MARIA DAS CAATINGAS

 


          A seca na vegetação denuncia a ausência de chuva, os galhos retorcidos imprimem o retrato da estiagem. A esperança nos olhos de Maria não era verde, era da cor da paisagem e parecia querer enxergar muito além das serras e dos baixões. A seca, seca as lágrimas, endurece os corações, ainda assim Maria sentia despertar um novo amor no fundo de suas entranhas. Naquele mundo o sofrimento parecia ter construído morada, coronéis decidiam os destinos das pessoas, ora protegendo, ora condenando conforme seus interesses. Sua opinião não podia ser confrontada, era a lei.

         Um pensamento entretanto há dias vinha cutucando o juízo de Maria, chegara o momento de tomar sua mais difícil decisão; abandonar o marido e entrar pro cangaço ao lado do homem que lhe despertara aquele amor. Juntou um punhado de afetos e um restinho de alegria e seguiu seu destino com suas alpercatas de couro lhe ensinando os caminhos das caatingas. Era uma entrega perigosa, sabia que o homem que amava tinha deixado de ser caçador, agora vira caça. Volantes de várias regiões, até mesmo voluntários disputavam aquela cabeça colocada a prêmio. 

          Essa vida de sobressaltos gera desconfiança, todos eram suspeitos, para complicar o governo de Getúlio autoriza as volantes a ultrapassarem as fronteiras dos estados. Os deslocamentos das tropas sem chamar a atenção ficaram cada dia mais difíceis, o grande estrategista parecia vacilar nas suas decisões. Ela não reclamava, estava sempre se mostrando disposta diante das circunstâncias. A Grota do Angico, parecia o lugar ideal para um bom descanso, a própria vegetação servia de proteção, tinha água para o banho e para a sede. Além de uns poucos coiteiro de merecida confiança.

          Local desconfortável é certo, mas seguro. Maria experimentou o abraço das águas e de olhos fechados sonhou um mundo de paz, onde pudesse adormecer nos braços do homem que seu amor escolheu. A noite ela espalhou afeto por seu corpo na intimidade do encontro, palavras de amor saltaram de sua boca como um vagalume que cavalga na noite feito estela perdida, afirmando que era possível amar mesmo diante de tanto sofrimento. Suas almas foram invadidas por uma paz desconhecida, foram transferidas para um outro mundo guardado por trincheiras de afetos e alegria.

           No silêncio daquela noite, inimigos astutos utilizando de suas habilidades conseguiram se aproximar do bando sem serem notados. Seus pés pisaram as folhas secas sem fazer nenhum ruído. Os raios de luz ainda não tinham tangido totalmente o escuro da noite quando a Grota do Angico recebeu uma chuva de balas certeiras da volante, anunciando o fim de Maria e escrevendo a última página do Cangaço. Suas cabeças foram decapitadas, mas Maria tinha asas e voou com seu homem pra longe daquele inferno, onde o amor pudesse ser praticado sem medo da morte.






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