A exemplar Canoinhas
Há uma Ciência da Literatura, conhecida
como Crítica Literária. E há uma Moral sobre a Literatura que deveria ser
batizada por Novus Index Prohibitorum Contemporaneum (NIPCon). Eu que
odeio siglas, por achá-las uma preguiça da língua, vou-me permitir uma exceção.
Conste-se o NIPCon. A Ciência da Literatura tem suas fogueiras. O NIPCon muito
mais. Ambos só têm existências atiçando chamas e atirando achas à fogueira.
Outro
dia, queriam o Itamar na fogueira, acusando-o de anacronismo estilístico, caducada
originalidade e clichê pelo retorno a uma narrativa regionalista. Também, na
França, crivaram o jovem escritor Louis Édouard pelo uso de experiências
pessoais, das violências domésticas, pelos sofrimentos recebidos por ser gay,
de usurpar o status de romancista reconhecido. A Crítica edifica suas fogueiras,
borrifa suas águas bentas e sutiliza seus manuais de exorcismo. Felizmente, a
criação literária, para ser genuína, ocorre longe do seu alcance. Poetas, contistas, romancistas não escrevem
para críticos. Felizmente. E sobrevivem, para o desgosto dela, graças aos
leitores que lhes sobrevêm ao acaso.
Mas,
para ser justo, nem sempre a Crítica armas fogueiras. Às vezes, edifica
altares.
O
que não ocorre com o NIPCon. Ele não promove altares; promove incineradores.
Adota uma política de cancelamento. Uma política perversa, pois vê nos livros
algo como erva daninha e busca sua estirpação. Detém o poder político do amparo
à arte e decide sobre o que deve ser indicado, transitado e consumido sob o
rótulo de ensino. Já não basta a tarefa hercúlea dos autores à procura de uma
luz pública, de conhecimento e reconhecimento, de sobrevivência como criadores
de arte. É preciso fazê-los passar pelo imprimatur de uma moral
tradicional tacanha, convicta de que encarna a defesa de valores em risco, como
a família, a religião e o Estado.
Lembro
da luta de Ezequiel Teodoro da Silva em favor da constituição de bibliotecas
escolares e, por conta disso, a criação dos Congressos de Leitura – COLEs, na
Unicamp. E lembro que, no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso – o MEC
sob o comando de Paulo Renato – as escolas passaram a receber livros literários
e outros em quantidade razoável. Daí para frente, comissões de professores
passaram a avaliar livros que seriam indicados para leituras em sala-de-aula. Nem
aí as fogueiras foram extintas. Presumidos críticos, munidos do politicamente
correto, puseram-se a excluir autores que traziam, em suas narrativas, marcas
de racismo, misoginia, apologias outras que poderiam fazer perdurar o
estrutural de uma sociedade que precisava ser desconstruída. Até aí, apesar de
não ser concorde com a mutilação das obras de arte, concedo certa razão.
Mas
o NIPCon levou este ensejo de volta à Idade Média. Justo no momento em que a
Criação Literária passou a dar voz a minorias, a acolher em sua lavoura uma
consciência positiva em relação à mulher, ao gay, ao negro, à causa da pessoa
transsexual, ao corpo, enfim, lá vem a procissão dos guardiões dos valores
tradicionais com sua patrulha e patrola. Exemplo cabal vem de uma pequena
cidade catarinense, Canoinhas, cuja prefeita foi pessoalmente conferir a última
remessa de livros do governo federal para a Biblioteca Municipal. Saiu do
recinto sobraçada com livros para jogá-los na lata do lixo. Pediu para ser
filmada como boa militante em favor da boa formação de crianças e adolescentes
de seu município. Em suas palavras, no seu município, ninguém seria doutrinado
por doações petistas. Que, no seu município, crianças não seriam
desencaminhadas da moral cristã. Não enquanto prefeita fosse.
Entre
os livros arremessados ao lixo, Capitães da areia, de Jorge Amado.
Estaria livrando crianças e suas famílias do veneno que há em livros como este.
Vi seu vídeo no início de maio. Agora, no fim de maio, leio sobre o veto de A
bolsa amarela, de Lígia Bojunga Nunes, numa escola militar. Um livro que há
vinte e cinco anos atrás li e que fazia parte da primeira remessa do MEC. Livro
maravilhoso, cuja narradora é uma menina que observa o mundo dos adultos e seus
afazeres. Lembro que, entre os seres que ela vislumbra, justamente por ser
protelada das atenções adultas, existia um galo-de-briga. Não sabia fazer outra
coisa este galo. Só pensava em briga. Porque tinha o pensamento costurado.
Este
galo, de pensamento costurado, é a prefeita de Canoinhas. E todos os
que, pelos mesmos ou diferidos motivos, querem incinerar ou amputar obras de
arte. Ao primeiro livro de poemas que publiquei dei o título Pequeno Tratado
de Ateologia. Nem sonho que venha a circular em algum recinto de ensino. O
segundo, Eitos e Leitos, idem, por transparecer nele um teor
homoafetivo. Nem tudo o que escrevo de poesia
segue estas águas. Mas publiquei Clânicos que é tão somente uma
poesia homoerótica. Rapazes de Henry – Meninos de Sorolla, ilustrado,
com poemas identicamente homoeróticos. Pelo trote destes cavalos, não sou poeta
nem escritor; sou, em suma, lenhador: aquele que pica lenha para fogueiras.
Admito
críticos literários, no que eles positivam e no que eles erram. Afinal, sou um.
Para o NIPCon, no entanto, minha sovada repugnância. Sovada sim, porque massa
sovada só faz crescer.



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