meus olhos infantis e revê-lo. Outro irmão, que eu achava invencível, se mostrou na sua plenitude: um ser humano buscando o seu pertencimento. E eu, embevecido pela beleza do momento que vivia, não lhe dei a mão no momento certo. Um terceiro irmão, que eu sempre considerava um mito, um indestrutível, se revelou demasiado humano. Tento remontar as memórias que dele trago, pra vê-lo amanhã impoluto e digno. Minha irmã, que eu sempre trouxe comigo como uma Eterna meninhinha, plena da força interminável da alegria da perfeita infância, se revelou uma mulher e mãe, absolutas. Resta me curvar, eternamente, a ela. Minha mãe, que me mos...