O nosso tocantino Povo do Sol

 




Há povos que se explicam por mapas. O nosso se explica pelo sol.

O Povo do Sol é irmão da claridade, aprende a conversar com ela. Levanta cedo, porque o dia chama, e o cerrado responde. O sol não castiga: ensina. Ensina a resistir, a esperar a hora certa, a beber água com gratidão e a rir quando a sombra chega.

Somos gente de sertão adentro e de beira de rio. Gente que conhece o chão pelo pé firme e o tempo pelo canto do passarinho. Resistimos como quem planta: sem pressa, com teimosia boa. O sol bate forte, mas a alma aprende a dançar no calor. E dança. Dança ao som dos tambores e rodas de folia porque viver também é festa.

Quando o encontro acontece, o sertão vira salão de chão batido. Há riso espalhado, comida simples, conversa comprida. O corpo canta antes da voz. E a alegria, essa alegria que não se compra, aparece como quem sempre esteve ali, sentada num banco de madeira, esperando a prosa começar.

Somos também povo de reza em igrejas, ruas e romarias. A fé caminha. Vai nas folias, nos foliões de cabeceira, nos alferes atentos, nos violeiros que afinam o coração, nos pandeiros que marcam o passo da esperança. As cantorias contam histórias da gente do lugar: dores, milagres, promessas. A reza não pesa; ela atravessa o sertão como rio manso.

Ser tocantino é ser cerrado e serra e rio. É aprender que a vida floresce onde parece improvável. É saber que o sol pode ser bússola. É carregar no peito uma alegria resistente, dessas que não se rendem.

Nós somos o Povo do Sol.

E seguimos cantando, rezando, dançando, até que a tarde fique dourada e a noite, agradecida.




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