Anos Dourados

 


Acabo de ler o comentário de um amigo escritor que aponta os equívocos no boneco de um livro em relação a seus poemas. O diagramador rearranjou os versos ao Deus dará e, obviamente, o sentido, o ritmo, a estética etc. foram para o beleléu, virando coisa bem diferente do que foi enviado para a publicação. Lembrei-me então de um tempo, há muito tempo, quando, em Barra Mansa e ainda estudante da graduação, participava como autora e copidesque do Jornal do Barrão. 

O jornal saía sem muita regularidade. Tínhamos que conseguir patrocinadores e anunciantes, o que não era fácil. Enquanto os jornais tradicionais da cidade tinham lá seus recursos, mas também uma linha editorial muito colada à política local, o nosso era de esquerda, num momento em que mal saíamos dos anos de ditadura. 

Um padre, o Silva, escrevia a seção de horóscopo. Dizia entender do recado. Não rabiscava nada que lembrasse diagramas celestes, nunca o vi olhando o céu para ver o arranjo dos astros, mas lá estava a seção garantida. Talvez fosse poética. Já não sei. Eu, muito arrogante, fazia resenha de filmes. Na época não se dava atenção a estudos que tratam da estrutura dos gêneros. Qualquer aluno hoje aprende isso na educação básica, porque a proposta de ensinar a estrutura dos gêneros orienta a constituição dos currículos escolares, dos livros didáticos e corresponde às abordagens teóricas que dominam o campo do ensino da disciplina de língua portuguesa. Eu não pensava nada, só escrevia minhas impressões e de um jeito poético demais, truncado certamente, sem atender a aspectos elementares de coesão e coerência. E eu lá entendia alguma coisa da linguagem do cinema? Até hoje não sei nada. Se for escrever algo, é certamente impressionista.

Também era responsável pela seção literária. Lá estava eu escrevendo sobre literatura, a amiga Irene, esposa do dono do jornal, escrevendo também. Nossos poeminhas circulavam lá semanalmente, ou quinzenalmente, ou mensalmente... 

Uma vez, houve um caso de uma mulher que tomou uma injeção no hospital público e ficou com o braço paralisado. Rendeu manchete para três edições. Como revisora, ia lá e corrigia: paralisia é com S. Vinha o jornal impresso dias depois, direto da gráfica que funcionava em Valença, grafando paralisia com Z. 

Lembro-me de uma tarde de sábado em que discutíamos a pauta e alguém, acho que o Chumbinho, reclamou que tínhamos que parar de falar da mulher com o braço paralisado. Eu amava aquelas reuniões. 

O que me motiva a escrever esta crônica, porém, é relativa à seção literária. Eu dizia lá alguma coisa sobre literatura e transcrevia trechos de poemas de Drummond, Bandeira, Cecília Meireles. Quando o jornal vinha da gráfica, eis a poesia transformada em prosa, tudo misturado num parágrafo só. 

Quando Marco ia com os textos impressos e revisados para Valença, eu punha recadinho para o tipógrafo: paralisia é com S. O poema tem versos, cada verso fica em uma linha, não pode mudar. Nada adiantava. O responsável organizava como bem entendia. Eu, a revisora, fazia trabalho em vão. Foram, contudo, anos dourados. Sem dinheiro. Sem formação. Muita petulância. E a firme crença de que podíamos mudar o mundo. Não o mudamos ainda, mas a vontade permanece, apesar do tempo. Os anos dourados sobrevivem em mim, com Marco, Irene, Silva, Chumbinho, o povo do Barrão.

luiza silva escritora tocantinense ufnt


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