Terror no ar
Aos fogos de festejo do primeiro de janeiro, seguiram-se os fogos do terror no dia terceiro deste 2026.
Ainda ecoava na madrugada bêbada e já um tanto de ressaca, os acordes de tim-tins das taças e dos augúrios de “feliz ano novo”. Os mais embriagados ainda não haviam enviado os tais votos e já o céu de Caracas se rompia com os fogos dos caças.
Primeira notícia ao acordar da manhã, o crime cometido contra Venezuela enchia telejornais, reels, vídeos e mentes.
O mundo reagiu; os países condenaram o ataque à soberania; comentaristas da política, da geopolítica, da economia trataram de fazer suas leituras do ato de guerra, onde se raptou não apenas o presidente do país, mas também sua esposa.
Dentre as muitas milhares de reações nas redes sociais, já se podiam ler as entrelinhas do medo ou da satisfação, da incredulidade, da comiseração, da revolta. Sim, o império havia assassinado o “feliz 2026”, inaugurando o ano de incertezas, medo, corrida às armas na América do Sul.
Eu, bestificado diante das tantas expressões, expresso minha solidariedade ao povo venezuelano, sem deixar de anotar a felicidade dos que se comprazem com o horror patrocinado pelo império.
Quedo a pensar sobre a ingenuidade dos que creem nos discursos de “caça aos narcotraficantes”, numa realidade que demonstra claramente a sede de petróleo pesado, ao gosto dos atacantes.
Chego à conclusão de que ingenuidade só é genuína até certo ponto; daí em diante passa a se caracterizar como estupidez. O mesmo nível de estupidez que levou brasileiros de todas as classes a vestir suas cabeças vazias com o boné do MAGA. A respeito desse boné, os mais radicais defensores daquele movimento estadunidense se revoltaram e queimaram os adereços.
Na noite do dia quarto, o chefe imperial declara ao mundo que o império vai governar a Venezuela até a transição de regime. A nós implica esclarecer o que vem a ser “transição”. E essa transição simplesmente significa que o império quer o domínio do país que tem a maior reserva de petróleo em todo o planeta. E tem terras raras. E tem Amazônia. E tem grande oferta de água. Também tem narcotraficantes, como aliás, os há em todas as américas, pois trabalham para alimentar os grandes consumidores: EUA e Europa.
Compreende-se o desespero do império que se esgarça na política, que vira pó no comércio taxado, que se esvazia na economia mundial vendo ir pelo ralo sua moeda, que antes era alicerce de seu consumo desenfreado. Compreende-se o desespero do império quando se vê suplantado na tecnologia, onde antes era líder; quando ouve notícias de um tal Oreshnik, que pode explodir seu orgulho bélico; quando vê que a Nova Rota da Seda corrói seus vínculos de exploração comercial.
Sim, é compreensível a ação brutal após a constatação de que, apesar de todas as imposições comerciais, econômicas, industriais, não cessa o fluxo geopolítico da economia e, por decorrência, de sua paulatina queda, saindo da posição de sol no universo da unipolaridade para astro de terceira ou quarta grandeza no universo multipolar.
O que não se compreende é que haja estúpidos que se regozijam com o ataque. Particularmente se tais estúpidos habitam a Venezuela ou qualquer país da América do Sul ou América Central. E os há em abundância. Basta ver o carnaval que construíram nos meios de comunicação social. A maioria, engajada na triste aura da direita e na funesta da extrema direita. Não se dão conta que o ataque à Venezuela é a primeira conta do rosário terrífico do horror. A Colômbia, já o anunciou o pretenso imperador, é a próxima.
A nós, brasileiros, resta tentar concluir a que conta estamos integrados e reagir à altura para que não sejamos a peça última, na hora do “amém”.
No mais, se nos revela um infeliz ano novo, onde 2026 nos espera de boca aberta e dentes afiados.



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