ALICERCES

 

Osmar Casagrande, escritor tocantinense


O mês, julho; o dia, 18; o ano, 1990. O sol, banhando o paralelo 13, fazia que os poucos viventes buscassem um lugar à sombra. Cá na terra, o que se via eram as largas fitas rasgadas na pele do cerrado, vermelhas e empoadas, leito das futuras avenidas, enquadrando porções de verde, pedaços de chão a que se emprestavam nomes estranhos: ARSE, ARNO, ARNE, ARSO, decorrente da matemática que divide a terra para multiplicar proprietários.

O governo em movimento de mudança (geográfica); umas poucas casas tipo pré-fabricadas na “Vila dos Deputados”, disputadas por todos, a começar pelos caciques (muitos) e a terminar pelos “Ó ESSE”, os “Oreia Seca”, invenção popular referindo-se aos trabalhadores que cumpriam “Ordem de Serviço“. No mais, o Palácio de Governo e o prédio da Assembleia Legislativa, pré-fabricados em madeira.

Na parte de trás do Palácio de Governo, persistiam dois enormes barracões montados em madeira compensada. Um deles abrigava as dependências da TV estatal, recém implantada; o outro servia de dormitório para a peonada, os “O.S.” daquele canal de comunicação.

Foi no barracão da TV que encontrei, solitário, ilha em um mar de vazias mesas de escritório, Wilson de Oliveira, jornalista, profissional de TV e responsável geral pelo jornalismo, pela programação, pela TV, pela implantação, pelas matérias, pelas broncas, pelos jornalistas, pelo tijolão de uma hora de duração que ia ao ar em formato de jornal televisivo.

Certamente que, quando adentrei aquele barracão eu não sabia nada sobre aquele cidadão que batia, freneticamente, à máquina de escrever. Ao meu boa tarde ele respondeu com um eco e uma mirada por cima dos óculos, sem parar de castigar a Remington. Continuei: Sou formado em comunicação social e vejo que vocês estão inaugurando um canal de televisão. Creio que poderei ser útil nesse trabalho. Wilson de Oliveira, moreno, alto, magro, direto e seco: Você é jornalista? Eu, indeciso: Minha formação é em publicidade e propaganda. Wilson: não preciso de publicitário. Preciso de jornalista. Eu: Tenho um bom texto, que certamente será útil em muitos setores. Wilson de Oliveira, enfarado: Sente-se ali e escreva sobre almas. Eu, perdido, sem saber de que almas ele tratava, até que, num repente, Wilson se levanta, vai até um armário, saca um livro enorme, abre-o e o entrega a mim, a página ostentando dados históricos sobre a cidade de Almas. Tudo isso ele fez no modo automático, sem olhar-me.

Eu: Quantas linhas? Ele: Vinte. Faço o texto e, em tempo recorde, entrego-lhe o escrito. Wilson o toma e começa a leitura. No meio do texto ele se digna a olhar-me através das lentes. Termina a leitura e solicita outro: Natividade. Faço. Mostro.

Wilson de Oliveira, moreno, magro, alto, desempenado, competente e resolvido: Me acompanhe. Acompanho-o até uma porta que dá entrada a um corredor e acesso a outra porta e pequena sala, onde está o Dr. Luiz de Carvalho, presidente da Comunicatins. Wilson de Oliveira, direto: Doutor Luis, tem aqui um rapaz muito capacitado e sem frescura, buscando emprego. Doutor Luis: Contrata.

O Estado do Tocantins estava contratando o poeta que continuaria a plantar sonhos, começando o plantio com o programa Raízes da Terra, primeiro programa de cultura na TV Palmas, e colhendo as realidades de dormir no chão do outro barracão, chamado carinhosamente de “escorpiódromo”. Esses fatos são alicerces de Palmas.


Osmar Casagrande
Ciro Gonçalves




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